Talentos Fenae/Apcef

A Metamorfose de Laganaro



1

— Faço planos caminhando pelos corredores. Cruzo olhares desconhecidos, corações ressentidos. Insônia. Vertigem. Corpos moribundos no Hospital Fachinni. Vejo sombras em paredes manchadas de sangue. Mulheres descalças. Sorrisos drogados. Recusar desvios de conduta é mais prático. Por vezes, encontro nos corredores os mesmos olhares. Eles já foram e voltaram. Eles comungam comigo. Solitários, ocos, perdidos. Sinto que eles não têm um caminho, e que merda deve ser isso! Abandonados à própria sorte entre becos e labirintos. Calorosamente abraçados pela dor, compulsivamente tragados pelo vício...

— Laganaro, por favor! Laganaro! Laganaro!

— Ouço pacientes coaxarem com frequência o meu nome, desesperadamente, como sapos trancados numa gaiola. Penso em distribuir sedativos a cada um deles, mas não posso. Então eu peço que tenham mais moderação, e que não me chamem pelo nome! Não suporto que me chamem pelo nome. Eles fingem que não, mas sabem muito bem disso, e continuam, mais alto!

— Laganaro! Laganaro! Por favor!

— Um paciente sem alma se aproxima de mim. O “Laganaro” que sai de sua boca é fanho. Ele chega mais perto, fala baixinho comigo, querendo me conquistar. O seu comportamento dissimulado me irrita. Peço que me chame de doutor, mas ele dá de ombros e nada responde. É só um idiota adestrado por outro lunático que divide com ele o mesmo quarto. Egoístas solidários. Prematuramente esquecidos. Anomalias sociais enterradas no ostracismo. Na “ala dos loucos”, como dizem os novatos. Residentes irônicos, frios e sarcásticos. Amanhã serão ocos, amargurados e adictos. Farão parte da ala que hoje abominam.

— Laganaro! Laganaro! LAGANARO!

— Basta! Tenho que voltar ao início. Desconstruir. Reconquistar o tempo perdido e seguir de outro jeito, por outros caminhos. Desvendar atalhos para um novo ciclo. Dados jogados no precipício...

O sujeito da fala é um médico viciado em fentanil. Ele é meu amigo de infância. Amigos de infância são nostálgicos. Ele foi pego desviando medicamentos do hospital onde trabalha: morfina, fentanil, rivotril... Alguns foram desviados a pedido de sua mãe, dona Ruth. Agora, ele está preocupado. Foi intimado pelo diretor do hospital a prestar esclarecimentos. Terá de ser transferido para não ter o seu registro cassado.

As mensagens dele não param. Recebi diversas nas últimas horas. Diz que quer me encontrar para levar um papo. Definitivamente, não queria encontrá-lo...

— É bom evitar certas amizades, garoto — o velho Timóteo dizia.

Timóteo teve amigos viciados na juventude, no auge da era hippie. Amigos que se picavam e espalhavam seringas na sarjeta. Laganaro é mais discreto, porém, é chato pra caralho!

— Evite aqueles que não elevarão sua existência, garoto. Drogados ou não, seu pai nunca dirá as coisas que aprendemos sozinhos com a vida — Timóteo dizia. — Autonomia!

São perspectivas, apenas perspectivas...

2


Laganaro trabalha há quinze anos como psiquiatra do Hospital Fachinni, localizado na Vila Nova Cachoeirinha, região periférica infestada de patologias, pacientes rudes e acompanhantes desalmados, segundo ele. Apesar da larga experiência que possui, as sirenes do Samu ainda lhe causam ansiedade, asco, taquicardia e desespero.

— Outra ambulância? Será um motoboy com a espinha dorsal saindo pela boca? Ou um professor psicótico se debatendo na camisa de força? Merda!

Hipérboles, xingamentos e algum preconceito. Murmúrios inaudíveis entre uma e outra consulta. Monólogos paranoicos e constantes frente ao espelho. Receituários mal redigidos, carimbos e solidão. O ambiente do hospital, constituído por oito andares de consultórios frios, mobiliário ultrapassado, paredes descascadas e pacientes agonizando nos corredores, não é nada parecido com o que Laganaro sonhava na época de faculdade. A presença quase absoluta de funcionários apáticos e mal-humorados torna o ambiente ainda mais decadente. O médico humanista fora deixado de lado, nos anos utópicos do curso de Medicina. Agora, o que prevalece é um profissional debochado, irônico, frio e displicente na maioria dos atendimentos — comportamento este ampliado a depender da petulância do paciente.

Ele havia firmado um esquema com Lino, anestesista do hospital e seu principal fornecedor de fentanil. Especialista em anestesiologia e perito em desviar morfina, Lino era a alegria de boa parte dos plantonistas. Quando chegava no hospital, era como foguetório em biqueira.

— Trabalho há dois anos no Hospital Fachinni fornecendo opioides para médicos e enfermeiros chapados. Tudo por um preço justo, de mercado.

Foi assim que ele se apresentou naquela noite. Conheci Lino numa festa que deu em sua casa no ano passado. Comemorava o seu aniversário de 30 anos. Magro, de olhos azulados e fundos. Cabelo castanho cacheado. Pele branca e escamosa. Lino parecia nunca ter visto o sol na vida. Era um cara obscuro, noturno. Saía do “sarcófago” apenas para os plantões da noite. Falava arrastado, anestesiado. Com o esquema dos medicamentos, ele conseguia quase triplicar o seu ganho mensal.

— Muitos trabalham dopados nas emergências e UTIs. Fazem cirurgias complexas totalmente alterados. Anestesistas que erram a dosagem e matam pacientes não é algo tão incomum. Muitas coisas acontecem nos plantões e não são reveladas por questões políticas e corporativistas.

Ele terminou assim aquela conversa. Pediu-me um tempo para ir ao banheiro e sumiu. Depois daquela noite, nunca mais trombei com Lino. Creio que aquele momento não fez diferença alguma para nós.

3

— Há rumores de uma nova guerra. Rumores? Só mentem! Rumores... É hilário ouvir os imbecis falando suas imbecilidades com tanta propriedade. Quer saber? Muitos morrerão por poucos delinquentes que farão da guerra um grande negócio. Assim sempre foi e será!

As mensagens de Laganaro continuam. Ele parece querer ajuda. Diz que vai me ligar. Paro de ler as mensagens, acendo um cigarro e reflito: “Será que devo encontrá-lo? Será que aconteceu algo?”. O telefone toca...

— Me ouça! Preciso que vá em casa, agora! Agora! Estou com problemas! PRO-BLE-MAS! Entendeu? Vou chamar um carro pra te pegar. Por favor, venha. Venha!

A ligação cai. Alguns minutos depois, um carro encosta na porta de casa.

— Boa noite.

— Boa — diz o motorista Leonel.

— Tudo bem?

— Vou ser direto com você, mano. Laganaro não está nada bem. Eu estava por perto quando ele me ligou pedindo para vir buscá-lo.

— O que houve?

— A esposa dele não aguentou a pressão e foi para a casa da mãe dela. Disse que ele está trancado no quarto e que dava para ouvir os barulhos. Segundo ela, parecem sapos.

— Sapos?

— Sim. Não consigo entender como ele subiu com sapos para o quarto. Ele diz que são todos seus pacientes. Chapou de vez.

— Bom, ele sempre foi um cara estranho, mas não me recordo do culto a sapos em nossas conversas. Ele nunca gostou de animais. Creio que o problema tem a ver com outras coisas... Você me entende, certo?

— Claro. Vou te dar uma letra sobre Laganaro. Você pode não acreditar no que eu vou te contar agora, mas preciso que entenda como eu me meti nessa fria... Há sete meses, recebi uma ligação de Monique, esposa de Laganaro, propondo uma vaga como motorista particular da família. Eu estava desempregado e precisava da grana para quitar algumas dívidas e limpar o meu nome. Comecei na semana seguinte. Nos primeiros dias, notei comportamentos atípicos do doutor. Questionei sua esposa sobre algumas atitudes, como manter todas as janelas da casa fechadas e o hábito de vestir blusa, jaqueta ou paletó, em pleno verão. Segundo Monique, Laganaro possui muitas marcas nos braços em decorrência do vício. O modo como se veste é para evitar que amigos e funcionários do hospital questionem ou suspeitem dele. Ela vivia dizendo: “Só abro as janelas quando ele não está em casa”. Ele desenvolveu síndrome do pânico e manias de perseguição no trânsito. Em uma delas, acabou se envolvendo num acidente grave. Fugindo do que acreditava ser um tanque de guerra, perdeu o controle do carro e atropelou um velhinho que conversava na calçada. A população local, indignada, tentou o linchamento. Por sorte, uma viatura passava por lá e controlou a situação. Ao abrirem a porta do veículo, os policiais observaram Laganaro deitado no banco de trás, em posição fetal. Perguntaram se ele estava bem, mas não respondeu. A sua cabeça sangrava. Questionaram o seu nome. Ele então respondeu:

— Sapo. Eu me chamo Sapo.

— A partir de então, Laganaro disparou a coaxar. Coaxava sem parar. Os policiais, confusos e nervosos, acharam aquilo uma afronta. Um deles suspeitou de embriaguez e pegou o bafômetro. O outro deu com o cassetete nas costelas dele. Porém, Laganaro coaxava mais e mais. Visivelmente alterado, ele saiu do carro e ficou agachado como um sapo. Coaxava alto, frenético. A população entrou em convulsão. Uns xingavam, outros filmavam a cena. Alguns riam e pediam a sua prisão. Os policiais tentaram forçá-lo a fazer o teste do bafômetro, mas era impossível. Intrigados, conduziram-no ao DP. Lá, conseguiram realizar o teste. Deu negativo. Ele estava sob efeito de outra substância que não conseguiram identificar... Foram as palavras que ouvi de Monique.

— Continue.

— Ligaram para ela comparecer à delegacia. Ao ser interrogada, Monique relatou ao delegado os problemas psicológicos do marido. Conseguiu atestados e laudos médicos comprovando o quadro de saúde dele. Mesmo assim, Laganaro acabou perdendo a habilitação por dois anos e meio e está respondendo criminalmente pelo acidente.

— Se fudeu.

— Depois do fato, recebi o telefonema de Monique e fui contratado.

— Leonel, ele deve ser internado com urgência! Não tem condições de exercer a profissão, ser pai, marido, amigo, nada! Está fora de si! Se não tomarmos providências, familiares, pacientes e até mesmo terceiros estarão em risco.

— Concordo. Contudo, Monique é contra a internação. Ele ainda consegue clinicar. A família depende da renda dele, entende?

— Clinicar? Logo não conseguirá sair de casa. É questão de tempo. Estamos chegando?

— Falta pouco.

4

São 22h43. Leonel abre o portão automático e estaciona o carro próximo à entrada da sala. Saio rapidamente e logo me deparo com um sapo ao lado do veículo. Olho em volta. Há diversos sapos espalhados pelo quintal. Pulam da janela do quarto. Descem pelo telhado abaixo. Alguns pulam direto da janela para a piscina. Os olhos esbugalhados ganham destaque na escuridão. Estão em todos os lugares. Os barulhos que fazem se misturam ao som da Nona Sinfonia de Beethoven, que vem do quarto. A cacofonia do ambiente é incômoda, causa-me sensações estranhas. Gritamos a plenos pulmões por Laganaro, sem êxito. Decido entrar na casa. As luzes estão apagadas, exceto as do quarto do casal. Peço a Leonel que aguarde um sinal. Entro pela porta da sala e me deparo com um filme de Chaplin passando na TV: “Tempos Modernos”. A cena de Chaplin alienado na linha de produção me faz pensar em Laganaro. A cena se repete. Alguém a programou em replay. Atormentado, desligo a TV e jogo o controle no chão. Subo a escada rapidamente até o quarto. O som da sinfonia aumenta conforme me aproximo da porta. Tento abri-la. Está trancada. Bato e grito para que ele abra. Não adianta, ele não me responde. Começo a chutá-la, incessantemente. Tomo distância e a chuto com força. Consigo arrombá-la. Vejo sapos em volta do corpo de Laganaro. Ele está caído, inconsciente. Peço a Leonel que suba. Os sapos pulam em minha direção. Trombam uns nos outros. São muitos, centenas, milhares de sapos! Ouço os gritos de Leonel vindos do corredor.

— Maldição! Só pode ser maldição, porra!

Ele pede para que eu me afaste. Ergue o corpo desfalecido de Laganaro e o carrega nos braços. Os sapos atacam. Eles urinam como defesa e se chocam contra nós. Evitam apenas atacar Laganaro. Tomo o cuidado de proteger os olhos. Não consigo pensar. Tudo é instintivo. Desço correndo a escada, saio da casa e abro ligeiro a porta do carro. Ajudo Leonel a colocar o corpo de Laganaro no banco traseiro. A boca dele espuma. Temos de agir rápido. Os sapos pulam sobre o capô e se chocam contra o para-brisa do carro. Leonel pisa fundo. Sai derrapando pela estrada de terra e atropela alguns sapos que vê pela frente. Gosto de sua atitude. O som da sinfonia diminui lentamente conforme nos afastamos.

5

Laganaro foi para uma clínica de reabilitação chamada Doze Passos para a Salvação, localizada no sul de Minas Gerais. Ele não pôde receber visitas durante seis meses. Depois de algum tempo, recebi a ligação de sua mãe pedindo para eu ir visitá-lo. Acertamos data e horário.
Durante a viagem, conversamos bastante sobre o ocorrido. Ela me disse que o filho se transformou depois da mudança para a casa na Serra da Cantareira. Dona Ruth passou a crer nos boatos sobre a casa de Laganaro ser amaldiçoada...

— Nós colocamos a casa à venda pela metade do preço, mas ninguém se interessa! Pudera... Ela vive cheia de sapos. Um horror! A história do meu filho correu a região. Me disseram que a casa é amaldiçoada. Você ri, seu babaca? Eu acredito piamente!

Depois de um silêncio constrangedor, ela continuou:

— O meu filho não se recuperou ainda do baque. Perdeu mulher e filha, coitado...

— O que houve?

— Aquela pilantra da Monique... Ela mudou-se para Portugal com minha neta e um tal de Leonel. Eu fiquei sabendo que esse sujeito era motorista da família. Uma pouca vergonha! Mas deixa... Não quero falar sobre o caso. Fico muito abalada. Somente peço que não se assuste quando encontrar o seu amigo.

— Ele não está bem?

— Acho melhor vê-lo com seus próprios olhos.

Seguimos em silêncio até chegarmos à clínica. A bela paisagem do interior mineiro contrastava com nossos humores e sentimentos. Fiquei pensando sobre como a vida é uma experiência dolorosa. Como se a dor fosse requisito para a validade ou não da própria existência, o sentido da vida em si. Nascemos, vivemos e morremos com ela. A dor do parto, a dor da vida, a dor da morte. Na busca incessante pela felicidade, encontramos sempre a dor à espreita, esperando um vacilo, um fracasso, uma frustração. Na distração inocente da próxima vítima, um campo vasto para espalhar suas armadilhas. A dor sempre insaciável, sempre sedenta, sempre no cio.

Ao entrar no quarto, percebo que Laganaro não me reconhece. Permanece agachado o tempo inteiro. Aparentemente, engordou mais de trinta quilos. A papada abaixo do queixo está saliente, tornando-o ainda mais semelhante a um sapo. Sinto o desespero de seus olhos. Estão conscientes. Espelham sua luta interior. A sua mãe está contente. Acha que o filho está bem alimentado. Ele vive apenas para vê-la feliz.



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Inspiração

A realidade de muitos hospitais públicos brasileiros, cuja falta de estrutura contribui para a escalada do vício entre profissionais da saúde.

Sobre a obra

Busquei construir uma narrativa que transitasse entre o realismo e o absurdo, deixando ao leitor a dúvida sobre os limites entre doença, alucinação e sobrenatural.

Sobre o autor

Sou paulistano, graduado em História, pai de Bárbara e Lucas. Trabalho na Caixa há 15 anos. Escrevo porque acredito no poder transformador da arte.

Autor(a): FELIPE THIAGO SANNA (Felipe Sanna)

APCEF/SP


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