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CONTO SOBRE UM ESPECTRO DO AUTISMO
CONTO SOBRE UM ESPECTRO DO AUTISMO
I
Sempre é bom fazer alguns movimentos no sentido de despertar consciências, além de servir de possível referência para quem convive com uma realidade semelhante e ainda não sabe direito como se comportar e como reagir à realidade com que convive. Um sempre jovem de 43 anos movido a sonhos, em um mundo que carece de um pouco mais de fantasia.
Lutar é o que mais sabe fazer o Sávio desde que veio ao mundo. Conseguiu, na educação formal, terminar o Ensino Médio. Expresso-me amparado no que nele observo: apresenta diversas comorbidades, toma remédios controlados desde que nasceu, tem muita ansiedade e inocência, pensamentos repetitivos (muitas vezes obsessivos) e dificuldade de noção espacial (nem sempre sabe que direção tomar) e uma inquietação incrível para as manifestações artísticas.
Cenário: noite de 16-04-22, nua Academia de Letras Municipal. Convites para boas emoções e suaves sentimentos de pertencimento: a Academia é um sacrossanto espaço. Uma posse em uma instituição de tal envergadura sempre merece ser comemorada de maneira especial: ele usou fardão, corrente de imortal, identidade da Academia, juramento de posse com espada.
Houve muitas fotos, discursos dos novos acadêmicos, numa belíssima solenidade. Fui surpreendido pelo chamado, pelo Presidente da Academia (ele me vê como escritor), a fazer uso da palavra: não me fiz de rogado e, de improviso, saiu o que reproduzo agora.
“Essa verve literária no nosso clã se iniciou com meu pai, José, marceneiro, trovador e poeta de primeira, que homenageava a minha mãe e os 10 filhos, além dos agregados, com longos poemas com versos alternados rimados, filosofando sobre o que a vida de cada um representa, sempre oferecendo especial espaço ao Divino. Daí veio no meu metabolismo o prazer em escrevinhar.
Quem é o Sávio? Ainda não sei ao certo: estou aprendendo todo dia. Teima em ser um rapaz movido a sonhos, em um mundo revirado que é real além da conta e, que, por isso mesmo, bem que merecia um pouco mais de ludicidade. Lutar é o que ele mais bem sabe fazer desde que veio ao mundo com a Síndrome de Asperger, um tipo de Autismo. Autodidata no percurso artístico, enxerga-se e age multifacetado: escritor, quadrinista, desenhista, chargista, ilustrador, poeta, cartunista.
Inocente e desarmado que é, não faz mal a ninguém. Vê o mundo com lentes especiais de pureza, com dificuldade para controlar a ansiedade e os pensamentos repetitivos. Com diversificada e aprofundada cultura, sabe detalhes e minúcias de coisas despercebidas para a maioria. Tem um estilo único de desenhar e de colorir, com ingênuos traços e singulares personagens (um desenho seu, colocado, entre milhares é facilmente identificável): bem que ele merece que sejam criados diversos produtos sobre o universo dos personagens que cria (produção de canecas, camisetas, toalhas, bolsas).
Busca nas histórias em quadrinhos a chance de ver seu trabalho divulgado e reconhecido, incansável batalhador que é, crédulo de que um dia a sua vez chegará. Por certo veio a este indecifrável mundo com um distinto propósito: ajudar os outros a se tornarem um pouco melhores para si próprios.
Que características talvez inconscientemente ele anseia que brote nas pessoas com quem convive e, em especial, naquelas que o perseguem? Paciência, tolerância, capacidade de escutar, vontade de abraçar em silêncio, com respeito múltiplo às diversidades, fazendo brotar, em consequência, a ampliação da determinação e da força de vontade, ansiando chegar ao estágio descomplicado da valorização natural de toda existência, até chegar à sublime estação do amor. Muito obrigado pela atenção”. Na plateia, algumas pessoas choraram comigo (emocionado que fiquei) durante o discurso: gratidão a elas.
II
Um corte no relato que está sendo feito, para outras considerações: embora ele não tenha domínio de técnicas formais (transparece certa ingenuidade), quer fazer e experimentar outras diferentes possibilidades e manifestações artístico-culturais: compor músicas, criar gêneros musicais através de fusões dos já existentes, pesquisar vários idiomas (alemão, italiano, além dos tradicionais inglês e espanhol).
Um colecionador nato: cartas de jogos, lacres das latas de refrigerante, cartões telefônicos, tampas de garrafas, revistas, gibis, cartas de games (RPG, por exemplo), gibis para crianças e adolescentes, super-heróis, tudo em grande quantidade.
Compra livros de pessoas que você não sabe que existem (e olha que eu leio muito), falando de assuntos que não chamariam a sua atenção (Legislação do Senado, por exemplo). Quer prestigiar todo convite que recebe: se não puder ir, pede desculpas pela ausência.
Somente vai sozinho a lugares já conhecidos e próximos de sua casa: eu o deixo em eventos e depois vou buscá-lo. É tímido, tem dificuldade de comunicação com estranhos (seu aperto de mão é muito fraco), mas, se há uma aproximação, pede logo um cartão de visitas ou pergunta se a pessoa tem conta nas mídias sociais.
Adora participar dos “Animes” (não perde um): já o levei em diferentes lugares de Vitória, além Guarapari, Vila Velha) e esses eventos acontecem quase que uma vez por mês: eu o levo antes do almoço (dou sempre um dinheiro para os lanches) e ele fica lá até por volta das 19 horas.
Nesses eventos tem concurso Cosplay (os concorrentes vão fantasiados de personagens variados (alguns super-heróis): ele participa de todos, alternando os personagens Daniel Boone, Harry Porter, Cowboy Italiano, Imperador Romano. Tem, também, Animekê (um tipo de karaokê oriental), estandes de vendas de bottoms, chaveiros, miniaturas, camisetas, com estampas de Personagens e Bandas afins.
Há diversos palcos de músicas pop e rock, mangás, além de um interminável desfile de pessoas caracterizadas, circulando pelas dependências (adoram posar para fotos), em um mundo de fantasias, dentre inúmeras outras atrações (jogos de cartas tipo RPG e um Bazar de troca e venda dessas cartas).
Um público fiel desses eventos são os Geeks e demais estudantes de T.I. (é comum eu encontrar diversos alunos e ex-alunos a cada evento, no momento em que lá chego, quase sempre ouvindo deles: “Professor! O que você está fazendo aqui?”. Eu respondo: “Me divertindo”).
Quando ele quer ir a algum lugar diferente, não me pede diretamente: faz-me indagações do tipo: “Pai, sabe que ônibus eu pego para ir a tal lugar?” (e é no fim do mundo, em que ele teria que pegar 2 ou 3 ônibus); “Pai, você vai passar perto de uma livraria neste próximo mês?” (aí eu digo: quando você quer ir em uma livraria? (está sempre comprando diferentes tipos de canetas, lápis, papel, telas, pincéis e afins).
Não se limita a escrever estórias: ele cria uma personagem que fala castelhano uruguaio com outra que fala português castiço, só para dar um exemplo. Já escreveu centenas de histórias (e até há pouco tempo, registrava todas na Universidade, para preservar os direitos autorais, pois tem receio de ser plagiado).
Leva muito a sério tudo o que eu falo: tenho consciência da minha imensa responsabilidade nesse aspecto e procuro ter a competência possível que minha maturidade permite. Pede as coisas para mim, mas não força a barra: tem um alto grau de aceitação quando ouve “Não”. Após minha resposta às suas perguntas frequentes, geralmente diz: “Certo, pai: tem razão. Obrigado”.
Nem sempre pensa nas consequências das coisas que quer fazer ou faz. Quando eu lhe pergunto: "Pensou bem nos desdobramentos do que você falou ou fez?" - alertando-o dos riscos. Invariavelmente diz: "Pior que não". Quando lhe perguntam, você está bem, responde: " Um pouco".
Exige muito de mim, em termos de paciência: eu me esforço sempre, mas não com a competência necessária. Faz-me perguntas de toda ordem: escolha de nome e nacionalidade de personagens, qual vestimenta combina mais, apresenta-me três palavras para eu dizer a diferença entre elas, etc. Exige de mim variados exercícios de empatia, de orientá-lo quando faz alguma coisa errada nas redes sociais. É o conselheiro de diversos amigos PCD: mas não sabe ao certo o que responder a eles, quando lhe apresentam uma situação existencial que estão vivenciando: então eu lhe forneço as alternativas de respostas.
Às vezes fico indignado e tenho dificuldade de controlar minhas ações para não perder a linha com garotos imbecis que o perturbam, xingam, fazem Bullying, criam páginas fakes (falsas) dele, fazem posts depreciativos. Atormentam-no sem que ele tenha feito nada para provocá-los. O pior é que são covardes: quando eu os confronto ou falo com os seus pais, eles negam tudo.
Ele mora a uma distância de 1.200 metros da minha casa, com a mãe e tem apoio total dela para tudo (um amor incondicional, protetor), que faz o impossível por ele. É justo dizer que o Sávio recebe, também, muita atenção dos tios e primos maternos.
Tem uma vontade muito grande de “vencer” nessas atividades que executa e não aceita com naturalidade que parentes, principalmente os mais próximos, não se entendam bem e não gostem de ficar juntos. Pede a minha opinião para tudo: liga para mim mais de uma vez ao dia e me manda mensagens, e-mails, fazendo as consultas mais inusitadas. Sempre que acho necessário, dou uns “choques de realidade” nele, trazendo-o para o campo da razão, para que entenda as limitações que tem e como o mundo realmente é (há muitas pessoas boas, mas é infinito o número de haters, imbecis, pessoas do mal).
Eu brinco dizendo que, dentre outras habilidades, ele é portador de uma incrível “cultura inútil”: sabe detalhes das bandeiras dos países, curiosidades da língua portuguesa, conhece dados biográficos não tão relevantes de personalidades, pesquisa sobre história, geografia em geral, filmes, séries de tevê, muitas vezes trilhando o viés dos assuntos, ou seja, coisas que passam despercebidas para a maioria.
Entendo que o Sávio seja um belo exemplo para os portadores de necessidades especiais, pois batalhou, por iniciativa própria e lançou dois livretos (revistas em quadrinhos), com o apoio da Lei Rubem Braga, que incentiva a publicação de livros de autores capixaba ou aqui radicados (foi ele que acreditou no potencial da obra e inscreveu esses dois trabalhos). No mínimo, ele é uma interessantíssima e amorosa lição de vida (de uma coisa eu não tenho dúvida: ele veio ao mundo para nos ensinar.
III
Amigos, “ilari-ilariê, oh, oh, oh!!!”: no domingo eu e o Sávio a Pedra da Cebola: fomos caminhando e percorremos uma distância de uns 1.500 metros. O piquenique foi uma rica oportunidade de congraçamento, de troca de realidades vivenciadas pelos filhos e de aprendizados sobre o amor à vida.
Vi uma mãe falando: “O meu filho vai ao banheiro e não direciona o xixi no vaso”. Uma criança autista vem de cadeira de rodas. Outra anda com dificuldade motora e não conversa: só se comunica gritando. Tem um menino que não pára de correr, por conta da hiperatividade. Um jovem chega com os pais, caminhando e interagindo com dificuldade. Um outro não fala quase nada e tem o pai que apenas balbucia palavras. São extraordimários os exemplos de superação, fé e amor.
Cada pai e cada mãe com uma história mais bonita de superação do que o outro: ao final, todos são campeões em pureza, fé e muito, mas muito, amor. Aprendo com eles sobre doação interior espontânea e amorosa: têm sorriso nos lábios e esperança infinita no coração. Abnegados, dão sempre o melhor de si e confiam que os filhos - puros e carentes - cada vez mais superarão as barreiras que limitam a interação deles com o mundo das conversas, contatos, amizades, com infinito amor. Incrível a sensação de descobrir - e se deixar levitar - que naquele ambiente não havia ninguém que não tivesse a alma leve.
O Sávio não foi muito bem nas interações (eu tento entronizá-lo nas conversas, mas ele fica muito inibido), porém ele soube interagir muito bem com os comes e bebes. Foi muito bom, também, esse encontro, porque abriu espaço para nós dois irmos conversando. Todas as frases do Sávio, quando pergunta alguma coisa para mim, começam pela palavra “Pai”, duplicada. Eu me transformo no Oráculo de Delfos: só que sou eu que tenho que decifrar um monte de esfinges: (a) “Pai, qual foi a maior surpresa da sua vida?”; (b) “Pai, se alguém desconhecido umchegasse na festa em sua casa, desse um grande abraço sorrindo e te chamasse por outro nome?”; (c) “Pai, a minha colega e eu brigamos após ela me dizer que não estava a fim de vir a meu aniversário e não viu necessidade em me explicar os motivos. Reclamei com ela que isso não se faz e ela me anulou de sua lista de amigos do Facebook. Ainda desejo bastante reaver a amizade com ela, nesse caso, o que eu devo fazer?”; (d) “Pai, o que você faria se um homenzinho verde, todo luminoso chegasse de repente na sua frente e dissess: “Me leve até seu líder”. Eu finjo que fico bravo com as perguntas e ele dá um sorriso contido, de lado, como aquele cachorro do desenho Corrida Maluca.
Não há como eu não continuar a falar da leveza e a magia daquele ambiente: as palavras mágicas por lá são: amor soberano, doação, pureza, desarme, abnegação, coragem, solidariedade, compartilhamento, entrega, bondade, gratidão e uma imensa vontade de aprenderem cada vez mais como poderão ser o melhor possível para os seus filhos. Todos que para lá vão nos ensinam anonimamente alguma coisa sem precisarem dizer uma única palavra.
Pais imensamente humanos e amorosos: portam um sorriso nos lábios, são “pau para toda obra”, quererem ajudar os outros, vibrar com pequenas conquistas, estão sempre prontos para recomeços. São ungidos com um amor incondicional e, mesmo com todas as dificuldades, têm infinita capacidade de, apesar de todos os contratempos advindos, serem crédulo até não poder mais. Possuem a plena certeza de que seus filhos são bênçãos e que não perderão nunca a fé no Divino.
Eu penso que a vida é um pouco isso: uma pequena sucessão de gestos carinhosos despretensiosos: ajudar quem carece de alguma atenção, não passar despercebido pelos ambientes, elogiar quem merece, afagar quem precisa, não falar mal de ninguém, não praticar nenhum mal, aprender com quem muito ensina sem desconfiar da força transformadora dos seus descompromissados gestos cotidianos. Vendo esses pais em ação eu renovo as energias: naquele ambiente não tinha ninguém que não fosse leve.
Ante essas abençoadas posturas e tão abnegados e edificantes exemplos, como alguém pode ter o desplante e a ousadia de colocar em dúvida esses tão nobres propósitos deles? Eu, que não! Obrigado, Senhor, por me renovar as forças e as esperanças em um amanhã muito melhor para o Sávio, também! Quem ousar duvidar de alguma coisa, que atire a primeira flor, de preferência muito perfumada!
Inspiração
As vivências com meu filho portador da Síndrome de Asperger e o compartilhamento de experiências, tentando despertar consciências e levar informações ao público. Ao mesmo tempo, espero estar ajudando pessoas que convivem com experiências semelhantes em seus lares e que ainda não descobriram como devem se comportar em termos de interação.
Sobre a obra
Foi muito sereno o processo, até chegar a essa formatação. Eu poderia inscrever uma obra muito mais extensa: tive que fazer um rigoroso processo de síntese - e muita informação, que julgo muito relevante, deixou de ser incluída. Tentei estabelecer uma cronologia que aparentasse ser lógica, recorrendo à emoção, à sinceridade e o aguçamento da consci
Sobre o autor
Na minha atuação profissional sempre fui compelido a aguçar o senso de observação sobre a realidade ao meu alcance - e isso tem me ajudado muito na minha vida pessoal, também. Desde cedo eu me interessei por gramática e, ainda, por volta dos 18 anos, comecei a escrever: de lá para cá eu sempre tento buscar um refinamento de estilo e de conteúdo.
Autor(a): LOURIVAL ANTONIO CRISTOFOLETTI (ARI ´PLATÃO)
APCEF/ES
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