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Uma família divergente
Há alguns anos, Maria levou sua filha caçula ao médico, pois a menina com 15 anos nunca comeu direito, a ponto de ter episódios de tontura e mal estar. A menina ficava horas sentada à mesa, na frente de um prato de comida, fazendo de conta que estava comendo e quando todo mundo saia da mesa ela jogava a comida no lixo.
Isso não era um episódio isolado, os exames de sangue da menina já mostravam desnutrição, mesmo ela tendo uma vida confortável de classe média, mesmo tendo acesso a comida de verdade (arroz, feijão e carne) e a lanches e outras bobagens. Mesmo assim ela não comia direito.
A Maria, preocupada, levou a menina a vários médicos na sua cidade e fizeram vários exames. Não havia nada com a menina. Foram para a cidade mais próxima consultar um endocrinologista, com esperança que essa desnutrição pudesse ser tratada e a menina pudesse ter uma vida normal.
Na entrevista a médica começou a perguntar sobre os hábitos alimentares da menina, que eram bem restritos, e por acaso a Maria disse que a menina quando lhe era oferecido melancia dizia que não suportava a textura da fruta.
A médica levantou o olhar e começou a perguntar sobre outros detalhes do desenvolvimento da menina: andava na ponta dos pés, começou a andar e a falar na época certa, coisas que nunca tinham sido observados por outros médicos.
A pergunta da médica assustou a mãe: Já investigaram se ela está dentro do espectro autista?
Naquele momento surgiu um novo caminho e lá vai a Maria levar a menina em mais outros médicos para depois de quase um ano descobrir que sim, a menina que não comia, também não dormia direito, não desligava, era autista nível 1 de suporte.
Ali começou uma nova jornada para entender aquele universo. E vamos consultar neuropediatra, psiquiatras, e tentar ajustar a vida para aquela nova realidade.
E isso foi apenas o começo.....
Depois de alguns meses outra filha da Maria, uma das gêmeas mais velhas, que era acompanhada por uma psicóloga havia algum tempo, por ter auto-estima muito baixa, não conseguir se relacionar direito com o mundo, não falar muito, recebeu uma hipótese diagnóstica de Autismo. A psicóloga se ofereceu para realizar a avaliação neuropsicológica e a menina aceitou juntamente com o consentimento de sua mãe Maria.
Com o fim dos testes a psicóloga orientou a menina e Maria a procurarem um psiquiatra para fechamento do diagnóstico, o que Maria prontamente fez. Só que não foi uma consulta agradável, pois o psiquiatra que atendeu a menina foi um verdadeiro babaca. Fez a menina sair de lá chorando porque além de não ler o relatório, não se importar com a menina e o seu sofrimento, usou as medicações que ela tomava para ansiedade como fator para excluir o diagnóstico.
Maria e a filha não desistiram e procuraram um novo profissional e nesse interim a outra gêmea começou a apresentar sinais de ansiedade e como a filha caçula também fazia tempo que não se consultava com um psiquiatra, ela marcou consulta para as três filhas no mesmo dia.
De lá Maria saiu com a caçula em crise, já que ela não aceitava nenhuma opinião diferente (rigidez cognitiva e possível TOD), a gêmea mais velha com diagnóstico de autismo nível 1 de suporte e a outra gêmea encaminhada a avaliação neuropsicológica.
No fim, as três meninas tem o laudo de autismo nível 1 de suporte, a Maria precisa lidar com todos os desafios de ter três jovens entre 18 e 20 anos neurodivergentes e ainda preparar essas meninas para serem independentes.
Será que a tarefa da Maria seria fácil?
Com certeza não porque a jornada de descoberta ainda não acabou.
Quando a caçula fez 19 anos Maria cada vez mais observava que as atitudes da menina eram parecidas com as do pai na mesma idade, quando se conheceram. Só que um homem adulto, crescido na roça, não vê nenhuma necessidade de tratar a mente, e apesar dos episódios de depressão, ausências, serem cada vez mais frequentes, ele resistia a fazer terapia.
Até que Maria deu uma de louca, já não suportando todo aquele ambiente, as dificuldades no relacionamento e deu um ultimato ao marido, que se ele não se tratasse eles iriam se divorciar.
Nesse momento a jornada dele começou e aos 44 anos ele também recebeu o diagnóstico de autismo nível 1 de suporte.
Agora, nesse ambiente, Maria ainda não conseguiu tempo para se analisar. Lidar com 4 pessoas neurodivergentes, cada uma com suas próprias características, suas próprias comorbidades, e que se juntam “contra” ela de vez em quando é muito difícil.
Ela aprendeu a suprimir sua própria necessidade para que possa dar às filhas mais segurança e autonomia, enquanto tenta entender o que realmente é essa neurodivergência, quem sabe um dia a ciência possa explicar tudo isso.
Inspiração
A ilustração da jornada de muitas famílias que só descobrem a neurodivergência na vida adulta. Aqui uma família inteira recebeu o diagnóstico a partir da filha caçula, menos a mãe. O que não significa que ela também não seja, apenas ainda não teve como cuidar de si própria para cuidar da família
Sobre a obra
Crônica da vida real
Sobre o autor
A fotografia faz parte da minha vida desde a infância. Quando conheci o Talentos, vi a oportunidade perfeita para compartilhar essa paixão com mais pessoas.
Sou empregada da CAIXA há 22 anos e comecei no Talentos acompanhando os desenhos das minhas filhas no Desenho Infantil, mas elas cresceram eu me aventurei por novos caminhos, como Conto.
Autor(a): WANIA MARIA DANTAS DA SILVA RAMOS (Wania Ramos)
APCEF/AC
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