Frente Única

Frente Única

Outro dia, assistindo a série A Sete Palmos com intenções mais nobres do que esta, deparei-me com uma personagem expressando seu gosto pelas blusas de "frente única". E como quem tropeça numa palavra e cai num pensamento, fiquei ali preso; pausado na estática imagem da atriz vestindo uma dessas. Por que se chama frente única? O que seria uma blusa de frente dupla? Seria talvez uma frente singular, uma frente que só aquela blusa tem? Será que o fato de a frente ser a única coisa que existe nesta blusa traz portanto essa característica ao nome da peça? Depois de pesquisar, ficou evidente que não havia costas (a parte de trás da tal blusa), mas aí chamá-la de frente única pareceu-me um equívoco linguístico do mundo da moda.

E é realmente curioso que a moda tenha dessas ousadias linguísticas. Nomeia com liberdade poética, com um toque de humor e, por que não, uma pitada de filosofia. A “frente única” é, de fato, uma peça que só tem frente, cujas costas ficam nuas, livres, talvez até expostas demais para os padrões das costas que não querem pegar um resfriado. O nome carrega uma certa solenidade, como se dissesse: “Aqui está a única frente possível. O resto é ausência e está exposto.” Além disso, o nome entrega um spoiler indiscutível. A pessoa chega com uma blusa frente única e você logo sabe que não dá para esperar muita coisa quando ela se virar. Se estiver na expectativa de umas costas com amarração ou tecidos sobrepostos, já era.

E então lembrei do “tomara que caia”. Esse já é quase um haicai. Uma peça que desafia a gravidade e a lógica. Sustentada por fé, costura e talvez um pouco de esperança. O nome é uma prece e uma provocação. Tomara que caia; mas que não caia, claro. É o suspense da moda! Aí, tive que recorrer às colegas de trabalho para investigar mais das peripécias da moda. Descobri que existe a blusa “ciganinha”, que mais parece nome de personagem de novela das seis. Achei parecida com a “ombro a ombro”, que soa como um gesto de união, mas na prática é como se fosse um decote super largo que parece insistir em escorregar, deixando os ombros também expostos a um possível resfriado.

São tantos nomes curiosos que se eu fosse um bom escritor, poderia escrever um livro confabulando histórias malucas sobre o assunto. Além de me divertir com o tema, poderia compartilhar essa minha maluquice com outros malucos. Veja, leitor entusiasta, o rico material que teríamos em mãos: biquíni asa-delta, manga bufante, gola rolê, calça boca de sino, pata de elefante, saia evasê, meio godê, balonê, manga morcego, jardineira, macaquinho e macacão, gola boba, sapato bico fino, salto anabela e a ofídica segunda pele. O pessoal da moda que me perdoe todos os demais nomes geniais criados para este segmento que ficaram de fora da lista, mas foram os que me ocorreram nesta vasta pesquisa de meia hora que me dediquei a fazer.

Eu tenho por mim que todos esses nomes não são apenas rótulos para as peças, são narrativas encarnadas em pedaços de tecido ou couro. Cada uma delas carrega uma história a ser contada, uma intenção claramente definida. Tem toda uma filosofia por trás da nomenclatura, vestindo a linguagem como conhecemos de significados e razões. A moda se aproxima da Filosofia porque há algo de profundamente humano nisso. Dar nome às coisas e se fazer entender através delas é uma habilidade nossa, um grande presente divino que estamos desenvolvendo. A blusa frente única não tem nada mais além da face que se apresenta, não há nada por trás além da sua única frente exposta. Talvez esse realmente seja seu verdadeiro nome. E quem sabe, se encontrarmos os nomes verdadeiros de todas as coisas, encontraremos também o verdadeiro nome de Deus.

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Inspiração

A inspiração veio da minha curiosidade em entender as palavras. Precisei pausar um episódio da série A Sete Palmos (HBO, 2001) para descobrir por que raios aquela peça de roupa se chama “frente única”. Da pergunta surgiu a crônica.

Sobre a obra

A crônica mistura humor, observação do cotidiano e reflexões filosóficas a partir dos curiosos nomes das peças de vestuário, associando e deixando o texto avançar conforme novas ideias surgiam. O bom é que sou curioso e não deixo oportunidades escaparem tão fácil; e pena que sou um escritor medíocre e consegui apenas meia dúzia de exemplos.

Sobre o autor

Filósofo por identificação, encontro na Arte não apenas uma linguagem, mas uma possibilidade de transformação. Ela educa sem impor, desperta sem explicar, conduz o olhar para além do que costumamos alcançar. É como abrir uma janela para dentro de mim e, por um instante, permitir que outros também possam experimentar aquilo que vejo e sinto.

Autor(a): LUIZ GUSTAVO CITTADIN (Gustavo Cittadin)

APCEF/SC


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