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A ÚNICA TERNURA

A ÚNICA TERNURA
Pra Oliveira
O sol ainda não despontou no horizonte. Ela abre os olhos devagar, e logo percebo a ausência de alegria em seu despertar. Afasta-me de si, levanta-se da cama e vai ao banheiro. Permaneço à espera de que volte.
Ela retorna e deita-se novamente. Seus olhos semicerrados não revelam o que o coração esconde, mas eu sinto. Puxa-me para junto de si, e eu envolvo seu corpo num abraço macio e quente. Torço para que adormeça outra vez. Nem sempre consegue.
Pouco sei a seu respeito. Sei apenas o que recolho, aqui e ali, das conversas com Deus, das palavras trocadas com o marido, dos suspiros que escapam quando pensa estar sozinha.
Ela sofre. Certa vez, ouvi-a dizer que também queria ser cuidada.
Vivem juntos, mas ele nem sempre parece estar com ela. Talvez se amem, mas ele não a abraça, não acaricia seus cabelos, não cheira sua pele, não pergunta pelo seu dia. Deita-se e dorme.
O despertador toca. Sem um beijo no rosto, sem um “bom dia”, ela escorrega para fora da cama. Toma um banho frio para despertar, veste-se e sai para trabalhar. Eu fico. E espero.
Ela retorna tarde, cansada, com o corpo e a alma desalinhados. Cuida da casa, resolve problemas, toma providências. Fala ao telefone com parentes, responde a cobranças, justifica ausências. Ninguém pergunta:”Como vai você?” “Como foi o seu dia?”
Às vezes, nem consegue jantar. Mas, antes de dormir, toma um banho morno e lê algumas páginas de um livro. É seu jeito de tentar se reencontrar.
Então vem para a cama. Deita-se e, como todas as noites, procura-me. Enrosca-se em mim e me aperta contra o peito. Eu me amoldo ao seu corpo, mantendo-a aquecida, enquanto ela fecha os olhos.
Eu nada posso perguntar. Nada posso prometer. Não posso acariciar seus cabelos nem dizer que amanhã será diferente. Posso apenas permanecer ali: macio, silencioso, envolvendo seu corpo nas noites frias e nas em que o frio vem de dentro.
Às vezes, ela me aperta com força. Outras, apenas se encolhe sob mim, como se quisesse se esconder do mundo. E eu fico quieto, envolto em seus ombros, suas pernas, seus pés. Aqueço o que posso. É pouco, eu sei, mas é tudo o que tenho para lhe dar.
E, talvez sem perceber, todas as noites ela adormece abraçada à única ternura que nunca lhe foi negada.

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Inspiração

Inspirei-me observando a solidão de muitas mulheres que se doam tanto e pouco ou nada recebem, nem mesmo carinho.

Sobre a obra

Trata-se de um conto na primeira pessoa, que tem um narrador fantasioso, que conta uma história, mas esconde outra de maior importância.

Sobre o autor

Sou Maria dos Prazeres de Oliveira, ou Pra Oliveira, uma ex-advogada da Caixa que aposentou-se, mas não parou. Jogou-se na literatura, sua verdadeira vocação. Hoje tem contos, crônicas e poemas, publicados em várias antologias, publicou seu livro solo de poesias intitulado RETRATOS AO VENTO em out/2025 e em breve publicará o de contos e crônicas.

Autor(a): MARIA DOS PRAZERES DE OLIVEIRA (PRA OLIVEIRA)

APCEF/PE


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