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O Ladrão de Defuntos

O Ladrão de Defuntos

Lá estava ele novamente em sua padaria preferida tomando o café mais esforçado que o La Baghette poderia fornecer às sete horas da manhã de um domingo. David, com a calma de quem tem mais tempo livre do que planejava ter àquela altura da vida, analisou o obituário do jornal como quem procura no mapa-múndi seu próximo destino de viagem. Não lembrava exatamente como tudo aquilo havia começado, mas o sentimento das primeiras vezes em que foi a um velório casual era o de fuga para curar o seu desajustado tédio.

No início limitava-se a observar de longe, procurando entender sua lúgubre curiosidade enquanto, encostado nos muros do cemitério, traduzia seus cigarros em cinzas e escondia as bitucas sob o chão terroso. Outras vezes, por desinteresse na vida e na morte, permanecia dentro do próprio carro onde a visão não alcançava sequer a face do desfalecido. A tristeza e os soluços lacrimosos não necessariamente o prendiam àquela circunstância, mas a combinação das melancólicas toadas com o preto fúnebre o fazia acessar ligações talvez reminiscentes das quais depois de um tempo se tornara difícil livrar-se.

Ao constatar que pessoas morrem todos os dias, o novo passatempo virou corriqueiro até que se tornou rigorosamente um hábito diário, e a mera distração acabou se tornando um relevante vício. Passou a selecionar no jornal qual defunto lhe parecia mais interessante; e aos poucos foi se aproximando dos cortejos e transitando entre os parentes e amigos dos falecidos. “Um bom homem”, dizia ele ao pé do féretro, sem conhecer absolutamente nada do cidadão estirado sob terno e gravata. E ia ouvindo histórias de uma vida que jamais fizera parte, compartilhando com as carpideiras o sentimento de se importar muito pouco com aqueles que haviam partido dessa para melhor.

Chegava a ir às cidades vizinhas em busca de histórias aleatórias e numa dessas conheceu (mesmo que tardiamente) um colecionador numismático cuja idade avançada lhe tirara a vida. Seu único filho, que conseguira chegar da Europa a muito custo para a hora do velório, contou sobre a paixão do pai por objetos históricos, sobretudo moedas mais antigas que ele mesmo. “O velho casarão da família agora terá que ser vendido”, mencionou o jovem com ar de desânimo. David questionou sobre o imóvel como quem finge estar interessado na conversa e considerou que a localização ficava no caminho da sua casa. E ficava mesmo, em uma rodovia que ele pouco usava, mas dava para ir embora por ali fazendo dois ou três desvios no trajeto. Não foi o que ele fez naquele dia. Transitou pelo mais rápido e curto percurso, como tradicionalmente costumava fazer.

No dia seguinte, ao pedir um croissant suspeito, bebeu o seu café com a tradicional calma que só foi interrompida quando o pouco delicado garçom atirou o jornal sobre a mesa onde ele estava, derramando um tanto da bebida quente no pãozinho de massa foleada e tornando-o consideravelmente mais palatável. A manchete anunciava uma terrível tragédia que havia acontecido naquela madrugada. O filho do colecionador de moedas havia destruído o carro alugado em um grave acidente quando viajava para o aeroporto. Agora, então, ele se juntaria ao falecido pai no jazigo da família um dia após a morte do velho. “Realmente uma tragédia”, afirmou o atendente, “Vai mais leite?”

No velório estavam as mesmas pessoas do dia anterior, menos uma. “Que triste, tanto tempo na Europa e quando vem para cá acontece isso”, David dialogava querendo se mostrar profundo conhecedor do histórico daquela família. Em mais algumas conversas sem propósito, foi lembrado das passagens do velho falecido e do casarão antigo onde cresceu o defunto do dia; agora ainda mais sem dono com a morte do único herdeiro. O velório foi interrompido quando uma famosa blogueira da cidade apareceu e iniciou uma transmissão ao vivo daquilo que ela mesma chamou de “A tragédia do século”, embora já tivesse usado esse mesmo título em no mínimo outras cinco publicações anteriores.

Devido ao intenso envolvimento dos dois dias, David estranhamente se sentiu parte daquela família e assim que começou a dirigir pela estrada, desviou do caminho para dar uma olhada no antigo casarão. Sem vizinhos, o local parecia conservado apesar da pouca manutenção que recebia. Cogitou pular o muro, mas um empurrão de leve fez o portão de ferro se abrir sem muito esforço, o que foi ótimo para sua ligeira preguiça. Deu a volta pelo quintal e encontrou a porta dos fundos destrancada. Era um convite para entrar e se deparar com uma cozinha e sala de móveis muito requintados e antigos. No quarto do velho ele encontrou sobre a penteadeira uma caixinha acrílica que continha uma moeda com os dizeres “Nº 300”. Parecia mais alguma espécie de ficha antiga; e, ao analisar o seu verso, a sigla “C.S.T.” reluzia em alto relevo. “Parece valiosa”, pensou David levando-a para dar uma volta através dos cômodos da casa, passando pelos corredores até a porta de saída. Depois apresentou-lhe o banco de trás do seu carro e a cobriu gentilmente com seu casaco.

David agora tinha encontrado um objetivo de vida que finalmente o tiraria do tédio diário: roubar pequenos pertences de recém-defuntos. Medalhas, anéis, pingentes, broches e qualquer item de colecionador eram perfeitos para o seu plano. Sua ideia consistia em fazer desaparecer objetos que facilmente poderiam ser dados como perdido pelos familiares e assim não levantaria suspeita alguma. Então, em poucos meses, já havia enchido um relicário inteiro de objetos furtados, cada qual com sua história carregada pelas lembranças que os familiares contavam a ele. Costumava voltar sua atenção sempre àquela moedinha, fruto do seu primeiro delito, sempre que precisava relembrar a razão de estar fazendo tudo aquilo. Era muito difícil perder a batalha do seu eu atual contra o antigo David que se demorava a encontrar um sentido para a existência.

E lá estava ele novamente com o jornal aberto no La Baghette. “Um médio e uma rosquinha sem cabelo” brincou com o garçom, esperando realmente que desta vez não encontrasse nada de estranho em meio à massa do biscoito retorcido. O canto inferior da página 4 do jornal trazia a nota de falecimento do senhor Michel Bancarotta, que pela foto aparentava não ser muito velho. Seu velório foi dado na capela do cemitério da cidade, bem próximo da padaria, inclusive. Porém, ao chegar lá, o caixão já estava praticamente todo enterrado pelo coveiro e apenas encontrou três ou quatro sujeitos, todos eles reclamando que o morto havia deixado dívidas e promessas atrasadas. “Esse aí era odiado por tanta gente que nem os parentes vieram se despedir”, disse o coveiro como se o conhecesse bem. Era um prato cheio para David que quis saber um pouco mais dessa história e acabou ladinamente descobrindo o local de sua última residência.

Aquele era um prédio realmente muito antigo, desses em que os moradores resolvem abandonar as reformas por serem muito custosas, optando em conviver amistosamente entre goteiras e um pouco de bolor. David subiu quatro lances de escadas não porque não houvesse elevador, mas porque ele aparentava não ser muito seguro. Ele repensou a ideia no meio do caminho ao notar que os degraus talvez não fossem o ideal exemplo de segurança que estava procurando. Quando percebeu, estava em frente ao 404. O instinto o fez puxar a mão e cerrar o punho para bater na porta, mas evitou a tempo e forçou a maçaneta. “Aberta!” ele pensou; mas não, estava apenas frouxa. David não era entusiasta em usar a chave micha, até tinha certa preguiça, mas era a opção mais silenciosa que lhe restava para arrombar a porta. Entrou. O apartamento estava praticamente vazio, sala e cozinha conjugadas sem móveis, nem utensílios. Havia apenas um quarto suíte. Ao entrar, encontrou uma cama velha sem colchão e uma mala de roupas aberta em cima dela. De impacto David estranhou, mas logo ouviu uma voz vindo da porta do banheiro: “Já estava achando que você não viria”.

Todas as janelas estavam fechadas e a corrente de ar não tinha caminho válido para percorrer, mesmo assim um vento frio atingiu a espinha dorsal de David. Quando o vulto saiu do banheiro, David teve o ímpeto de sair correndo, mas ainda congelado, resolveu ficar. O sujeito que saíra pela porta era justamente o defunto, Michel Bancarotta, dono do apartamento. Confuso, David deu um passo para trás e resolveu sentar na cama, se arrependendo no exato instante em que suas nádegas tocaram a desconfortável madeira do estrado. “Como pode? O que está acontecendo?” ele indagou ao sujeito, que pacientemente fechou a mala e sentou-se ao seu lado. Ele lhe explicou que estava atrás do ladrão de defuntos, mas que não precisava se preocupar. “Eu estava fugindo, David. Achei que meu plano não daria certo. Sabe, sou um péssimo detetive particular. Não tenho conseguido resolver 10% dos meus casos. Minhas dívidas se acumularam ao longo do tempo e eu fui perdendo o controle sobre elas. Resolvi morrer.”

Quando David começou a experimentar a alta deformabilidade biomecânica de seus glúteos, levantou-se e tentou se fazer presente naquela situação catastrófica. “O que diabos tenho a ver com isso?”, ele pensou. Notando essa impaciência, o detetive pôs-se a continuar explicando: “Veja bem, não fui contratado para te pegar, mas para resgatar um objeto singular. Uma pequena moeda. A família tem muito apreço por aquilo e espero realmente que você não tenha se livrado dela.” David colocou a mão no bolso e retirou a moeda que o acompanhava de talismã nas gatunas empreitadas. “Essa mesma! Veja você, ela é importante para a família que me contratou.” David então olhou para a moeda e lembrou-se do velho numismático e seu falecido filho. “É uma moeda da Colônia Santa Tereza”, continuou o detetive. “Um local da década de 1940 destinado a recolher os leprosos do estado. Eles tinham moedas próprias por conta do medo de usar as normais de circulação e contagiar a população. O velho era saudável, mas sua dama amargava a praga. Foi então que, escondido, ele entrou na Colônia e ao comprar uma entrada para o cinema, foi pego. Aquela foi a última vez que eles se viram. Você deve estar agora imaginando quanto custava a entrada para sessão naquele local.” David observava o verso da moeda escrito C.S.T. e a virou para ver o valor. “300”, disse o detetive.

Sem esperar muito a reação que David poderia ter, ele continuou explicando que a família lhe ofereceu um bom dinheiro pelo resgate da moeda, talvez até resolvesse sua questão financeira por um ano ou dois. Mas afinal, estava morto e ninguém se importava mais com ele, a julgar pelo seu próprio funeral. “Tenho a intenção de pegar essa grana e fugir do mesmo jeito que planejava, mas preciso da sua ajuda para isso”. David ouviu atentamente a proposta do detetive, que lhe oferecera nada mais que cumplicidade. Bastava um pacto entre os dois: ninguém conheceria o ladrão de defuntos e ninguém saberia do defunto vivo. Trato fechado. David entregou a moeda para o detetive, que pegou sua mala e partiu. Porém, antes de sair, David o questionou: “Como foi que me descobriu?”. Ele apenas riu e disse: “Você vai encontrar a resposta no envelope que acabou de roubar do meu casaco”.

Ao abrir o envelope, David encontrou uma foto impressa do cemitério, que trazia a figura de uma moça em primeiro plano, com cabelos coloridos demais para um velório. Ao fundo, a imagem de David surgia conversando com algumas pessoas e estava circulada de vermelho. Virando a foto, encontrou, escrito à mão, “A TRAGÉDIA DO SÉCULO”, seguida de vários pontos de interrogação e a frase “QUEM É ESSE SUJEITO?”. Michel Bancarotta era um bom detetive, afinal, e os dois acabaram sendo admiradores dos feitos um do outro, embora só fossem se encontrar uma única vez após aquele dia, justamente em um cemitério. No velório de David, o detetive foi prestar homenagens e, ao fazer suas últimas preces, depositou a pequena moeda da Colônia Santa Tereza no túmulo do ladrão de defuntos.

FIM.

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Inspiração

A inspiração veio de duas paixões: a televisão e a numismática. A série A Sete Palmos (HBO, 2001) sempre me chamou a atenção por abordar temas profundos com seriedade e humor. A partir dela, percebi que poderia criar uma história cômica, apesar de trágica, sobre uma das moedas mais peculiares da minha coleção.

Sobre a obra

O conto combina humor, mistério e numismática em uma narrativa de reviravoltas, construída com ironia e contraste entre situações trágicas e absurdas. A ideia já estava na minha cabeça há bastante tempo; bastou um pouco de vontade para sentar e escrevê-la, organizando os pontos da narrativa que precisavam de atenção.

Sobre o autor

Filósofo por identificação, encontro na Arte não apenas uma linguagem, mas uma possibilidade de transformação. Ela educa sem impor, desperta sem explicar, conduz o olhar para além do que costumamos alcançar. É como abrir uma janela para dentro de mim e, por um instante, permitir que outros também possam experimentar aquilo que vejo e sinto.

Autor(a): LUIZ GUSTAVO CITTADIN (Gustavo Cittadin)

APCEF/SC


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