A ÚLTIMA VERSÃO

A ÚLTIMA VERSÃO

Amanhã vou morrer.
É curioso como uma frase tão grande cabe em três palavras.
Disseram às seis da tarde, embora eu já soubesse há quinze anos. O carcereiro apareceu diante da grade, esperou que eu levantasse os olhos e confirmou que seria às cinco da manhã.
Não disse “execução”. Disse:
— Amanhã, às cinco.
Como se falasse de um ônibus ou de um horário de treino. Assenti.
É estranho receber a hora exata da própria morte. A vida inteira as pessoas temem morrer porque não sabem quando. Quando finalmente sabem, parece que começam a temer outras coisas.
Eu, por exemplo, estou preocupado com uma rachadura na parede.
Ela começa perto do teto, desce torta alguns palmos e desaparece atrás da cama. Passei três anos observando seu crescimento. Em algum momento, achei que chegaria ao chão antes de mim.
Perdeu.
Minha cela tem uma cama estreita de ferro, um colchão fino, um vaso sanitário a menos de dois metros dela e uma pia que pinga mesmo quando a torneira está fechada. Em intervalos de 15 segundos entre uma gota e outra.
Não há janela propriamente dita. Há um buraco alto, protegido por duas grades, de onde entra uma luz sem paisagem. Às vezes passa um pedaço de céu. Nunca inteiro. Ano passado vi um pássaro, acho que era um pardal.
Há quinze anos tenho recebido o mundo assim: em pedaços.
Uma voz no rádio do corredor. A tosse de alguém duas celas depois. O cheiro do almoço. Uma notícia que o advogado deixa escapar. Uma folha de jornal dobrada. Uma visita. Uma ausência.
Hoje me trouxeram um formulário.
Última refeição. Último pedido.
Essas duas expressões sempre me pareceram de uma gentileza cruel.
Você será morto, mas escolha o acompanhamento.
O Estado pode decidir a hora em que seu coração vai parar, mas tem a delicadeza de perguntar o que deseja comer antes.
Passei algum tempo olhando para o espaço em branco.
Poderia pedir lagosta. Nunca comi.
Poderia escolher um vinho caro e fingir, durante meia hora, que fui uma pessoa importante.
Poderia pedir aquilo que serviram no jantar em que tudo talvez tenha acontecido. Não.
Escrevi: Cuscuz. Feijão-verde. Carne de sol desfiada. Manteiga de garrafa. Um ovo frito. Café forte e muito doce.
O carcereiro leu.
— Só isso?
— Só.
Não contei que minha mãe fazia cuscuz nas manhãs de domingo.
Eu acordava com o cheiro antes mesmo de ouvir a panela. Havia manteiga derretendo por cima e café fervendo numa leiteira amassada. A mesa era pequena. Às vezes faltava carne. Às vezes faltava leite. Nunca me lembro de ter faltado café.
Minha infância cheira a café.
Talvez por isso eu tenha escolhido.
Ou talvez porque amanhã, antes de morrer, eu queira morder alguma coisa que tenha existido antes de tudo dar errado.
No espaço destinado ao último pedido, escrevi:
“Quero ver o amanhecer.”
O carcereiro olhou outra vez.
— Daqui?
— De onde for possível.
— Vou perguntar.
Não sei se vão permitir.
Seria engraçado morrer às cinco sem descobrir se o dia nasceu.
Matei um homem.
Foi isso que decidiram. Eu gostaria de dizer que não matei. Seria mais simples. Assim eu seria igual a todos os que aqui aguardam a sentença: são inocentes.
Poderia atravessar esta última noite com a indignação dos inocentes. Poderia amaldiçoar o juiz, o promotor, os jurados, a polícia, o sistema, Deus. Poderia morrer repetindo que cometeram um erro.
Mas há um problema. Eu não sei. Sei apenas que aquele homem morreu. E sei que havia motivos para que morresse.
Isso talvez tenha sido minha condenação muito antes da sentença.
Não gostava dele. Não vou fingir agora.
Também não vou transformar alguém em santo só porque acabou numa cova.
Há mortos que ganham virtudes depois do enterro. A morte costuma melhorar bastante a reputação das pessoas.
A dele melhorou demais.
No julgamento, ouvi palavras que nunca associaria àquela pessoa.
Generoso. Carismático. Querido. Respeitado.
Quase olhei ao redor para conferir se estávamos falando do mesmo cadáver. Eu conhecia outra versão.
Conhecia a crueldade que aparecia quando as portas fechavam. Conhecia o prazer de humilhar. O hábito de colecionar fraquezas alheias para usá-las depois. Conhecia coisas que foram ditas. Algumas feitas.
Tinha inimigos. Mais de um. Merecia morrer?
Essa é uma pergunta perigosa.
Durante anos respondi que não.
Hoje, faltando poucas horas, talvez eu não tenha mais necessidade de parecer melhor do que sou.
A verdade é que, quando soube da morte, uma parte de mim pensou: finalmente.
Isso não significa que eu tenha matado. Mas também não ajuda.
A casa ficava no alto da serra.
Pequena, afastada, cercada por pedras, mato baixo e um silêncio que à noite parecia crescer. Fomos para lá dois dias antes do incêndio. Disso me lembro. Ou acho que lembro.
A acusação construiu tudo a partir desse ponto. Fui a última pessoa comprovadamente vista com ele. Durante quarenta e oito horas, ninguém mais conseguiu provar que esteve naquela casa. Depois veio o fogo.
Queimou o telhado, os móveis, papéis, roupas.
Queimou qualquer arma que pudesse estar lá.
Ou eliminou a prova de que nunca houve arma alguma.
O corpo foi encontrado entre os restos.
Dois dias depois, eu apareci numa estrada a quilômetros dali. Sem sapatos. Com ferimentos nos pés. Desidratado — não, essa palavra eles usaram no laudo. Eu estava com sede. Isso eu lembro. Atordoado. Lembro da sede mais do que de qualquer outra coisa.
Uma caminhonete parou. Depois polícia. Depois perguntas. Depois quinze anos. Perguntaram onde eu tinha estado. Não sabia.
Perguntaram o que tinha acontecido.
Não sabia.
Perguntaram por que minhas roupas tinham fuligem.
Não sabia.
Perguntaram por que havia sangue seco numa das mangas.
Não sabia.
O sangue não pôde ser identificado.
A defesa repetiu isso dezenas de vezes.
A acusação também.
Para uns, era dúvida.
Para outros, era conveniência.
Nunca encontraram arma.
Nunca encontraram uma testemunha.
Nunca encontraram gravação.
Nunca estabeleceram com certeza como e se ele morreu antes do incêndio.
Mas encontraram a mim.
Às vezes uma pessoa basta quando todas as outras provas viram cinza.
Nos primeiros anos, tentei lembrar.
Fazia disso um trabalho. Fechava os olhos e voltava para a casa. Porta de madeira. Mesa. Duas cadeiras. Garrafas. Um cinzeiro pesado. O vento batendo nas venezianas. Eu reconstruía tudo. Depois destruía.
Porque, toda vez que voltava, alguma coisa mudava.
Na primeira versão, havia uma arma. Pequena. Preta. Eu a via sobre a mesa.
Numa noite, sonhei que segurava a arma.
Na noite seguinte, era ele quem segurava.
Meses depois, a arma desapareceu dos sonhos.
Entrou uma faca.
Uma faca comprida, daquelas de cozinha.
Depois eram duas.
Depois nenhuma.
Em certa versão, havia sangue antes do fogo.
Em outra, não havia sangue algum.
Houve noites em que me lembrei nitidamente de uma taça quebrando contra a parede.
Noutras, bebíamos direto da garrafa.
Vinho tinto.
Ou uísque.
Ou talvez fosse café.
Os sonhos começaram a colonizar minha memória.
Ríamos. Nunca consegui descobrir por quê.
Às vezes havia charutos. Nenhum de nós fumava charuto, pelo menos até onde me lembro.
Houve outra em que havia cinco pessoas na sala.
Reconheci três.
Nenhuma delas admitiu ter estado lá.
Em outro sonho havia tanta gente que a casa parecia uma festa.
Risos. Copos. Fumaça. Música. Depois silêncio. Sempre o silêncio.
E fogo.
O fogo é a única coisa que aparece em todas as versões.
Talvez porque tenha acontecido.
Talvez porque eu tenha visto fotografias demais durante o processo.
Sonhei tantas vezes com aquela noite que agora não consigo distinguir memória de repetição.
Há lembranças que talvez tenham nascido dentro de mim.
Há sonhos que talvez sejam lembranças disfarçadas.
Há depoimentos que li tantas vezes que passaram a ter minha voz.
O promotor descreveu uma discussão.
Sonhei com ela.
Meu advogado falou em terceiro envolvido.
Depois comecei a ver uma sombra perto da porta.
Uma testemunha disse ter ouvido um carro naquela noite.
Durante anos, em meus sonhos, faróis atravessavam a janela.
Talvez nossa memória seja menos um arquivo do que uma casa abandonada.
Quem entra deixa alguma coisa.
Às dez da noite trouxeram minha refeição.
O cuscuz estava frio. Mesmo assim, cheirava certo.
Isso foi suficiente.
Coloquei manteiga por cima e esperei que derretesse. Não derreteu muito. Comi devagar. Feijão-verde. Carne de sol. Ovo. Depois o café.
Perfeito.
Por um instante, estava de novo numa cozinha pequena, ouvindo uma colher bater contra uma xícara.
Foi a coisa mais próxima de casa que tive em quinze anos.
Chorei.
Não muito.
Descobri que até as lágrimas aprendem economia na prisão.
À meia-noite, um padre veio.
Não pedi.
Perguntou se eu queria confessar.
— O quê?
Ele demorou a responder.
— O que pesar.
— Se eu soubesse o que pesa, talvez.
Sentou do outro lado da grade.
Ficamos em silêncio.
Depois perguntou:
— Você se considera culpado?
Ri.
Talvez tenha sido indelicado.
— Padre, amanhã vão me matar justamente porque algumas pessoas responderam isso por mim.
Ele abaixou a cabeça.
— Deus sabe.
— Então pergunte a Ele.
O padre não gostou.
Ou talvez tenha gostado demais.
Levantou.
Antes de ir embora, colocou a mão na grade.
— Ainda há tempo para a verdade.
Essa frase ficou comigo.
Ainda há tempo para a verdade. Olhei a rachadura na parede.
Quinze anos talvez fossem tempo demais.
Às duas da manhã, sonhei acordado. Ou dormi. Não sei. Voltei à casa. Ele estava sentado à mesa. Sem rosto.
Eu disse:
— Amanhã vou morrer.
Ele respondeu:
— Eu também achei que não morreria.
— Fui eu?
Ele sorriu.
Às quatro, ouvi movimento no corredor.
Portas. Chaves. Passos diferentes dos habituais.
A prisão muda de som quando alguém vai morrer.
Ninguém ensina isso. Você aprende.
O carcereiro apareceu às quatro e vinte.
— Conseguiram seu pedido.
Demorei a entender.
— O amanhecer?
Ele assentiu.
— Vão passar pelo pátio externo.
Agradeci.
Foi a primeira coisa pela qual agradeci naquela noite.
Depois ele foi embora.
Restaram quarenta minutos.
Pensei em escrever alguma coisa. Uma carta. Mas para quem?
Minha mãe morreu no sexto ano. Meu pai, antes do julgamento. Não tive filhos.
Ou talvez isso também seja uma espécie de misericórdia.
Peguei o lápis. Escrevi:
“Não sei se fui eu.”
Olhei. Risquei. Escrevi:
“Eu não me lembro.”
Risquei também. Por fim:
“Ele morreu. Eu estava lá. O resto queimou.”
Deixei assim. Talvez seja a única frase verdadeira que ainda possuo.
Às quatro e cinquenta e sete, a chave entrou na fechadura.
O som foi pequeno. Foi isso que mais me espantou.
Quinze anos esperando aquele instante e, no fim, a morte começou com um ruído de metal que poderia ser o de qualquer porta.
Dois carcereiros me esperavam.
— Está na hora.
Levantei. O corredor parecia maior naquela manhã. Talvez porque, pela primeira vez, eu soubesse exatamente onde terminava.
Passei pelas celas fechadas, pelas lâmpadas acesas, pelo cheiro de desinfetante e ferrugem. Ninguém falou comigo.
No fim do corredor, abriram a porta do pátio. Meu último pedido.
O amanhecer. Pararam.
O céu ainda estava escuro, mas uma linha clara começava a nascer atrás do muro. Fiquei olhando. Não era bonito como imaginei. Era apenas o dia começando.
E talvez fosse justamente por isso que fosse bonito. Um pássaro passou sobre nós. Depois outro. Pensei que, dali a alguns minutos, o sol tocaria as coisas como em qualquer manhã: telhados, árvores, estradas, mesas postas para o café.
Tocaria também a serra. Talvez ainda houvesse pedras queimadas onde a casa existira. Talvez não.
— Precisamos ir.
Seguimos. Outra porta. Depois um corredor menor. Depois a sala. Havia gente esperando. Um médico. Dois funcionários. O diretor. Um homem que eu nunca tinha visto. Todos evitavam meus olhos com a delicadeza de quem participa de uma coisa terrível, mas regulamentada.
Mandaram que eu me deitasse. Prenderam meus braços. Pernas. Peito. Perguntaram se estava confortável. Quase ri.
O diretor aproximou-se.
— Você tem direito às últimas palavras.
Durante quinze anos pensei nelas. Já imaginei dizer que era inocente. Imaginei pedir perdão. Imaginei amaldiçoar todos. Imaginei ficar em silêncio. Agora não queria dizer nada.
Fechei os olhos.
Vi a casa. Por um instante apenas. A mesa. O vinho. O fogo ainda inexistente. Nós dois. Ele estava diante de mim. Não conseguia ver seu rosto. Nunca consigo. O diretor esperava.
— Alguma última palavra?
Abri a boca. E ouvi minha voz dizer:
— Não faça isso.
Abri os olhos. Ninguém pareceu entender. Eu também não. O diretor aproximou-se um pouco.
— O quê?
Meu coração acelerou. Aquelas três palavras. Não estavam no processo. Não constavam de depoimento algum. Eu nunca havia sonhado com elas. Mas, assim que as disse, soube.
Não eram minhas últimas palavras. Tinham sido as dele.
Tentei me levantar. As correias me seguraram.
— Esperem.
O diretor olhou para o relógio.
— Eu lembrei.
Ninguém se mexeu.
— Eu lembrei de uma coisa.
Minha voz já não parecia minha.
— O que ele disse.
O diretor fez um gesto para alguém que eu não conseguia ver.
— Esperem!
Senti uma mão tocar meu braço.
A agulha já estava lá.
— Ele disse isso para mim.
Ninguém respondeu. Então veio outra lembrança. Não uma imagem. Uma resposta. Minha resposta. Estava na ponta da língua. Eu sabia que, se conseguisse dizê-la, saberia tudo. Se fui eu. Se não fui. Se havia mais alguém. Se aquilo que passei quinze anos tentando lembrar estava, enfim, voltando.
Abri a boca. O líquido começou a correr. A sala perdeu as bordas. Ainda tentei falar. O diretor inclinou-se para me ouvir. Talvez eu tenha dito. Talvez não. Mas, antes que tudo escurecesse, lembrei exatamente o que respondi naquela noite.
E compreendi por que passei quinze anos tentando esquecer.

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Inspiração

Comecei a rever um filme dos anos 90 que acho fantástico, "Um Sonho de Liberdade". Revendo ele me recordei também de outro, "À espera de um milagre". Me inspirando no tema "pena de morte", arte e culpa e inocência, pensei no mote para escrever o conto.

Sobre a obra

Conto em primeira pessoa, revisitando histórias e projeções, misturando fatos e devaneios, conduzindo a narrativa das últimas horas em uma cela.

Sobre o autor

Escrevo, logo existo.

Autor(a): FAUSTO DE ARAUJO NETO (Fausto de Araújo Neto)

APCEF/RN