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Química

Química


Cascavilhou a unha do dedão do pé com a tesourinha. O latejo foi grande, mas ele persistiu no trabalho. Não sossegou até que se formasse uma pocinha de pus e sangue no canto do dedo. Pequeno alívio. Fez a rota de aparagem de todas as unhas dos dois pés. Catou os pedaços e arrumou na mão aquele amontoado de queratina dura — isto só soube depois que alguém se aproximou esgoelando não faz essa merda! ao impedi-lo de jogar aqueles resquícios num vaso de plantas.
— Valha, pra que essa gritaria? — replicou. — Quase estoura meu ouvido.
— Desculpa o palavrão, é que não pode jogar resto de unha nas plantas. Você estava prestes a fazer isso. Eu precisava ser enfática.
— Não vejo nenhum aviso com essa advertência.
— Pois é. Até porque é algo básico.
— Não jogar lixo no chão da praça também é básico, mas olha a placa ali. — E apontou com teatralidade para a que espetava o gramado à esquerda da clássica não pise na grama.
— Justamente. Unha cortada é lixo e vaso de planta não é lixeira.
— É melhor do que deixar no chão, né não? E ainda contribuo pro adubamento da bichinha... sem falar que, apesar da placa, não tem lixeira em canto nenhum.
Ela passou a vista displicentemente. — É, realmente não tem. Mas a grama está bem preservada. Sinal de que as pessoas obedecem.
— Uma pena. Poucas coisas na vida são melhores do que pisar descalço na grama.
— É verdade. Mas, voltando ao assunto, é um erro jogar queratina dura nas plantas. Anda longe de contribuir para o adubamento das bichinhas.
— Por queratina dura você quer dizer unha? Caralho. Onde você viu isso?
— Sou química e gosto muito de botânica. Tenho especialização em fitoquímica.
— Ah.
— É o estudo da química das plantas, em resumo.
— Eita. Foi mal aí. Não sabia. Desculpa. Foi sem querer. Achei que qualquer coisa vinda de um ser vivo poderia ser adubo. Afinal, viemos do pó, né não?
— Viemos do pó? Sai dessa, rapaz. Quem pensa que tudo pode ser adubo é capaz de regar planta com urina. Sai pra lá.
— Foi mal.
— Tudo bem, tá certo. Ninguém é obrigado a saber tudo.
— Amém.
— Você é um cara engraçado. Para no meio da praça pra cortar as unhas dos pés. Gosta da grama verde, mas acha que resto de unha serve de adubo.
— Não estava cortando. Quer dizer, estava. Mas parei não pra isso. Tenho problema de unha encravada. Ando sempre com uma tesourinha. Latejava demais, então resolvi dar uma cutucada. Aí aproveitei o momento pra cortar as outras.
— Você tem que procurar um podólogo.
— Não precisa. Isso aqui fica bom sozinho. Negócio é suportar as dores pelo tempo certo. Cada um sabe até onde aguenta. Mas a gente tá conversando faz um tempão e nem se apresentou.
E então Clódis — identificou-se, como sempre, Clódis com dê — descobriu o nome da química e teve sucessivos assombros: quando ela aceitou trocar telefones; quando ela disse que soletraria o próprio nome para que ele não anotasse errado. Meu Deus, quem não sabe escrever Kelly? Um dos nomes ingleses mais comuns e menos estrambólicos usados aqui. Terceiro assombro:
— É com quê de química, anota aí. Quê, u, é, agudo, éle, i. Quéli. — Como houvesse silêncio e grandes olhos, ela prosseguiu. — É que houve um embate: mamãe queria porque queria homenagear Grace Kelly; papai tinha aversão a nome estrangeiro. Resolveram aportuguesar. Ficou estranho, mas é meu nome.
— É um tanto... excêntrico. Mas gostei: Quéli. De toda forma, acho que sua mãe venceu o duelo. A pronúncia é igualzinha ao inglês. A grafia aportuguesada foi só um prêmio de consolação pro seu pai. A inglesa é mais comum, já está internalizada nas pessoas. Sempre vão pensar que é Kelly, com cá, é, dois éles e ípsilon. Talvez com um éle só. Nunca vão pensar do jeito que realmente é. Uma pena, pois é uma grafia forte e incomum. Talvez só os chegados e os atendentes de banco saibam como realmente se escreve o seu nome. E agora eu. A não ser que você soletre o nome sempre que se apresenta. Algo que, acredito eu, você não faça.
— Realmente não.
— Agora veja meu caso. Sempre tenho que me apresentar Clódis com dê, se não as pessoas morrem de me chamar de Clóvis. E tem gente com a cara de pau de dizer que vai me chamar de Clóvis mesmo, porque é mais fácil, como se meu nome fosse um trava-línguas. Perdi meu sobrenome. Clódis com dê virou nome artístico.
— Parece que somos dois exemplos da criatividade brasileira.
Quando puxou assunto, Quéli jamais imaginou que Clódis tomasse a sério o chiste sobre não jogar unhas em vasos de plantas. Achou bonitinho que ele sucumbisse ante seu argumento de autoridade sou química. Alguém capaz de nomear tudo que eram reações endócrinas que prenunciam a paixão. Mas ao flerte isso é irrelevante. Interessa mesmo é sentir o coração quase trincar o esterno.
Assim, a combinação Clódis e Quéli resultou num elemento poderoso, que filósofos pretensamente sérios passaram vidas tentando dissecar. Não era amor. Era combustão. Ardor. Fervedura. Uma brasa, mora? Paixão.
Química pura.
Aí vem um bom dia no WhatsApp, uma stalkeada no Instagram, a marcação de um meme no Facebook. O peito aquece, pés e mãos suam frio, o celular não sai da vista. Nas conversas virtuais, Clódis pôs a modéstia de lado e revelou ser cozinheiro de primeira. Convidou-a despretensiosamente a um jantar informal. Extasiado com o aceite, gravou um audacioso áudio. Comida boa é um deleite. Farei o melhor jantar da vida, pode anotar. Cozinha é arte. Cocção é química.
Em resposta, um áudio curtíssimo a vida é química.
Na grande noite, a recepção deu-se com vinhos e queijos. Quéli surpreendeu-se: um sommelier que desencrava as unhas dos pés em praça pública. Conversaram amenidades. Clódis soltou-se à medida que cresciam o teor alcoólico e as porções de gorgonzola. Contava uma história engraçadíssima. Empacou, gesticulando com os braços, rindo da própria narrativa. Quéli estava contida. Às vezes quebrava a cabeça para trás como quem prepara uma sonora gargalhada, mas logo retornava à posição original com um ai meu Deus, não acredito. Clódis interrompeu sua empolgação depois de um pequeno pinote, como tivesse levado um choque do sofá. Pediu licença e foi à cozinha. Chegada a hora do prato principal.
Quéli aturdiu-se com a perfeita noção de tempo do homem. Se soubesse que ele botava o despertador do celular no modo vibração, pouparia a perplexidade. Com auxílio da luva de cozinha, ele trouxe as travessas em duas viagens. Depositou a segunda na mesa de jantar, soltando um francês à cearense voalá. Quéli aproximou-se.
— Bonito e cheiroso está demais — ela disse e sentou-se. — Me fala o nome dos pratos.
— Costelinha suína na pressão e arroz de forno com ervilhas e cenoura. Para harmonização, um tinto meio seco.
— Você disse cenoura?
— Sim. Não gosta?
— O problema não é esse. Eu não posso comer cenoura. Tenho carotenemia.
— O que é isso?
— Minha pele fica amarelada, especialmente as palmas das mãos, as plantas dos pés e às vezes o rosto, caso eu coma alimentos ricos em caroteno. A cenoura é um deles.
— É grave?
— Não. É inofensivo. Tem mais um efeito estético. Se eu comer muito caroteno, minhas mãos ficam amarelas. Se eu não comer, não ficam. Não se preocupe, não é icterícia, embora os sintomas sejam parecidos.
— Caralho. Desculpa. Jamais podia imaginar.
— Não tem problema. Como eu disse, a vida é química. Me faço na costelinha, no gorgonzola e no vinho.
Clódis jamais imaginaria que uma simples cenoura fosse destruir um jantar tão agradável. Tinha caprichado no arroz de forno, sua especialidade. Era pra ganhar Quéli pela barriga, mas... uma raiz inofensiva, meu Deus, como é que pode? Procurou não se abalar, soltando um chiste aqui e acolá, aos quais Quéli reagia com rarrarrás protocolares. Da sobremesa, uma mousse de limão com ganache, ela provou só uma pontinha, pra não sair muito da dieta. E o jantar terminou anticlimático, com beijinhos no rosto e um fatídico a gente vai se falando.
Dias seguintes, Quéli reagia friamente a quaisquer interações. Um desinteresse medonho. Clódis inconformado. Como o diabo duma cenoura pode ser mais tirânica do que as paixões? Em desespero, prometeu um novo jantar sem carotenos e afins. Comprou até um cabernet sauvignon das serras gaúchas. Não houve jeito: as reações químicas não são eternas porque são imperfeitas, último áudio recebido. E logo foi bloqueado, ficando sem direito à tréplica.


Clódis enfiou a nota fiscal no bolso, agarrou o cabernet sauvignon pelo pescoço e partiu à loja de vinhos. Queria deixar de ser idiota. Esquecer Quéli. Livrar-se desse vinho era um passo. Traria um chardonnay argentino, a ser degustado ao som de um tango para ampliar o sofrimento — que já homérico devido à unha encravada.
Troca feita, retirou o chardonnay da sacola e o trouxe para junto do peito: o aconchego do abraço de um velho amigo. Um amigo forjado nas terras com acidez correta e clima ameno do Vale do Uco, na Argentina. Gestado por nove meses em barril de carvalho francês, esse querido amigo ainda amadurece por mais seis meses na garrafa. Uma química que não é impulsiva nem imediatista. Uma química que vale a pena.
Uma chuva sem prenúncio obrigou Clódis a acelerar o passo. O pé troncho — para reduzir as dores na unha — o fez perder o equilíbrio na subida de uma calçada. Estatelou-se no chão. Quis segurar todo seu peso apenas com a mão livre, mas foi demais. Os ossos do antebraço se partiram próximo ao punho e rasgaram sua pele sem pena daquela alma já sofrida. Úmido de chuva e pranto, emoção e fratura expostas, Clódis mantinha erguido, em salvação, o chardonnay. Porque existem, sim, reações químicas perfeitas.

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Inspiração

Surgiu a partir da provocação da professora Socorro Acioli para que fizéssemos um texto sobre uma paixão avassaladora.

Sobre a obra

Quis partir de uma situação inusitada e inserir a química enquanto ciência e enquanto metáfora das paixões.

Sobre o autor

Meu nome é Daniel Mendes Barreto. Nascido em Fortaleza-CE. Sou bancário desde 2011. Formado em Administração de Empresas pela UECE. Pós-graduado em Escrita e Criação pela Unifor. Amante da literatura desde a infância.

Autor(a): DANIEL MENDES BARRETO (Daniel Mendes Barreto)

APCEF/CE


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