Talentos Fenae/Apcef

Quinze p’ras seis

Sigo deitado,
De olhos fechados
Com punhos cerrados
Rosnando socorro.

Os lábios selados,
O grito calado
Deixado de lado
O silêncio do esporro.

Já passa das duas
E o medo tatua
Nesta carne nua
O meu desespero.

No suor frio,
No pulso marcado
Reside meu medo
De volta ao passado.

O som do zumbido
Qu’invade o ouvido
Ecoa o lamento
Batidas a duzentos.

Queria que a vida parasse um segundo
Qu’em cima da cama não fosse o meu mundo.

Batalha diária na guerra do medo
A paz não concedo
Ao meu desespero.

Saudades dos tempos em que era criança.
Manhã na varanda,
Rede que balança.

Às tardes na rua, a lata na mão
Meu nome pichava
Nos muros de então.

O muro que agora está na minha mente
E tento quebrá-lo no ranger dos dentes.

Que o atrito destrói
Entre meus lençóis
Eis o medo da morte
Como em Tolstói.

A Deus, o adeus
Aos meus, Prometeu
Meu fígado à mercê
Servido em buffet.

Sabotage aqui foi sagaz:
“A maior dor de um homem
quando percebe que já não tem paz.”

Mas enquanto eu não tiver paz
E ninguém ouvir minha voz
Eu mesmo, inimigo voraz
Eu mesmo, maior algoz.

Enquanto isso, sigo deitado,
De olhos fechados
Queixo travado

Mas já passa das três
São quinze p’ras seis.
Da mente, em meu muro
Socorro murmuro.

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Inspiração

A obra nasceu de um tempo em que o medo passou a habitar o corpo e a noite. Vieram o diagnóstico, o tratamento e a lenta reconstrução. Hoje, com a tempestade já distante, escrevo do outro lado dessa travessia, mas sem esquecer que algumas sombras recuam — nunca desaparecem por inteiro.

Sobre a obra

“Quinze p’ra seis” habita a suspensão. A noite, aqui, não avança: adensa-se. Entre memória, vigília e ruído, o poema se ergue por repetições, fraturas e ecos, como quem tateia no escuro uma saída que talvez não exista. Os versos buscam procurar no escuro uma fresta por onde seguir respirando. O tempo perde a medida; resta apenas seu peso.

Sobre o autor

Desde criança gosto de contar histórias, sejam elas acontecimentos reais ou da minha cabeça, desenhando ou escrevendo. Embora eu ainda desenhe como uma criança, ao menos hoje consigo me aventurar nas crônicas e contos curtos. Nasci em São Paulo, mas já morei no Amazonas, Minas Gerais, Goiás e Brasília, sempre atrás de novas histórias.

Autor(a): PHILIP ANDREY DE LIMA E SILVA (Phil Andrey)

APCEF/GO