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QUANDO AS FICHAS CAEM
QUANDO AS FICHAS CAEM
Pra Oliveira
Silêncio sepulcral. Tudo escuro. Apenas um rosto cansado, iluminado pela tela do computador.
Sozinha em casa, trabalhando em home office, uma mulher não se dá conta de que o tempo voou.
Cenho franzido, concentrada, não se permite sentir as dores fortes no ombro que irradiam pelos braços e costas. Àquela hora do dia já fez muito mais do que os profissionais comuns de sua área conseguiriam fazer, mas ainda não lhe parece suficiente para parar e descansar. Os prazos a vencer, o volume de trabalho e seu próprio senso de responsabilidade são algozes a atormentá-la.
No ambiente doméstico reservado para o trabalho, uma máquina disputa com a outra a rapidez entre o pensamento e o processamento. O computador é o primeiro a se render. O sistema trava, impondo-lhe uma pausa.
Agora ela sente as dores nas costas e nas articulações, principalmente dos dedos e pulsos. Levanta a cabeça e percebe que a sua casa está às escuras.
Sua secretária já se foi silencionsamente para não perturbá-la. Aquela sim, respeita o horário do expediente e os limites do próprio corpo. Ela não. E, então, sente o peso da solidão.
Seus cachorrinhos já não estão mais ali para alegrar a casa como antes. Perdeu-os, um a um, nos últimos anos, vencidos pela velhice. Seus filhos, onde estão? Perdeu também a convivência com eles enquanto poderia...
Seu marido, outro trabalhador incansável, também estende o expediente até tarde, exaurindo, no trabalho presencial, o tempo e a saúde.
Na pausa forçada, a solidão se faz presente, acompanhada de uma estranha sensação de que havia sido esquecida ali desde a Pandemia.
Prepara um chá e vai até à varanda descansar os minutos recomendados pela ergonomia, aqueles que só respeita quando o travamento do sistema a obriga.
Lá fora, a rede quase vazia. Dentro dela apenas um livro esquecido, à sua revelia.
Espreguiça-se, tentando recuperar os movimentos, e percebe a natureza acomodando-se para dormir. O barulho dos seus pensamentos mistura-se ao burburinho dos pássaros, ao som dos grilos, das cigarras e das folhas ao vento. Seu jardim, apesar de sua ausência, sobrevive.
Sua mãe, porém, na casa ao lado, com mais de oitenta anos, dorme todas as tardes, porque não pode contar com sua presença.
Então se dá conta de que enquanto o dia se despede, ela morre aos poucos. Toma uma decisão!
Retorna ao computador e dá um fim ao que a consome: coloca um ponto final na mensagem que há muito estava pronta, envia seu pedido de aposentadoria e começa a escrever o primeiro parágrafo de uma nova história.
Inspiração
O conto é uma ficção inspirada nas pessoas que entregam-se de corpo e alma ao trabalho, esquecendo de si e às vezes até da família; que cumprem os prazos profissionais e deixam vencer o seu próprio tempo...
Sobre a obra
Trata-se de um conto na terceira pessoa, com narrador onisciente, que revela o estado físico e mental de uma pessoa no exato momento em que suas fichas caem e decide dar um basta naquilo que a consome.
Sobre o autor
Sou Maria dos Prazeres de Oliveira, ou Pra Oliveira, uma ex-advogada da Caixa que aposentou-se, mas não parou. Jogou-se na literatura, sua verdadeira vocação. Hoje tem contos, crônicas e poemas, publicados em várias antologias, publicou seu livro solo de poesias intitulado RETRATOS AO VENTO em out/2025 e em breve publicará o de contos e crônicas.
Autor(a): MARIA DOS PRAZERES DE OLIVEIRA (PRA OLIVEIRA)
APCEF/PE
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