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O ROUBO ORIGINAL
O ROUBO ORIGINAL
Eu sou um ladrão. Um engodo. Impostor.
Minhas ideias não são minhas.
Nem mesmo essas linhas acima eu quem fiz. Você não saberá se foi uma IA.
Se eu li num livro. Se achei por aí. Ou se, sem escrúpulos, arranquei da goela de um escritor — sem saber se ele era bom —, se o crime compensa, afinal.
O mundo permite essa dúvida. Nada mais se cria. Tudo já foi inventado e ninguém fará algo melhor do que uma máquina.
E a maldita nem se cansará.
Enquanto meus antepassados embebiam uma caneta à pena tintureira a cada duas letras desenhadas, a infeliz vomita versos, prosas, projetos e ideias. É desleal.
O mundo não é justo, nunca foi.
Pior: ela não sente vergonha.
Não hesita diante de uma frase ruim. Não amassa papel. Não passa quinze minutos olhando para uma palavra como quem encara um cadáver tentando lembrar-lhe o nome. Não abandona um conto pela metade porque descobriu, depois de três páginas, que ele não era tão bom quanto parecia no banho.
Ela simplesmente continua.
Sempre há uma palavra depois da outra.
Talvez seja isso que mais me incomode. Continuar.
Passei a vida acreditando que escrever consistia em escolher palavras. Depois descobri que consistia principalmente em recusá-las.
Esta não.
Essa também não.
Muito bonita.
Muito óbvia.
Muito minha.
Muito dos outros.
E assim fui construindo minha literatura com aquilo que não escrevi. E vivendo nos dias que não vivi.
Uma pilha invisível de frases rejeitadas. De dias não gozados e sonhos acordados.
Talvez exista, em algum lugar, um romance perfeito feito apenas dos parágrafos que os escritores tiveram vergonha de publicar. Gostaria de lê-lo. Ou talvez já tenha lido.
Essa é outra desgraça do nosso tempo: a memória virou uma testemunha pouco confiável. Há alguns meses, encontrei uma frase num caderno antigo.
Reconheci minha letra. Reconheci a tinta azul. Reconheci até a pequena mancha de café no canto da página. A frase dizia:
“Só pertence verdadeiramente a um homem aquilo que ele seria capaz de inventar duas vezes.”
Estava ali, sem aspas.
Achei brilhante. Passei três dias orgulhoso. No quarto, pesquisei. Nada. Passei quinze minutos ainda mais orgulhoso.
Então notei que havia escrito uma palavra errada na busca.
Corrigi.
Ela apareceu.
A frase existia antes de mim.
Ou pelo menos parecia existir.
Não havia autor.
A primeira ocorrência que encontrei estava num jornal digitalizado de 1911, no rodapé de uma página quase ilegível, entre um anúncio de remédio para os nervos e a notícia da morte de um comerciante.
A frase estava lá. Exatamente como no meu caderno. Sem assinatura.
Fechei o computador.
Mesmo que não a tivesse encontrado, isso não significaria que fosse minha.
Eu poderia tê-la ouvido numa mesa de bar. Num filme ruim. Numa aula. Num sonho. Poderia ter sido dita por algum morto cujo nome o mundo esqueceu. Poderia até ter sido produzida por uma máquina e copiada por mim antes mesmo que eu soubesse que máquinas faziam essas coisas.
Passei a desconfiar dos meus próprios pensamentos.
Foi então que comecei a anotá-los imediatamente. Tudo. Uma imagem. Uma lembrança. Um diálogo. Uma palavra que aparecesse sem pedir licença.
Queria registrar o instante exato do nascimento das ideias.
Criar uma espécie de cartório da imaginação. Um diário registrado instantaneamente:
Às 14h32, pensei isto.
Às 17h08, ocorreu-me aquilo.
Às 23h41, uma metáfora apareceu enquanto eu escovava os dentes.
Durante algum tempo funcionou.
Até eu perceber que alguém escrevia no caderno antes de mim.
A primeira vez achei que tivesse esquecido.
Na página seguinte havia uma frase.
Minha letra.
Eu não me lembrava dela. Na outra, um parágrafo inteiro. Depois duas páginas. Minha caligrafia ficava cada vez mais firme à medida que minha memória diminuía. Certa manhã, encontrei escrito:
“NÃO PESQUISE MAIS.”
Sorri.
Pensei que fosse uma brincadeira que eu fizera comigo mesmo.
Ainda penso isso às vezes. É confortável imaginar que certas coisas são brincadeiras. Não pesquisei naquele dia.
Nem no outro. No terceiro, também não. Na quarta noite, abri o caderno pouco antes de dormir. Havia uma nova frase:
“ÀS 19H12, ALGUÉM BATERÁ TRÊS VEZES À PORTA.”
Olhei o relógio.
19h08.
Esperei.
Às 19h12, bateram.
Três vezes.
Não abri.
Fiquei parado no meio da sala, olhando para a porta.
Nada.
Nem mais uma batida.
Voltei ao caderno.
Abaixo da frase havia outra.
Eu teria jurado que não estava ali antes.
“ELE NÃO ABRIRÁ.”
Foi quando entendi que talvez o caderno não estivesse registrando o que acontecia.
Talvez estivesse chegando antes.
Ou pior: talvez as coisas acontecessem porque estavam escritas.
A escrita não é como a respiração, que você simplesmente respira. Ou o pensamento, que vem e vai e não fica. Sempre achei que escrever fosse uma sina. Mas de uns tempos para cá não tenho escrito por vontade própria. Descobri que existe diferença entre sina e ordem.
Há um horário.
Há uma quantidade mínima de páginas.
Há temas que me são entregues.
Há palavras que não posso usar.
No começo eu me recusava. Depois compreendi que recusar também fazia parte do texto. Tudo que faço acaba escrito. Meu silêncio. Minha raiva. Minha tentativa de parar.
Até isto. Principalmente isto.
Você provavelmente imagina um editor. Um chefe. Talvez uma máquina. Seria melhor. Máquinas ao menos não fingem que estão nos dando escolha.
A luz nunca se apaga. Não lembro quando vi uma janela pela última vez. Há uma porta atrás de mim.
Na parte inferior, uma pequena abertura se move três vezes ao dia.
Por ela entram comida, papel e instruções.
Nunca vejo mãos.
Hoje veio apenas uma folha.
Nela estava escrito:
“CONTE A VERDADE.”
Foi por isso que comecei assim.
Eu sou um ladrão. Um engodo. Impostor.
Agora entendo que talvez a confissão também não fosse minha.
Nada é.
Há passos no corredor. Eles param diante da porta sempre que termino uma página. Por isso aprendi a escrever devagar. Um ponto final pode ser uma espécie de sentença.
Há outra coisa.
A pior. Nos últimos dias percebi que as folhas que recebo já vêm numeradas.
Esta é a página 38. Tenho diante de mim a 39. Está em branco, exceto por uma frase no alto:
“CONTE AO LEITOR QUEM ESCREVEU AS OUTRAS.”
Demorei algum tempo para compreender. Olhei para as folhas espalhadas sobre a mesa. Peguei a primeira. Eu sou um ladrão. Um engodo. Impostor.
A segunda.
Minhas ideias não são minhas.
Continuei. Todas estavam ali. Cada palavra. Cada rasura. Até os erros.
As trinta e oito páginas já estavam escritas no verso. Minha letra. Ou uma letra tão parecida com a minha que já não sei se existe diferença.
Ouço a abertura na porta. Uma folha desliza pelo chão. Página 40.
Não quero pegá-la. Não vou pegá-la. Fico olhando. Por alguns segundos, nada acontece.
Então a caneta se move entre meus dedos.
Na página 39, minha mão escreve:
“Ele pegou a folha.”
Não. Desta vez não. Seguro a mão com a outra. Aperto os dedos até doerem. A caneta cai. Sorrio.
Talvez ainda exista alguma coisa minha. Então olho para a página. Há mais uma linha. Eu não a escrevi.
“Ele acreditou que tinha escolhido.”
A abertura da porta permanece aberta. A página 40 me espera no chão. Fico parado. Não vou pegá-la.
Não vou. Não vou. Eu mando em mim.
Abaixo da última frase, surge outra. Devagar. Letra por letra.
“Agora.”
Pego. A folha é fria, mas minha mão queima.
Fecho os olhos antes de ler. Não adianta. Já sei o que está escrito.
Inspiração
Num mundo de cópias, aparências, automações, fakes e impostores, trago a visão da escrita, originalidade e o mundo por vezes ilógico das palavras.
Sobre a obra
Conto. Vou contado e criando, no redemoinho da narrativa e das letras que se sucedem.
Sobre o autor
Escrevo errante, domando palavras e pensamentos que surgem na mente - não são minhas, apenas coletei-as e pus na minha ordem.
Autor(a): FAUSTO DE ARAUJO NETO (Fausto de Araújo Neto)
APCEF/RN