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Namoro, só passado em cartório

Namoro, só passado em cartório






Naquela altura, ele já passara de dois casamentos, umas oito amantes, mais uns quarenta e tantos namoros, uns tantos assim de romances também, e entre encontros casuais, beijos de carnavais, assédios sexuais, e amores platônicos já perdera as contas depois das trezentas e muitas mulheres com quem lembrara de estar. Ela, embora mais modesta, ou recatada, ou discreta, ou outra palavra que lhe caiba, insistia que tivera poucos casos e todos bastantes sérios, como de praxe para toda boa moça deve ser. Mas, pelo que se ouvia e se falava por aí é que aquela boca já beijara mais de mil. Fato é que, após tantos mergulhos em águas rasas ou profundas demais sem chão algum, ninguém estava mais disposto a apostar alto em mais uma relação subtendida.

Era preciso racionalizar a relação. Afinal, dentre tantos certos e errados de uma relação, tantos permitidos e proibidos, quem de fato assinou tais termos passados em cartório?

Do casamento bem já se sabe esses termos. Que para além de algumas palavras e promessas perante suas próprias consciências nada mais é do que um contrato de bens e direitos, presentes e futuros. Mas daquele início de namoro nada ainda se sabia. E quem iria dizer, pré acordado, de seus futuros, senão eles mesmos?

Já passava da década de 20 - dos anos dois mil - e naquele frenesi acelerado da liquidez e da modernidade, toda papelaria, padaria, ou bodega de esquina, já contava com um contrato de namoro em papel timbrado à venda! Os mais simples e concisos continham apenas dez páginas. Já para os pretendentes mais avariados pelas experiências e pelo tempo havia versões bem mais elaboradas. Admirava mesmo é que ainda não tivessem criado um cartório virtual só para cuidar desse tipo de papelada.

Havia no contrato questões de múltiplas escolhas. Havia outras de "sim" e "não", e havia questões em branco para livre e espontânea manifestação e criatividade, nas quais os supostos futuros casais se realizavam e se deleitavam, explanando para bons entendedores todas as suas neuroses e desilusões.

Todas as cláusulas podiam ser negociadas, com exceção de uma:

"Casamento, só se Deus redigir de próprio punho contrato, e, assinado, carimbado, reconhecido firma, e passado em cartório com duas testemunhas dele desconhecidas, seja enviado via e-mail com confirmação de leitura ou A.R."

À exceção disso, o contrato haveria mesmo era de ser dissolvido, e um novo firmado. Claro, caso fosse da vontade de ambos. Não poderia, pois, jamais ser dado em continuidade.

Preencheram tudo juntos. Ponto a ponto. Questão por questão. E tomados pela emoção do novo "grande amor da minha vida" rapidamente sorridentes puseram-se a assinar e rubricar frente e verso todo aquele contrato de "não sairás da linha nunca mais na tua vida". Ele primeiro, óbvio, esperançoso de nunca mais em sua vida ser cerceado sem seu consentimento. Ela por último, enfim começando a desconfiar e caindo-lhe a ficha de que quem perderia mesmo direitos de namoro com aquele contrato seria ela.

E, eis que depois d'ele terminar de assinar a última página, já com lágrimas nos olhos e tomado de emoção, ela lhe tomou aquela caneta, e como se já se lhe passasse toda a sua total incompatibilidade, deu de começar toda a se coçar. Da cabeça aos pés. Dos pés à cabeça. Pelo corpo todo e por onde não pudesse alcançar. Tremeu-se toda, e dali, muito antes de esboçar qualquer rabisco em folha saiu correndo rumo à liberdade para longe de toda e qualquer racionalidade onde ninguém pudesse contar os seus passos, e dos braços dos amores errôneos nunca mais voltou.





































Pedro Wagner Mota Oliveira
01 de abril de 2023
João Pessoa - PB

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Inspiração

No ano de 2023 participei de encontros do Clube do Conto da Paraíba e iniciei a minha produção literária. Na ocasião dessa produção escrevemos sobre o tema "coceira". Imaginei uma mulher a se coçar, e o que poderia lhe causar coceira além do físico: a falta de liberdade!

Sobre a obra

Essa obra é inspirada na modernidade líquida das relações e nas expectativas frustradas devido aos subentendimentos do que é esperado dos namoros. É um convite à reflexão sobre a racionalização das relações e sobre preferir o incerto. É um conto curto, como os prefiro, com início, meio e fim bem definidos, e um tanto inusitados, fugindo do óbvio.

Sobre o autor

Eu sou Pedro Wagner, cidadão de qualquer lugar, com vivências múltiplas, e que enxerga o mundo sobre perspectivas abrangentes. Sou viciado em pensar e gosto de escrever e sugerir contos para amigos também. Cito sempre Milan Kundera como o autor que me fez apaixonar pela literatura e nele me inspiro para escrever os meus próprios contos.

Autor(a): PEDRO WAGNER MOTA OLIVEIRA (Pedro Wagner)

APCEF/PB


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