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FUTEBOL É PARA OS TONTOS
FUTEBOL É PARA OS TONTOS
Ruizinho fazia jus ao seu apelido, era bem "ruinzinho" em quase tudo o
que fazia. Pouco estudo e pouca inteligência, na cozinha não sabia fritar um
ovo, esquecia de arrumar a cama quase todos os dias, a roupa sempre tinha
um amarrotado ou botão caído, não conseguia contar uma anedota pois
deitava-se a rir antes do final, batia o pé direito quando todos estavam no
esquerdo, por qualquer distração errava o horário do ônibus, quase sempre
perdia a primeira aula ou a primeira parte do filme.
Quando resolveu trabalhar, vivia trocando de emprego, pois o vício de
atrasar-se todos os dias foi mantido em relação ao horário de trabalho. Foi
então estagiar na joalheria de um tio-padrinho, que, ao contrário de seus pais,
fazia-lhe todas as vontades, pois, não tendo filhos homens, fechava os olhos
para os atrasos do sobrinho, justificando aos demais empregados que ficar até
tarde com a galera e dormir de manhã “era coisa de rapaz, que na sua
juventude fazia até pior”.
Destacava-se, entretanto, em simpatia e fidelidade aos amigos, apesar
de todos percalços vivia de bom humor, por esse motivo era convidado, em
último caso, para completar o time de futebol, seja da escola, da turma do
quarteirão ou da empresa, e sempre com a mesma “competência”. Atrasado,
como sempre, perna de pau, atrapalhava-se tanto para encontrar a bola que,
ao encontrá-la, repetia o mesmo que fazia com a namorada: nada. Quando
não conseguia chegar na bola chutava as pernas dos adversários e às vezes
até dos próprios colegas. Por esse motivo colocaram-no no gol. Foi pior.
Perderam para o time do bairro vizinho a decisão do campeonato por 10 a
zero. Isso é que é campeonato - riram-se os adversários por mais de um mês.
E ele ria também se estivesse por perto e dizia que futebol era assim mesmo,
ou se ganha ou se perde ou se empata, repetindo, como se fosse seu, o
bordão de certo técnico de futebol gaúcho da década de 60.
“Ruinzão”, assim chamado pelas costas pelos colegas de trabalho, até
que era um cara legal, podia não ser o funcionário do mês, mas também
nunca falava mal dos colegas, a todos tratava bem, sempre simpático e fiel. O
mundo das jóias e brilhos não lhe chamava a atenção; as mulheres que
ficavam maluquinhas por um anel ou um par de brincos o deixavam
boquiaberto, apenas abanava a cabeça incompreensível por essa "fraqueza
feminina”. Passou de estagiário medíocre, a funcionário de carteira assinada
medíocre, depois a gerente medíocre, promovido pelo tio-padrinho que sentiu
a necessidade de dar-lhe remuneração melhor devido a uma inesperada
gravidez da namoradinha. Ninguém imaginaria uma coisa dessas! Finalmente
passou a patrão medíocre após o falecimento do tio, para continuar com a
tradicional joalheria de família que, afinal, tinha sido fundada por seu avô.
E seguiu assim sua vidinha, um cara comum, dos comuns o pior de
todos, principalmente no futebol. As derrotas cada vez mais constantes,
virando rotina, nunca o abalaram. Quando soube do roubo da taça Jules Rimet
nem se deu ao trabalho de ficar indignado.
Começou, porém, a examinar com maior atenção as entradas de
material para o ourives da loja, verificando nota por nota, preços, peso, quem
encomendava, quem recebia. Percebeu umas alterações algum tempo depois
da notícia de que a taça do tri estava derretida. Encorajou-se, deu uma prensa
no funcionário que, assustado com aquela atitude completamente inédita no
Ruinzão, acabou confessando que estava comprando ouro “por debaixo do
pano”. Mas não ousou revelar a procedência, apenas insinuou algo sobre
desvalorização do ouro após o roubo da taça, que estava havendo, também
por debaixo dos panos, uma corrida atrás de ouro.
Ruinzinho, meditou, meditou, meditou, não tinha como provar nada, era
tudo feito “dentro da legalidade”, confundiu lavagem de dinheiro com lavagem
de ouro, deixou tudo por isso mesmo.
Contudo, sentiu uma estranha alegria em imaginar que estaria passando
por sua loja, por sua joalheria, fragmentos daquele objeto de desejo dos
melhores jogadores do mundo inteiro. Nenhum time do mundo pôde consegui-
la por mérito esportivo, agora não a conseguiriam nem por pagamento de
alguma dívida da CBF. Surrupiada e descaracterizada, a Jules Rimet agora
jazia como sangue dourado a escorrer de cado em cado. Entusiasmado e
eufórico, Ruizinho chutou a primeira coisa que tinha pela frente. Era um pé da
mesa de carvalho de seu avô. A fratura foi feia, nunca mais entrou em campo,
para alegria dos amigos.
Inspiração
Ao ler a biografia do criador da Copa do Mundo, lembrei do meu irmão que era muito perna-de-pau quando pequeno.
Sobre a obra
Parte inspirada no meu irmão como falei acima e parte indignada por termos perdido um troféu tão importante, conquistado com muita garra pelos nossos jogadores. Tentei colocar humor no texto para disfarçar o vexame.
Sobre o autor
Fui alfabetizada muito cedo, e muito cedo mergulhei em livros, revistas, jornais. Escrevi alguns textos inspirada em determinados momentos da minha vida. Somente ao participar da Oficina Literária da APCEF/RS - REGIONAL PELOTAS, passei a aprimorar a minha escrita e me descobri poeta.
Autor(a): ANGELA MARIA MADONO GOMES (Angela Madono)
APCEF/RS