DE CADENUS A PLENA- a trajetória de uma Vanessa através dos séculos (Crônica de uma vida nada típica)

DE CADENUS A PLENA: A trajetória de uma Vanessa através dos séculos
(Crônica de uma vida real nada típica)

ATO I: O NEOLOGISMO E O RESGATE

Eu jamais pude sequer me imaginar portando outro nome que não o meu: V-A-N-E-S-S-A. E ele é tão meu que, mesmo tendo conhecido inúmeras xarás ao longo da vida, sempre senti que ninguém personifica esse nome quanto eu mesma. Ainda que eu aprecie a beleza ou a sonoridade de tantos outros, Vanessa é algo inerente, intrínseco, pertencente desde a essência — como a minha própria pele, ou a minha mente. Eu só poderia ser Vanessa, sem abertura para qualquer outra hipótese, e sempre fiz questão de agradecer aos meus pais por essa acertada escolha. Foi um precioso presente o nome que me deram — ainda que já fosse meu. Mas, durante quase seis décadas, permaneci alheia a particularidades fascinantes, que justificam de forma surpreendente a força do sentimento de identificação e toda a convicção que sempre carreguei em relação a isso.
Foi a partir da desconstrução que naturalmente se impôs, gerando uma explosão de emoções e sentimentos causados pelo diagnóstico tardio de Dupla Excepcionalidade, que teve início um intenso processo de resgate de fragmentos valiosos de mim e fui levada a surpreendentes descobertas. Na sucessão de "por quês?" e "pra quês?", me peguei refletindo e pesquisando sobre a origem do meu nome. Eu tinha uma vaga ideia, mas o que descobri confirmou o que eu já intuía: o meu nome estava muito distante de ser apenas um mero rótulo, uma denominação formal em um documento. Antes, é portador de uma origem carregada de genialidade, romance e até uma aura de mistério.
Um formidável neologismo poético que só poderia ter nascido de uma mente brilhante, inspirada por outra mente extraordinariamente singular. Assim, em 1713, Jonathan Swift rebatizou Esther Vanhomrigh, tendo sido movido pelo desejo de imortalizar a incomparável afeição e a inevitável cumplicidade intelectual que nasceu entre eles, sem ferir os rigorosos códigos de conduta de então. Da forma como mais ninguém talvez pensasse fazê-lo, o poeta criou uma fórmula mágica a partir das letras. Referindo-se a si mesmo como Cadenus — que é um anagrama refinado para Decanus, o título de Deão que ele ostentava em Dublin —, o mestre talhou para a sua admirada pupila uma denominação inédita: VANhomrigh era o sobrenome dela, de onde ele obteve as 3 primeiras letras, somando a elas o sufixo ESSA, que era o afetuoso diminutivo pelo qual Esther era chamada no círculo mais próximo.
Assim, surgia Vanessa: uma palavra que jamais fora pronunciada sobre a terra, caprichosamente criada, diante da necessidade de sigilo da identidade, para a detentora de um espírito extraordinário. Eu nunca seria capaz de imaginar que o único nome que poderia me ser dado com propriedade viria a me inserir, de forma quase surreal, em uma história de mais de trezentos anos, que impressiona ao entrelaçar detalhes e características tão minhas ao doloroso percurso de outra mulher que, muito antes de mim, foi fadada ao silêncio por seu brilhantismo não ser suportado pelas limitações daquela época.

ATO II: O "WIT" DE PALLAS E A CRIANÇA DE ALTA VOLTAGEM

Através do belíssimo poema Cadenus e Vanessa, Jonathan Swift mescla elementos biográficos a componentes mitológicos, valendo-se de analogias e metáforas para registrar fragmentos do seu relacionamento com sua aluna favorita. Ele conta que a deusa Pallas (Atena), tomando Vanessa por menino, soprou sobre ela, então recém-nascida, a sabedoria e agudeza intelectual (wit), considerados dons especiais, exclusivamente reservados aos grandes pensadores.
Como atributos tipicamente masculinos, à época, estas características acabaram por ser causadoras de grandes desafios, já que aquela mente privilegiada, dotada de uma capacidade de percepção profunda, não conseguia se moldar à superficialidade das conversas e às futilidades comuns às jovens de sua idade. Assim, foi mesmo por isso que ela acabou sendo submetida à clausura da incompreensão e da solidão.
Após três séculos, o palco da vida é lugar para a encenação de um enredo de grandes similitudes. A precocidade com que aprendi a ler e decifrar complexidades trouxe-me a fama de criança prodígio, alvo tanto de abundantes elogios quanto de elevadas expectativas. Uma sentença parecia me obrigar a voar alto, mas a menina deslocada não havia ainda aprendido sequer como habitar o mundo, entre simplicidades, brincadeiras e a necessidade de se sentir adequada. Havia como que um olhar constante de vigilância e reprovação, como se eu não fosse boa o bastante. Nunca.
Agora sei que me sentia exatamente como a Vanessa de Cadenus: não encontrava pares com quem compartilhar a profundidade de minhas percepções, sem conseguir distinguir bem até onde poderia apenas ser eu mesma. Se é que poderia.
A mente de alta voltagem, que me fazia parecer ter vantagem sobre os outros, não podia ajudar a criança a apenas estar no papel de criança — e certamente era o que eu mais desejava na altura. Até porque eu captava coisas que não era suposto uma criança alcançar e não sabia exatamente o que fazer com tudo aquilo. Ainda hoje, sinto a criança em mim cobrando o espaço que, de certa forma, lhe foi roubado, não por um outro alguém, mas pela minha própria condição. Talvez por isso, eu ainda não consiga me ver e me sentir como uma mulher de 58 anos.

ATO III: O TRANSBORDAR E O NOME PLENA

A identificação que senti com a história daquela mulher, que foi a razão e inspiração para a criação do nome que orgulhosamente assino, me fez entender que, ao me resgatar do vale de sombras a que o diagnóstico tardio me transportou, tenho a oportunidade de honrar e resgatar também a Vanessa de Cadenus. E assim, ela sou eu.
Mas, ao contrário do segredo e da clausura a que Esther Vanhomrigh foi sentenciada no século XVIII, recuso solenemente a imposição do silenciamento e do anonimato. A minha arte tem voz própria. A minha expressão não pede: ela exige passagem.
O nome Vanessa hoje se faz acompanhar. Plena não foi escolhido por mim: foi-me concedido, como uma espécie de bênção dada, anos atrás, por um grupo de pessoas que captou a força, a luz e a energia da minha presença — aquilo que se impõe e se faz sentir antes mesmo que eu chegue. E essas palavras não são minhas. São as mesmas que ouvi, no momento em que recebi o nome Plena.
E, diante daqueles que ainda questionam o nome artístico que adotei, por julgá-lo uma pretensão de perfeição ou completude, a minha resposta é altiva, mas despida de prepotência: ser Vanessa Plena nunca foi sinônimo de desejar transparecer ausência de falhas, de dilemas internos ou de sombras. Vanessa Plena é o nome que me permite afirmar a plenitude através do ato sagrado de transbordar o melhor de mim — através da arte, da minha palavra escrita, falada ou cantada. É por meio de minhas criações e de sua livre expressão que a minha mente de configuração especial, finalmente encontra a sua libertação e posso, enfim, assumir e cumprir minha razão de existir.

FECHO: A CHAVE MESTRA E A INTEGRAÇÃO DEFINITIVA

Compreendo que o diagnóstico pode até não ter me trazido um mapa, mas quem sabe uma chave há muito esperada? Chave mestra esta que destranca cadeados, destrava portas e abre cofres sagrados que escondem tesouros de valor incalculável. Chave esta que possibilita uma genuína libertação. A libertação que permite o resgate e a reintegração de nuances importantes do meu próprio ser, como a minha ancestral e inabalável capacidade de manter-me tão serena como um lago de águas plácidas, mesmo em meio às situações mais desafiadoras, inesperadas ou adversas. Isso remete-me a imagem do sonho que uma amiga revelou ter tido esta noite. Minha casa, em um plano mais elevado, era o único lugar seguro, enquanto um vulcão entrava em erupção e eu fui recebê-la no portão, segundo suas próprias palavras, elegante, serena e plena. Fato que chamou muito a atenção porque todo mundo estava apavorado, exceto eu e o que estavam em casa comigo. Considerei como mais um presente, uma peça que faltava para fechar e ao me reapropriar deste e de todos os atributos que, atemporalmente, são meus, decreto a mim mesma: Eu Sou Vanessa Plena! E escolho que o meu espelho deixe de refletir a dor da incompreensão e a imposição da inexpressividade. A Mente brilhante de Esther Vanhomrigh, a pureza da menina que não encontrava seu lugar e a permissão de apenas brincar, a libertação da mulher de 58 anos que se assume plena ao transbordar sua arte, todas estas facetas encontram-se agora num abraço de reconhecimento, acolhimento e integração. Vanessa Plena segue firme, não cumprindo um destino ou uma profecia, mas construindo seu próprio caminho!

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Inspiração

Esta crônica nasce da interseção entre o diagnóstico tardio de uma mente singular e a descoberta de que meu nome carrega uma história secular de agudeza e poesia. Ao perceber a ponte entre minha trajetória e a gênese desse nome, entendi que resgatar minha voz era um ato de justiça, libertação e restauração poética.

Sobre a obra

Utilizei uma estrutura narrativa em quatro atos, aliando metáforas de grande apelo visual a um ritmo poético e solene. O resultado foi alcançado no resgate cuidadoso de lembranças e na lapidação do texto, convertendo memórias brutas em uma obra literária sobre acolhimento, voz própria e integração.

Sobre o autor

Sou Vanessa Plena e tenho 58 anos. Meu desejo é transformar as preciosidades da minha mente de altas habilidades combinada à minha singular sensibilidade em conteúdos vivos e poéticos. Faço da escrita, ao mesmo tempo, meu veículo de desabafo e um manifesto de liberdade e transbordamento, convertendo a dor do silêncio em arte e beleza.

Autor(a): VANESSA PEREIRA SILVA (VANESSSA PLENA)

APCEF/MG


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