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Cada segundo a mais é um a menos
Cada segundo a mais é um a menos
Meu benzinho aponta o pé da geladeira. Está a pura ferrugem. Eu, já de bolsa pronta pra sair, digo pela milésima vez que a causa daquilo é a goteira no teto. Que quando chove à noite, alaga o chão da cozinha e corrói o pé da geladeira.
— E nem adianta ir atrás de quem conserte isso porque ninguém quer pegar serviço pequeno — arremato antes que ela diga que sou pão-duro.
— E como a gente faz? Fica com essa goteira até morrer? Fica com a geladeira horrorosa assim? Não aguento mais. Já sei, vamos comprar uma bem moderna, daquelas que o pé não enferruja.
— Meu bem, geladeira nova é muito caro, você sabe. Botar um balde na goteira é mais barato.
— História é essa, homem? Quem diabo consegue dormir de noite com um pinga-pinga dentro dum balde?
— Mas, meu bem, a cozinha é tão longe do quarto. Mal dá pra ouvir.
— Mal dá, mas dá. Isso acaba com a noite de qualquer um. Nã, meu filho, sono é coisa sagrada.
— Meu benzinho, com um balde é tão simples. E a água ainda serviria pra aguar as plantas da área, que não são molhadas pela chuva.
— Mais simples ainda é consertar a goteira — ela cruza os braços e apoia o peso do corpo todinho na perna direta. Dá uma rabiçaca.
Ela quer o de sempre: que eu me irrite e diga que eu mesmo vou subir no telhado e consertar a goteira, só pra ela dizer idoso subindo em escada é um perigo, Deus me livre. É um pouco humilhante que ela fique o tempo inteiro me chamando de idoso. Só porque está a vinte anos de chegar a essa condição. Mas hoje não vou cair nessa, pois já faz um tempo que estou de bolsa pronta pra sair. Digo apenas: vou providenciar o conserto. Não digo quando. E saio.
Ela baixa a guarda.
— Fofucho — fala docemente — posso dar uma sugestão?
Quando ela vem com isso, é bomba, certeza.
— Diga.
— Eu estava no salão dia desses, aí vi as meninas comentando que agora existe marido de aluguel.
— Existe o quê?
— Marido de aluguel.
— Tu não tem vergonha de falar essas coisas na minha cara, não?
Ela riu muito, aquela risada gostosa que ela sabe que eu adoro. Esclareceu: é o nome da função que se dá a alguém que contratamos para fazer pequenos reparos em casa. Consertar uma goteira, por exemplo.
— Vou pedir à Val o contato do marido de aluguel que consertou a torneira da cozinha dela — disse o meu benzinho, já buscando o celular.
Eu olho fixo para o pé da geladeira. A ferrugem parecia um cancro marrom. Está crescendo há meses e eu, na condição de marido próprio, não fui capaz de impedir. Realmente horrível. Se o oxigênio faz isso com o ferro, que é a porra de um metal duro pra cacete, imagina com nossos tecidos moles. Isto é: o elemento sem o qual não vivemos é o mesmo que nos conduz à morte. Sem vexame. Imagine uma pessoa beirando os setenta, como eu. O nível de corrosão interna deve ser alto. Mas nem quero pensar nisso agora. Mudei alguns hábitos. Perdi um pesinho. Fiquei até mais disposto ultimamente. Por isso estou de bolsa pronta pra sair. Vou nadar no mar pela primeira vez. Quer dizer, vou chegar lá e ver se crio coragem, que mar não é lugar de brincadeira. Muita onda, muita água e muita fundura. Pra morrer é daqui pra ali.
Escuto meu benzinho, toda serelepe, dizer que já mandou mensagem para a Val. Agora é só aguardar. Aguardar. Água guardar. Aguar. Nadar.
Vai nadar, o geriatra tinha me dito. Quem nada aprende a respirar direito. Estica a vida ao máximo. Já viu enterro de nadador jovem? Existe não. Só se morrer de acidente.
Não sei se ele queria ser engraçado. Fato é que não ri. Respondi que dessa fase já passei — não da morte, mas da juventude — por isso estou aqui.
Ele sim, riu bastante. O senhor é hilário, ele me disse. Em sessenta e tantos anos de vida, é a primeira vez que me dizem isso. A gente nunca viveu tudo. Sempre tem uma coisinha a mais.
Meu benzinho ficou preocupada: esse médico é maluco, querendo jogar um idoso na piscina. Não tem o menor cabimento.
— Meu bem, é que reclamei da minha respiração. Ele quis me ajudar, foi isso. Mas não sei se vou fazer natação, tem que pagar mensalidade.
Então ela riu aquela risada gostosa. Me sugeriu corrida. É mais simples. Só botar roupas leves, um tênis e sair na rua. E melhor: não precisa pagar. Se um idoso pode nadar, supõe-se que pode correr. E também ajuda na respiração, ela viu na internet.
Mas tem buraco demais na rua. Se piso em falso, bato as botas brincando. Sem falar que morre muito mais gente atropelada do que afogada. É claro: tem muito mais idiota na rua do que dentro d’água. Ao menos em números absolutos.
— Pois homem, deixe de pão-durice e se matricule logo na natação.
Não existe uma piscina sequer aqui nas redondezas. Só fui encontrar uma decente lá depois da Parangaba. Além da mensalidade, ainda vou gastar uma dinheirama com a gasolina do carro. Mas já paguei, não posso perder o dinheiro. Qualquer coisa, no próximo mês eu cancelo.
Touquinha arrancando o resto dos meus cabelos, óculos com encaixe péssimo — comprei o mais barato —, lá fui eu batendo as pernas feito um abestado. Encostei na borda e o professor batendo palma está ótimo, descansa um pouco. Eu fazia esses movimentos pela primeira vez, é óbvio que não estava ótimo. Relevei. Professor precisa ser bonzinho com velho.
Um cabra chegou deslizando do meu lado. Arrancou os óculos. Só então me dei conta de que podia fazer o mesmo enquanto estivesse descansando. Pense num alívio para os olhos. Burrice mata. Ele sussurrou e aí? Eu disse beleza pra não passar por mal-educado. Ele entendeu como senha que o autorizava a conversar água.
— Aprendendo ainda?
— Sim.
— Sempre é hora.
— Verdade.
— Daqui a pouco pega o ritmo.
— Sim.
— Fica igual a um tubarão.
— É.
Fui salvo pelo professor que se aproximou assobiando bora pra mais uma chegada só de perna vai vai. Antes que eu ajustasse de volta os óculos, o cabra já tinha saído feito um torpedo. Quando retornei esbaforido, ele já descansava a cabeça na borda, avaliando minha falta de destreza.
— A vantagem de aprender a nadar já adulto é que a gente pega mais rápido a noção dos movimentos.
— No meu caso, aprender velho.
— E velho não é adulto não?
— Claro que é, mas com menos vigor físico.
— Nada que uns treininhos não resolvam.
— Tu aprendeu a nadar já adulto?
— Não. Nado desde criança.
— Então de onde tirou isso? Que aprender velho é bom? Eu, pelo menos, não tô achando bom não.
— Observação. Uma criança precisa de umas quinhentas aulas pra fazer o que você já tá fazendo na primeira.
— E é?
— Em compensação, quando pega no tranco, uh. Juventude é fogo.
— Verdade.
— Quando você estiver já bem desenvolvido aí nos movimentos, a gente podia marcar de nadar no mar.
— Nã. Deus me livre. Deve ser perigoso.
— Por isso é bom. Faz a gente se sentir vivo.
— Não entendo quem precisa confrontar a morte pra se sentir vivo. Estou vivo. Entrei na natação pra viver mais. Não pra antecipar minha morte afogado no oceano.
— Sabia que morre mais gente afogada em piscina do que no mar?
— Não.
— As pessoas pensam que, por não haver ondas ou correntezas, não é perigoso. São idiotas.
— Aí concordo. De idiota o mundo está cheio.
— Então. Não tem problema nadar no mar se você domina as técnicas. É fazer tudo de acordo com o que o momento pede. Sem falar na conexão com a natureza. Aqui é um aquário no chão, cheio de cloro, me dá uma coceira desgraçada. No mar é uma maravilha. A gente sai purificado. Tem nem comparação.
— A não ser que esteja poluído.
— Que mané poluído, macho. Aquilo é invencível.
— Agora é que não vou mesmo.
— Como não?
— Tu quer que eu desafie algo que tu acaba de dizer que é invencível. Deus me livre.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Perfeitamente. Que a chance de morrer, embora menor do que na piscina, ainda é gigantesca.
— Porra, macho. Morrer é a coisa mais fácil do mundo. Não existe nada mais frágil no planeta do que o homem. A gente posa de fodão, constrói e destrói, age como deus, como dono de tudo, mas um tropicão na calçada, adeus. Ficar pensando nisso o tempo todo paralisa a gente. Dá pra ser assim não.
— Preciso primeiro estar seguro das técnicas — digo, seguro de que nem tão cedo estarei seguro das técnicas.
Chego à praia com o sol já violento. A conversa sobre marido de aluguel, além de me humilhar, me atrasou. Preciso passar entre as barracas para chegar ao mar. Recuso atendimento de dois garçons e quinze ambulantes antes de pisar na areia úmida. Fico um pedacinho ali, o mar água meus tornozelos e recua enterrando meus pés. Procuro meu colega da natação. Ou eu me embananei com a localização que ele me passou, ou ele já se meteu oceano adentro, achando que eu arreguei. O vento zune nos ouvidos. O cabra do coco chega gritando bom dia, doutor, olha o coco geladinho, três por dez, quer que ajeite uma mesinha ali na barraca pro senhor?
Quero a paz de uma manhã tranquila em frente ao mar. Suspiro, digo não e agradeço. Olho a imensidão verde. Ondas barrentas quebrando. Lá longe, em busca do horizonte, vejo bolas coloridas deslizando na água. Dei graças a Deus ter me atrasado. Jamais que eu ia bater ali nadando. Perigoso demais pra idoso, diria meu benzinho.
Ao tempo em que me dizia jamais entrar naquela massa de água, fui atraído como quem distingue uma música bonita e avança para ouvir melhor. Estou afogado até o meio das canelas. Ousado, me curvo a mergulhar a mão. Um segundinho só, o tempo de a posição incomodar a lombar. Retiro e sacudo a mão aguada. Quando olho, quede minha aliança? Não é possível. Enfio as duas mãos, arrasto areia. Aquele mar filho da puta me roubou. Perco as vistas. Uma onda me derruba. Bolo na areia. O mar me tempera com barro e sal, me prepara para a temida morte. Minhas narinas ardem. Um anjo me segura pelo braço. Até que foi rápido. Não consigo distinguir se ele é decaído. A julgar pelo calor, sim. Então é isso. Esta será minha eternidade. Ele bate no meu rosto doutor doutor doutor. Abro os olhos e cuspo água. É o cabra do coco, de joelhos ao meu lado.
— O que aconteceu? — pergunto.
— O senhor levou um caldo aí. Mas pense numa embolada doida. O senhor tá bem?
— É. Acho que sim.
— Deus seja louvado.
Respiro fundo. Dou uma tossidinha. — Conhece alguém que mexa com goteira?
— Como assim?
— Que saiba consertar. Tô com uma na cozinha. Queria ver.
— Mas oxe, eu mesmo sei.
— Pode vir comigo até minha casa? Pra ver isso?
— Agora?
— Sim.
— Agora não dá. Tô vendendo coco.
— Quanto é que tu tira de coco num dia fraco assim?
— Dia fraco, é? O doutor nem é sabido. Bote aí uns oitenta.
Respiro de estufar o peito. Escuto as crianças correndo. Minha pele arde de calor. Esfrego meu dedo sem aliança. — Te dou cem pra ir comigo ver a goteira lá em casa.
—Falou minha língua, papai.
— Oi, benzinho, trouxe o rapaz pra ver a goteira na cozinha.
— Que bom que o senhor voltou — além dos braços cruzados e do peso do corpo na perna direita, ela batucava o pé esquerdo no chão. — Assim pode me explicar o que foi fazer na rua sem aliança.
Meu estômago subiu à garganta. O cabra do coco me olhou de canto, a boca retorcida. Precisei olhar para o meu bolso. Tive sim o cuidado de não tirar minha mão de lá em nenhum momento desde que cheguei em casa. Quer dizer, posso ter tirado sem querer. Devo ter tirado, não tinha como ela saber sem ter visto. Mas eu tinha acabado de chegar. Ela mal tinha olhado pra mim. Como pode?
A questão não era nem a humilhação de levar um caldo no mar. Eu só queria ganhar um tempinho. Vai que ela nem notasse? Eu poderia mandar fazer uma réplica no Centro e tudo resolvido. Mas agora que ela sabia: eu teria que comprar duas alianças novas e alugar um bufê para renovação dos nossos votos. Uma festa simples para quinhentos convidados. Tudo isso porque caí na esparrela do meu colega de piscina. Tudo isso porque inventei de cair na piscina. Ergo a cabeça para explicar tudo em tom lamentoso. Só então percebo que eu não tinha o que explicar, mas o que entender: minha aliança brilhava imponente na palma da mão do meu benzinho.
— Mas como?
— Estava escondida embaixo do travesseiro. Por quê?
— Bem, não sei. Não faço ideia. Achei que a tinha perdido no mar.
— No mar?
— Sim. Eu quase
— O doutor tomou um caldo. Acontece muito com os desprevenidos. O mar carece de respeito, viu, dona?
O desgraçado falava com a orelha pregada na lateral da geladeira. Perguntei por que ele estava assim.
— Olha, doutor, também sei mexer com eletrodomésticos, viu? Geladeira é minha especialidade. O meu freezer é o que dá o coco mais gelado da praia, pode sair comparando. O pezinho dessa aqui tá enferrujado que é uma beleza, mas isso é o de menos. Esse zumbidinho, hum, e esse tremeliquezinho. Mau sinal. Parece que ela está funcionando bem, mas cada segundo a mais é um a menos de vida. Dou uma semana ou duas pra ela dar o último suspiro.
— Deixe isso daí que o combinado era ver a goteira. A geladeira está funcionando bem.
— Tá não, bem. Faz dias que te digo isso. Salsinha botei num dia, no outro amanheceu murcha. Uma garrafa d’água precisa de três dias pra gelar uma coisinha de nada. Vamos aproveitar que você acordou para a vida e trouxe o rapaz aí. Vamos consertar tudo de uma vez. De cafeteira elétrica entende, meu querido?
Meu benzinho me entrega a aliança. Sua chateação passou. Sinceramente, não entendi nada. Preciso falar sobre estas confusões com meu geriatra. Procuro um bloco de anotações. Não acho a caneta. Não importa. Esqueci o que queria anotar.
Inspiração
Um texto sobre um idoso fisicamente ativo, mas que já está com lapsos de memória.
Sobre a obra
Escrito em primeira pessoa com um narrador não confiável, permeado por diálogos com tons de comicidade.
Sobre o autor
Meu nome é Daniel Mendes Barreto. Nascido em Fortaleza-CE. Formado em Administração de Empresas pela UECE. Pós-graduado em Escrita e Criação pela Unifor. Amante da literatura desde a infância.
Autor(a): DANIEL MENDES BARRETO (Daniel Mendes Barreto)
APCEF/CE
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