- Página inicial
- Detalhe obra
Bolo envenenado
Bolo Envenenado
Eu, Joaquim, era o terceiro de sete irmãos, José e Miguel eram os mais velhos. Já tinha dez anos! Naquela tarde, quase noite, fui ao curral chamar os dois mais velhos que estavam ajudando o pai nuns consertos na porteira. Os três viemos correndo e brincando, deixando o pai que ainda queria terminar o trabalho. Entramos, tomamos banho e fomos para a sala, onde já estavam a mãe e os irmãos menores.
Comíamos pipoca e tomávamos suco enquanto ouvíamos as estórias contadas pela mãe, tinha estória de castelos e dragões, tinha estória de assombração, tinha estória sem pé nem cabeça, mas achávamos todas ótimas, nos divertiam e gostávamos desses momentos em família.
Lá pelas tantas, o pai chegava… Já estávamos dormindo, menos a mãe.
Eu e meus irmãos frequentávamos uma escola que ficava a alguns quilômetros da fazenda, saíamos cedinho para chegar à aula no horário. A mãe nos chamava às cinco e meia da manhã, já com o café e o bolo quentinhos sobre a mesa. Levantávamos, nos vestíamos, lavávamos os rostos, escovávamos os dentes, tomávamos café e saíamos. Era uma farra. Andávamos um pouco, corríamos um tanto, íamos felizes para a escola.
Era uma escola bem simples, todos os alunos ficavam numa mesma sala e as duas professoras iam passando a lição de acordo com a faixa etária de cada grupinho. O recreio era uma delícia, todos juntos no pátio, brincando das mais variadas brincadeiras. Era um lugar de alegria.
E íamos crescendo e a família seguia feliz.
***
Hoje eu já estava completando dezoito anos e havia festa!
Sempre recebíamos visita dos vizinhos e também íamos visitá-los. Em quase todos os finais de semanas, várias famílias se reuniam em uma das fazendas para prosearem, comerem e beberem, se divertirem.
Havia uma senhora de uma das famílias vizinhas de quem eu e meus irmãos mais velhos não gostávamos. Os outros irmãos eram menores e não percebiam nela diferença, mas que havia algo de estranho, isso havia. Parecia que ela sempre estava querendo saber da vida de nossa família, perguntava coisas sobre o pai, sobre a mãe, ficava querendo saber do dia a dia deles e não se satisfazia se disséssemos que não havia nada demais em sua rotina.
Mas como só a víamos vez em quando, não passávamos muito tempo pensando naquela dona...
O tempo diria por que a achávamos estranha…
Ela era uma vizinha que se apaixonou pelo meu pai e, apesar de casada, começou a dar em cima dele. Como ele não lhe desse bola e afirmasse a ela que amava minha mãe, ela se fez amiga da família e, numa manhã em que eu e meus dois irmãos mais velhos estávamos na cidade, ela levou um bolo à nossa casa, todos comeram. Quando chegamos à casa, era uma desolação: nossos pais e nossos irmãos caçulas, a tal vizinha e até as galinhas que comeram do tal bolo estavam mortos. Foi terrível. E desde então vivemos eu e meus irmãos naquela casa numa grande tristeza, mas tivemos que continuar sobrevivendo. Meus irmãos se embriagam para esquecer, mas eu tento me manter sereno e sem vícios.
Em três anos, saímos da roça na tentativa de esquecer tudo aquilo, vendemos tudo e fomos morar na cidade.
***
Já se passaram doze anos desde que Francisca entrou em minha vida... Já estamos casados há quase dez anos e já temos quatro filhas. A vida é dura. Francisca passa dias e noites à máquina de costura. Não me dei bem na cidade, não há trabalho em que me encontre. Pulo de um emprego a outro, passo tempos desempregado.
Meus irmãos, com pouco mais de trinta anos, alcoólatras, se encaminhavam para a morte precoce, não souberam lidar com a tragédia familiar. E eu tinha um pouco de medo de que seguisse o mesmo caminho.
A maldição daquele bolo continuou a cobrar seu preço ao longo dos anos. Miguel, afogado na bebida e com o espírito quebrado, entregou-se totalmente ao vício e acabou tirando a própria vida por enforcamento em uma noite de inverno. Anos depois, o mais velho de nós descobriu um câncer agressivo e devastador; cansado de lutar contra uma vida que já havia lhe tirado tudo, ele preferiu abreviar o sofrimento e também se suicidou, atirando-se nas águas do rio que cortava nossa cidade.
***
Passaram-se mais trinta anos, tivemos mais uma filha e dois filhos e já tínhamos vinte e sete netos com mais um a caminho que nasceria ainda naquele mês de julho.
Hoje eu morri, e é por isso que estou contando essa história do bolo envenenado, que veio à minha cabeça nem sei porquê. Não influenciou minha vida como a de meus irmãos, talvez eu fosse mais forte, talvez apenas mais cuca fresca…
A última frase que ouvi, de Francisca, foi:
- Seu neto que está para nascer terá o teu nome!
***
Inspiração
A origem deste conto está ligada às histórias que minha tia contava na infância. O resgate dessas memórias afetivas da tradição oral familiar funcionou como o principal catalisador para o enredo, servindo de base temática e inspiração estrutural para a composição final da narrativa.
Sobre a obra
Este conto foi meticulosamente arquitetado desde o título e a sinopse até o resumo detalhado cena por cena. O desenvolvimento foi planejado para manter um ritmo envolvente. Cada linha foi desenhada para pavimentar o caminho para um final de alguma forma surpreendente.
Sobre o autor
Longe de mim a audácia de reivindicar o título de artista; vejo-me, na verdade, como um mero arremedo do que a verdadeira arte representa. Movido por uma inquietação constante, permito-me o risco de desbravar as palavras na escrita, de traçar linhas no desenho e de misturar cores na pintura, e, bem mais esporadicamente, ouso praticar a fotografia.
Autor(a): JOAQUIM MARCELINO DE ANDRADE NETO (Lino Andrei)
APCEF/DF