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DEVANEIOS DA ALMA

DEVANEIOS DA ALMA
POESIA - HAIKAIS

VARDO LEMINS

180 micronarrativas: estórias contadas em uma estrofe com 3 versos e rima alternada. Mensagens nas entrelinhas que intentam fazer sentido para quem as lê. Espero conseguir ser cúmplice do leitor nos devaneios da alma.


tem sólidas convicções
não se obriga a, amanhã,
manter as suas opiniões.

ouse enfrentar as marés
talvez passe da sua hora
de molhar apenas os pés.

ouça a dor alheia com agrado
ofereça ajuda a quem carece
você é que poderá ser curado.

separe o aparente do verdadeiro
nunca se sabe ao certo o defeito
que sustenta seu edifício inteiro.

serás dono dos teus atos
se a magia dos sonhos
for a realidade dos fatos.

você não precisa saber de tudo
Ele nada entendia de finanças
pouco lia e nem tinha estudo.

não é bem verdade tudo o que vemos
pode, quem nos derruba, nos ensinar
clara a certeza: nas dores crescemos.

dispenso grandes surpresas
levo em paz uma vida miúda
regrada a pequenas belezas.

quer fugir de muita decepção?
fique longe dos três encostos
a tristeza, a inveja, a frustração.

nas lutas que a vida lhe exigir
faça bom uso do lugar de fala
para prometer e depois cumprir.

você pode resistir o quanto quiser
dispõe do mesmo número de horas
de michelangelo, da vinci, pasteur.

se a alegria dura breve instante
não desperdice chances de fazer
uma pessoa se sentir importante.

é muito caro, esquece
o preço que ele cobra
pelo amor que oferece.

não cabe lamento ou manha
após a dureza de um caminho
a lhe esperar, outra montanha.

de que é composto
o seu oculto lado B
ele tem voz e rosto?

sou um ser longevo
quase ninguém me lê
teimoso, eu escrevo.

deixe feliz, por favor
ao menos uma criatura
até a hora do sol se pôr.

convém zelar pela satisfação
suavize movimentos da alma
acolha os anseios do coração.

não lhe cabe fugir da sina
prepare-se: ela lhe aguarda
bem ali na próxima esquina.

reagir assim não precisa
há quem enxergue furacão
onde eu só vejo uma brisa.

pare de caminhar a esmo
ajuste-se à sua dimensão
more dentro de si mesmo.

toda espera traz medo
a resposta que demora
foi dada bem mais cedo.

por favor, não me oprima
até que estou empenhado
em lapidar a matéria-prima.

enxergue o que lhe desagrada
tente deixar do lado de fora
aquilo que lhe irrita e enfada.

tente fugir dos boatos
seja a cristalina verdade
que encurta seus hiatos.

ao dormir viajo, componho
fica muito mais fácil sorrir
se a vida se abre em sonho.

em busca de paz, anda a esmo
o problema se torna profundo:
lida com broncas de si mesmo.

sempre me mete medo
se dentro de uma persona
nunca existe um enredo.

tem uma vida amena
não seria tão vazia
se não fosse pequena.

pense um pouco adiante
se o hoje vai passando
o agora ficará distante.

o desejo tem preço e pressa
com pureza ou na devassa
com precisão ele se expressa.

quando me cabe ser autor
eu acabo por nada dizer
o personagem é o falador.


sem tirar o antolho
de pouco lhe adianta
tentar acurar o olho.

todo criativo autor
é bem lá no fundo
um grande impostor.

o que lhe impede
de deixar de ser
sempre o que cede?

eu escrevo sem pretexto
apenas dou paternidade
a um carente órfão texto.


deixe para chorar
nas sofridas horas
em que nada tentar.

sintonize-se com sua ternura
veja se reduz de ora em vez
o farto estoque de amargura.

aprenda a dizer “sim”
a um monte de coisas
que delas está a fim.

precisa realmente ser feita
de tristes contratempos
que vivem à sua espreita?

esta é a hora de falar sério
por que não transforma
as amarguras em mistério?

por que tanta desistência?
acho que lhe falta revestir
suas vontades de saliência?

sendo mestre em covardia
e quase um PhD em vacilo
quando deveria agir, adia.

de pouco lhe adianta
ser tão bem-preparada
se a preguiça lhe é tanta?


trilha o caminho do meio
sabe ser um grande mestre
surfa na arte do devaneio.

é hora de se arrepender:
você é apenas a pessoa
que sempre escolheu ser.

a natureza deu um dom
a todo justo ser humano:
a obrigação de ser bom.

enredado por seu desatino
pouco sabe fazer de certo
desde quando era menino.

tem na apatia o esteio
entre a ação e o prazer
escolhe ficar no receio.

sendo instrumento do Senhor
aquilo que ao seu coração chega
receba-o com todo o seu amor.

para tudo se dá um jeito
olhe-se no espelho e mude
com muito amor e respeito.

não preste tanta atenção na forma
bobagem que as coisas terminam
quando tudo apenas se transforma.

na vida é sempre criança
do trapézio ela se joga
sem rede de segurança.

seja fiel ao seu ser
o olhar dos outros
pode lhe distorcer.

foge de qualquer persuasão
quem tolamente se imagina
sempre ser o dono da razão.

vivendo e aprendendo
o que iria acontecer
já está acontecendo.

se a noite vai
o dia chega
e eu, haikai.

viver é muito arriscado
se o caminho escolhido
é o que foi menos pisado.

não sei se isso é prudente
gosta de viver nas nuvens
e criar mundos na mente.

se penso que já sei
o que estou fazendo
logo percebo: errei.

não fale assim comigo:
para poder me enxergar
pare de olhar seu umbigo.

olha só que judiação:
deixaram-me por aqui
com pouca orientação.

é assim desde a infância:
tudo o que lhe acomete
é revestido de ignorância.

não adianta insistir:
cansei de muito falar
agora só quero sentir.

sanidade não tem preço
não vou mais reclamar:
eu tenho o que mereço.

mesmo a contragosto, elas são
as coisas que não poderiam ser
umas me derrubam, outras não.

tem um jeito de ser indiferente
oscila entre o calado e o triste
talvez apenas seja um carente.

ele já foi muito sedutor
atualmente só lhe dizem
“passe à frente, senhor”.

uma vida para se arrepender
consegue ser feita de vontades
que se esquecem de acontecer.

bobagem querer insistir
o que não lhe pertence
por favor, deixe partir.

como eu sei falar bem de mim
em muitas daquelas situações
que não foram tão boas assim!

nem tudo precisa ter acontecido
importa o que a memória eterniza
da fração de belo que faça sentido.

bobagem dirigir-lhe sermões
se quisesse mesmo ser feliz
já teria aprendido as lições.

é o momento de se render
quando coisas inevitáveis
resolvem lhe acontecer.

com humildade, coragem e arte
que tal você começar a fazer
na vida a sua necessária parte?

bem viver é aceitar o deslize
é primordial usar a sensatez
mire o inevitável e o normalize.


reformule seu querer
chega de tanta poda
é a hora de florescer.


-

pode fugir do consenso
o que lhe importa mesmo
é saber ser bem intenso.

da realidade seja a emoção
dispense qualquer controle
se estiver na certa direção.

não é de brilho no olhar
sai-se melhor ao dizer
o que consegue praticar.

como quem não quer nada
descreve ações existenciais
no alto da vida inventada.

se fosse feita de vontades
já teria dado algum jeito
na sua vida de futilidades.

adormece e ninguém vê
como é insípida e rasa
a vida de quem não lê.

na vida mostra-se sereno
tudo além do que precisa
tende a se tornar veneno.

coragem, jogue os dados
os talentos de nada valem
se não forem bem usados.

deixar fluir livremente
o que sonha, o que quer
o que busca, o que sente.

simples como uma prece
só quem se deixa extraviar
sofre, aprende, amadurece.

fuja do redemoinho
mexa-se, aconteça
ou saia do caminho.

algo nele não vai bem
deixou de ver quem é
cisma de ser o que tem.

fique bem longe dos falsos
usufruem de seus encantos
e só lhe trazem percalços.

nem tanto, nem tão pouco
é a dosagem que separa
o sábio, o cruel e o louco.

ser sempre luz é ilusão
cuida apenas para evitar
dar sentido à escuridão.

é triste desperdiçar o viver:
de tudo o que lhe foi dado
quanto você soube receber?

algo que seu coração já sabe
o problema é aceitar menos
do que a parte que lhe cabe.

se vale a ideia que viver é arte
poderia então esforçar-se mais
para fazer melhor a sua parte.

a vida é mais arte do que ciência:
ao ver a velha agenda de endereço
captará o senso de impermanência.

exerce o papel de recheio
em tudo que sai errado
ele sempre está no meio.

não cobre tanto de você
sua beleza sempre estará
nos olhos de quem lhe vê.

poderá ficar bem agradecida
se conseguir de verdade viver
um dia de cada vez na vida.

ver com clareza é profecia
pode ser um dom religioso
mas acima de tudo é poesia.

nada em seu ser é acidental
toda perda que lhe acomete
deve ser aceita como natural.

deve ser levada a sério
quem feliz e terna exala
luz, emoção e mistério.

independente da sua fé
não adianta disfarçar
sua casa é quem você é.

não se furte ao aprendizado
há certa sabedoria escondida
nas coisas que lhe dão errado.

anseie, mereça, ore, peça
prepare-se, creia, se ajuste
ao receber, desfrute à beça.

tal como tudo me é
compreendo pouco
se deixo de lado a fé.

se a injustiça lhe acometer
procure não se resignar
e veja um jeito de crescer.

quando você pedir um conselho
pondere a fonte, pese a opinião
senão, melhor olhar no espelho.

desenvolva a paz interior
que nada lhe afaste do eixo
e nem tudo em si vire dor.

tristes os que desesperam
aceite por bem os seus erros
são eles que lhe temperam.

arte, devoção, mistério, sapiência
a escrita sabe como ser senhora
de quase toda a minha existência.

tenta reescrever a sua história
talvez entenda que a gratidão
constitui o coração da memória.

tente fazer a sua parte na cura
para que possa lhe ser revelado
o milagre por que tanto procura.

saia da janela, abra a porta
é natural você se demorar
a notar o que lhe importa.

nas tragédias não dê lance
cuide apenas das desordens
que estão ao seu alcance.

ajuste as coisas na sua mente
aceite que a felicidade é fugaz
a alegria pode ser permanente.

parear o que faz com o que diz
quem sabe ser coerente e bom
reúne mais chances de ser feliz.

quase como se fosse uma sina
que as suas essenciais escolhas
reverberem na vontade divina.

o impensado torna-se natural
somos feitos de muita pressa
perdemos o pasmo essencial.

já vivenciei boas estórias
de todas eu me orgulho
são verdades provisórias.

a alma dá sua pista
a pureza do coração
e a clareza da vista.

para bem melhor se entender
não ligue a tudo o que ouviu
considere o que se quis dizer.

tive que superar bastante coisa ruim
prevalece essa agradável sensação
que minha alma gosta muito de mim.

se o momento atual lhe desampara
tenha um pouco mais de paciência
não demora muito e tudo se aclara.

antes de elaborar o veredito
busque descobrir no silêncio
o que ainda não lhe foi dito.

talvez careça refazer as suas apostas
as melhores indagações existenciais
pedem mais silêncios que respostas.

o frescor e a fé vêm do berço
se meu pai já lapidava versos
a minha mãe puxava o terço.

nem tudo se acerta na vida
a desordem é uma vontade
que não foi bem obedecida.

é bobagem se apressar
quando quiser rapidez
faça as coisas devagar.

quando leio outros autores
eu aprendo muito sobre mim
vontades, anseios, louvores.

em vez de dar tapas e murros
bem que poderia falar de amor
na forma de beijos e sussurros.

o educador mexe com lavras
procura despertar a magia
que há no trato das palavras.

tudo é tão rápido agora
o que tardava a ser antigo
agora fica velho na hora.

os escritores nas livrarias
são uma leva de espíritos
entoam alertas, cantorias.

um ritual quase sagrado
saber refinar as palavras
e soltá-las no encantado.

convive com os problemas
na mente, o varal de versos
o coração, feito de poemas.

para encantar a sua vista
dirija para todas as coisas
um olhar pasmo de turista.

colocar ponto final é proibitivo
aquele que é escritor nunca está
diante de um texto seu definitivo.

o platô torna a vida tristonha
entregue-se às sinuosidades
triste da linha reta: não sonha.

conseguir as coisas entender
saiba transformar em palavras
aquilo que não para de doer.

nenhum veredito eu crivo:
o que fica na cabeça do leitor
após a leitura de bom livro?

o doce da vida é incidental
as lágrimas, o mar, o suor
fazem o tempero, com sal.

o clima de mistério lhe seduz
convive bem com a sombra
até achar o caminho da luz.

prefere cantar longe do coro
quando mergulhado na dor
tempera a vida com o choro.

procure ajustar o tino
o que de mal lhe ocorre
é distração do destino.

apesar de tudo irá insistir
tem muitas coisas a contar
quase ninguém para ouvir.

a dor me acha e não estrilo
bem difícil só sonhar na vida
sou mais chegado a cochilo.

como domar as emoções?
a dor sabe ser educadora
facilita aprender as lições.

bobagem engolir o penar
a alma parceira é aquela
que sabe quando soluçar.

seja quem não se abate
costure as suas dores
sem lhes dar arremate.

pouco importa, velho, moço
nunca perca a capacidade
de sentir um certo alvoroço.

resolvo os meus dilemas
quando eu quero chorar
escrevo-me uns poemas.

tanto texto já me percorreu
muita coisa boa que eu leio
ficaria bem, num livro meu.

tudo seria bem mais doce
o fio condutor se alinharia
se o que me é melhor, fosse.

seja quem muito se preze
antes de resgatar o sono
vire o travesseiro e reze.

o que brota pede emoção
no decote das vontades
fica o espaço da sedução.

os sonhos ficaram tardios
pelas dependências do ser
sobram cômodos vazios.

bobagem desmentir a realidade
aprenda com os lírios do campo
o suntuoso vive na simplicidade.

para lhe ser muito franco
sabe que o seu obituário
merecia ficar em branco?

vivenciou o sobressalto
uma poesia lhe abordou
e disse: “mãos ao alto!”.

até que saiba que não exista
dose de verdade com leveza
comova-se a perder de vista.

não sei se diz tudo o que sente
sendo feito de serenos devaneios
sem querer por vezes ele mente.

é um jeito de se portar, na dor
consola-se com o que escreve
entrega sua verdade ao leitor.

tanta coisa a ser feita
pare, reflita, pondere
a vida é para ser aceita.

sabe bem que não é muito certo
precisar ser no tom lhe assusta
parece natural, com gente perto.

para combater o natural enfado
procure uma boa testemunha
ria de si mesmo, acompanhado.

que eu me faça merecedor
de uma ansiada, amorosa
e bem sonhada paz interior.

mesmo que ninguém me leia
eu escrevo como quem uiva
na madrugada de lua cheia.

não deve se perder nas belezas
talvez a maturidade seja a arte
de saber suportar as incertezas.

ter orgulho não vale nada
a mortalha não terá bolso
toda vida é só emprestada.

na vida, se imensos os cansaços
faça sempre bom uso do choro,
das gargalhadas e dos abraços.

uma coisa que faz sentido:
quer ser alguém adorável?
favor aguçar o seu ouvido.

harmonia interior é obra de calma
floresce no cotidiano dos eventos
festa nos serenos recantos da alma.

a arte de bem viver é ciência
vige melhor o que é necessidade
àquilo que em si é só carência.

ao alcance de qualquer um
conseguir sentir o sagrado
até em cada evento comum.

leve-se muito menos a sério
quer ver gente sem problemas?
faça uma visita ao cemitério.

nem tudo o que vem, se sente
a verdade reside escondida
nas conveniências da gente.

no meio da noite a realidade
ao ligar o modo inquietação
os versos brotam à vontade.

vamos à realidade dos fatos
se fosse tão fácil o bem viver
a vida dispensaria os hiatos.

já quando de mim escapulia
sentimento que me devorava
descobri, pasmo: era poesia!

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Inspiração

Escrevo poesia desde a juventude: com o passar do tempo fui desenvolvendo o poder de síntese. Considero-me um atento observador do cotidiano: reparo muito refletir sobre a minha própria vida. Para mim, é uma atividade terapêutica.

Sobre a obra

Encaro como interessante desafio permitir-me dizer o que penso sobre cada evento sob a forma de hai-kai (apenas 3 versos) procurando contar uma estória completa. São breves relatos, rimando o primeiro verso com o terceiro, de uma maneira filosófica e espirituosa.

Sobre o autor

Sempre atrevi-me em manifestações artísticas. Fui menção honrosa no Concurso Mario Quintana de Poesias. Participei de projetos culturais, expondo poesias ora em lanternas japonesas, ora em imensas figuras geométricas. Fiz a letra de música disponível em diversos streamings. Fui coautor e ator em peça de teatro. Participei de festival de música.

Autor(a): LOURIVAL ANTONIO CRISTOFOLETTI (VARDO LEMINS)

APCEF/ES


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