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O tempo das amizades

O tempo das amizades

Quando saí de Catalão e vim morar em Goiânia, conheci o Jânio. E conheci também o Heldir.
Éramos nós três.
Jovens, tínhamos muito pouco além da vontade de viver. E talvez por isso mesmo não precisássemos de muito para transformar qualquer encontro em um acontecimento.
O Heldir tinha uma condição financeira melhor que a nossa. Tinha uma bicicleta, que logo passou a ser também nossa. Depois veio uma Garelli. Mais tarde, um Fusca. Ele compartilhava tudo aquilo conosco.
Com muita frequência, íamos para a fazenda dos pais do Heldir. Para nós, era quase uma aventura. Seu Sebastião, pai do Heldir e dono da fazenda, parecia gostar de nos ver por lá.
Andávamos a cavalo, nadávamos no rio e, às vezes, íamos a cavalo até Brazabrantes e Nova Veneza.
Em Nova Veneza, frequentávamos os bailes. Foi lá que o Heldir conheceu a Silvânia. O namoro começou naquela época e, algum tempo depois, eles se casaram.
O tempo passou.
Vieram os casamentos, os filhos e as responsabilidades. A Selma, esposa do Jânio, a Silvânia e Heloisa passaram a fazer parte daquela história. A amizade foi se ampliando e acabou alcançando também nossos filhos.
Eu e Heloisa somos padrinhos do Paulo Henrique, um dos filhos do Heldir, e da Isabela, única filha do Jânio. O Jânio, por sua vez, é padrinho da Joseane, filha do Heldir.
O Heldir era médico de família e trabalhava em Brazabrantes e Nova Veneza. Foi nessas cidades que vivemos algumas das histórias que ficaram guardadas na memória.
Uma delas aconteceu por causa de uma serenata.
Resolvemos fazer uma serenata para uma das moças. Precisávamos de flores e achamos que seria uma boa ideia buscá-las no jardim de uma casa.
Estávamos colhendo as flores quando o morador apareceu.
De arma em punho.
Ele se identificou como delegado de Nova Veneza e pediu que nós nos identificássemos também.
A arma e a autoridade do cargo nos fizeram explicar rapidamente o que estávamos fazendo.
Dissemos que queríamos apenas fazer uma serenata e que as flores eram para isso.
Ele ouviu a nossa explicação e acabou nos liberando.
Tudo por causa de uma serenata.
Hoje, quando lembro dessa história, acho graça. Mas lembro também de como éramos: jovens, amigos e dispostos a transformar qualquer coisa em uma aventura.
O tempo passou.
A vida nos levou por caminhos diferentes. Mas a amizade permaneceu.
Até que o câncer levou o Heldir.
Na missa de sétimo dia, tive a oportunidade de falar. E falei, principalmente, sobre a amizade.
Porque naquele momento percebi ainda mais claramente o valor que uma amizade pode ter na vida de uma pessoa.
O Heldir não era apenas alguém que conheci na juventude. Ele fazia parte da minha história. Da história do Jânio. Da história das nossas famílias.
A morte interrompeu a convivência, mas não conseguiu interromper a amizade.
O Heldir se foi cedo demais.
Naquele dia, na missa de sétimo dia, quando falei sobre a amizade, talvez eu estivesse falando também sobre nós três.
Éramos três amigos.
Hoje, somos dois.
O Heldir não está mais aqui para contar as nossas histórias, rir delas ou lembrar de alguma que eu tenha esquecido. Mas continua presente quando eu, Heloisa, Jânio e Silvânia nos encontramos e, inevitavelmente, lembramos daquele tempo.
A amizade mudou. A vida mudou. Nós mudamos.
Mas há coisas que o tempo não consegue levar.
O Jânio continua meu amigo.
E o Heldir continua fazendo parte da nossa história.

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Inspiração

Passei há pouco tempo por um transplante de fígado. Foi um período difícil. Enquanto passava por isso, minha neta nasceu. Resolvi escrever crônicas ou cartas para ela. Essa é uma delas. A inspiração foi ela, Maria Gabriela, que tem apenas um ano.

Sobre a obra

Eu falo, conforme o título enseja, do tempo das amizades. Dois amigos. Um deles já falecido e um outro, cuja amizade ainda cntinua.

Sobre o autor

Sou aposentado da Caixa e avô de Maria Gabriela, minha primeira neta. Na verdade, eu escrevi um livro que tem umas sessenta crônicas. Eu falo sobre minha infância, trabalho na Caixa, amizades, falo da minha experiência de quase morte por conta de um câncer no fígado e do transplante que me salvou a vida.

Autor(a): PAULO SERGIO AIRES (PAULO SERGIO AIRES)

APCEF/GO


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