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Gelo ou Neve?

Afinal, é gelo? Ou é neve?

Eu sei que sou daltônico… mas isso geralmente atrapalha mais quando o assunto está entre amarelo, verde e vermelho. Aos 87 anos, com uma das filhas sendo arquiteta e sei lá quantas reformas em casa, era de se esperar que ao menos soubesse diferenciar dois tons de branco em um teto.

Claro, sou do tempo em que você chegava ao balcão da loja de tintas, falava “branco” e o vendedor te entregava o que ele tinha. E você aceitava, pois, afinal, aquilo era o branco que existia. Era assim quando eu e Naná nos casamos e nos mudamos para nosso barracão, lá em Trindade. Era branco do lado de fora e de dentro, na muretinha do portão. Não por beleza, mas porque era mais barato e deixava a casa um pouco mais fresca na época da seca do meu Cerradão velho.

Essa onda de diferenciar branco de gelo só fui conhecer muitos anos depois, quando as meninas já eram adolescentes, ao comprar nosso apartamento em Goiânia. Lendo assim, parece um salto grande do nada, né? Nossa quitandinha, que abrimos na frente da edícula onde morávamos, estava bem localizada – saindo da Estrada dos Romeiros, no rumo da basílica, ficava bem pertinho de onde hoje é a esquina da Raimundo de Aquino com a Manuel Monteiro. Ou seja, estava bem localizada para que pudéssemos levar para Goiânia todas as frutas e verduras que vendíamos ali e também para receber os romeiros que estavam passando por ali rumo à basílica.

E eu e Naná nos completávamos na vida e nos negócios, mas de uma forma pouco usual na época. Ela era, na verdade, quem negociava com cada chácara, pomar, fazendinha, combinava com alguém de ir buscar e levar os produtos para a quitanda – isso até conseguirmos comprar nosso furgãozinho. Enquanto eu cuidava da quitanda, atendia os clientes, deixava tudo nos trinques – principalmente na época da romaria – e cuidava do controle do caderninho onde eu pendurava as vendas dos clientes mais chegados. Nessa época, o fiado não era nem opção, mas sim obrigação para quem quisesse manter a clientela.

E Naná, ou Dona Lucina, como os fornecedores a chamavam, também era a responsável pelas finanças da quitanda e, consequentemente, da casa. O que fazia sentido, já que ela era quem negociava e comprava, enquanto eu era quem vendia, cobrava e cuidava. E, modéstia à parte, sempre fui muito atencioso e contava com uma memória invejável. Atendia cada um dos clientes pelo nome – e os mais íntimos, pelo apelido, e lembrava dos assuntos que havíamos conversado da última vez que nos vimos. Inclusive os romeiros que eu via uma vez por ano.

E olhe para mim agora: estou olhando para o teto há um bom tempo, tentando lembrar se essa cor é gelo ou neve. Desconfio que seja gelo, mas não tenho certeza. Sei que a minha caçula está aqui do meu lado, mas ela deve saber tanto quanto eu sobre isso.

Quando a quitanda virou mercadinho e depois virou supermercado – que era mais “super” no nome do que no tamanho, mas era moda na época –, as crianças já haviam nascido. Cacaia já ia para a escolinha, e Duda, desde cedo, tinha problemas respiratórios na época da seca. Trindade ainda era uma roça grande naquela época. Achamos que o movimento ideal, pensando nas crianças, era rumar para a capital.

Goiânia ainda estava se desenvolvendo, muito distante do que é hoje. Conseguimos uma casa ali na Campininha das Flores, não muito distante de onde era a primeira rodoviária da cidade. Como Campinas era mais antiga que a própria Goiânia, por ali já conseguíamos ter escolas e hospitais por perto, e ficava relativamente fácil para irmos para Trindade todos os dias. Bom, na verdade, Naná ia praticamente todos os dias, enquanto, na maioria das vezes, eu ficava em casa com as crianças. Mas, ainda assim, Naná fazia questão de escolher cada detalhe da nossa nova casa – incluindo, obviamente, a cor do teto. Dá para entender por que, anos depois, elas brigavam tanto para decidir a decoração do apartamento anos mais tarde.

Como eu ficava muito mais em Goiânia, não demorou muito para perceber que a jovem capital tinha uma certa carência de mercados e quitandas como a nossa. Como também me lembrava de cada um dos meus clientes romeiros de Goiânia, não demorou muito para que começássemos a vender por ali e, uns anos depois, já estávamos com nosso mercado ali em Campinas e, depois, em outros pontos da cidade.

Lembro que, na época do apartamento em Goiânia, onde, em tese, eu “aprendi” a diferença entre gelo e neve, nossas filhas já tinham ali entre 16 e 19 anos. Duda estava na fase adolescente-enfurnada-no-quarto, cuidando de suas coisas, ouvindo suas músicas, escrevendo em seu diário e se descobrindo enquanto mulher. Curiosamente, mesmo assim, eu sentia que ela se sentia mais à vontade falando comigo do que com sua mãe. Já Cacaia estava na faculdade de arquitetura, na Federal, e, mesmo estando ainda no primeiro semestre, tomou conta de toda a decoração do nosso apartamento novo. Eu achava admirável o modo como ela tomava a frente das coisas e cuidava de cada detalhe. Sempre via muito da Naná nela e, que ela nunca leia isso, era meu xodó. Talvez por ser a primeira, talvez por ser como a mãe. E, claro, por serem tão parecidas, era sempre tão complicado estar ali no meio das discussões entre elas, e, nesse período da reforma do apartamento, foi algo bastante tenso.

Não posso negar que foi uma fase boa financeiramente. Como transformamos nossa casa na sede administrativa do mercado, decidimos nos mudar para um dos então novos prédios que surgiam no centro da cidade, perto do Jockey Clube. Mesmo antes de nos mudarmos para o Setor Central, recebíamos convites para sermos sócios de lá, mas não chegamos a aceitar, por falta de tempo para frequentar e também porque era uma ostentação grande daquele pessoal durante os finais de semana, que realmente não nos deslumbrava. Mas as meninas, sempre que podiam, entravam de gaiatas com os amigos do colégio. Principalmente Cacaia. E acho que foi ali que ela se interessou por arquitetura e decoração, pois era tudo muito, muito mais suntuoso do que estávamos acostumados a vivenciar até então.

Ali ela deve ter aprendido que havia branco-gelo e branco-neve. E eu aqui, olhando para este teto nessa dúvida. Se Naná estivesse viva, saberia me dizer – além de me dar uma bronca, pois seria a milésima vez que ela me explicaria que um é bom para teto e o outro é melhor para paredes. Eu ouvi Duda dizendo para alguém que Cacaia viria hoje, aproveitando que estava na região para um congresso.

- Oi, Duda. Como ele está?

- Sem reação.

- Doutor, será hoje, então, que desligaremos?

- Só estávamos te aguardando.

Sinto a pequena mão da Dudinha em meus ralos cabelos, um breve abraço de ambas e um suspiro.

Depois de olhar no fundo dos meus olhos, e dizer que eu finalmente poderia descansar, Cacaia olha para cima.

- Mamãe ficaria contrariadíssima se visse este teto pintado de gelo.

Eu sabia.

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Inspiração

A famigerada crise da meia-idade me faz olhar para o que vivi até agora, na ansiedade do que viverei a partir daqui. Mas quando eu chegar aos 80 anos (se chegar até lá), como me lembrarei do que vivi até aqui? Com nostalgia ou com remorso?
Além disso, uma vez pintei o teto de branco. Achei meio escuro. Daí descobri que existe branco gelo e o neve.

Sobre a obra

A obra parte de uma dúvida banal — gelo ou neve? — para construir uma narrativa de memória, afeto, reflexão e despedida. O personagem segue seu fluxo de consciência, com lembranças cotidianas para contextualizar (e desviar) o leitor do presente. O contraste entre o tom leve e o desfecho ressignifica todo o texto e sustenta a revelação final.

Sobre o autor

Desde criança gosto de contar histórias, sejam elas acontecimentos reais ou da minha cabeça, desenhando ou escrevendo. Embora eu ainda desenhe como uma criança, ao menos hoje consigo me aventurar nas crônicas e contos curtos. Nasci em São Paulo, mas já morei no Amazonas, Minas Gerais, Goiás e Brasília, sempre atrás de novas histórias

Autor(a): PHILIP ANDREY DE LIMA E SILVA (Phil Andrey)

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