Bons momentos

Quando minha avó costumava receber visitas, preparávamos um almoço caprichado. Ela era capaz de reunir a família e os amigos ao redor de uma mesa grande e farta. E, ao saber que todos se reencontrariam, a expectativa era a primeira a chegar, transbordando alegria.
Mal começava o dia, eu e minha avó saíamos para buscar no supermercado os produtos para a elaboração dos pratos. Sempre atenta, ela pesquisava e escolhia desde as carnes selecionadas até os legumes e temperos, sempre frescos. O vinho tinto seco, regalia que não dispensava em ocasiões especiais, era igualmente bem pensado. Gostava de experimentar novas marcas e admirava-se ao perceber que a seção de bebidas oferecia amplas opções.
Ao chegar em casa, organizava e aprontava todas as iguarias. Recusava ajuda, embora houvesse insistência da minha parte. Preferia apenas que eu observasse a produção enquanto colocava em prática seus saberes culinários. Precisava encontrar a medida exata e, para isso, a dosagem depurada dos condimentos era fundamental, que, pouco a pouco, ia equilibrando o paladar. Dizia que “cozinhar é uma forma de amar”.
A comida não era sofisticada nem requintada como aquelas que comumente aparecem em revistas gastronômicas ou banquetes refinados, entretanto ela extraía o melhor de tudo com habilidade, até o trivial transformava-se num delicioso aperitivo ou numa receita apetitosa. Do básico, nasciam os inconfundíveis e inesquecíveis aromas e sabores.
Eu sabia que esses encontros festivos eram um pretexto para as presenças longas, as conversas demoradas, os abraços acolhedores e as rememorações afáveis. Juntas dividíamos a garrafa de vinho e nos olhávamos como se, confidencialmente, soubéssemos que o amor, assim como o preparo da refeição, estava na seleção dos melhores ingredientes - no cuidado, no carinho e na dedicação.
Hoje, continuo procurando aqueles sabores e aromas, e, às vezes, frequento também a mesma seção de vinhos, mas só consigo sentir o gosto da saudade. Guardo, no entanto, os bons momentos como o presente mais valioso da memória.
Ouso acrescentar ainda, se, nos tempos remotos, as pessoas reuniam-se em volta da fogueira para contar e ouvir histórias, na casa da minha avó, ao redor da mesa, as mais emocionantes e afetuosas histórias eram compartilhadas.

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Inspiração

A inspiração foi a lembrança de momentos compartilhados em família.

Sobre a obra

Uma crônica sobre memória, afeto e saudade.

Sobre o autor

Participa da Oficina Literária da Regional Sul da APCEF-RS. Está sempre em busca de novos temas e inspirações para escrever. Já publicou poemas e contos em coletâneas.

Autor(a): REBECA BULCAO DA SILVA (Rebeca Bulcão)

APCEF/RS