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Entre fios e nós

Entre fios e nós



Palavras entrecortadas, linhas cruzadas, telefones sem fio. Foi numa daquelas situações raras do início dos anos 2000 que a história deles teve início. O canal 6 da televisão de tubo no qual não havia programação nenhuma captou em sua frequência uma ligação telefônica de linha residencial de uma moça para um rapaz. E alguém que passeasse pela tela com o controle remoto pôde ter a sorte de ouvir tudo aquilo. Para quem ela pretendia inicialmente ligar não se soube até hoje. Dois adolescentes inocentes ansiando desbravar todas as possibilidades. Tudo era excitante e novidade.

Alguém qualquer do outro lado da cidade também ouvia atento e curioso ao que podia surgir daqueles sons e timbres. Eu esperava por sussurros eróticos e outras coisas proibidas. Outro alguém eu não sei em que sintonia romântica estava. Talvez tivesse chamado mais alguém para ouvir junto. Naquele tempo quem quisesse se pôr a par da vida íntima de alguém precisava de um binóculo e muita imaginação. A tela cinza chiava e entre os muitos chiados se ouvia quase que nitidamente aquela conversa despretensiosa de quem dispunha de todo o tempo do mundo. Havia um prazer indescritível em receber uma ligação inesperada nos dias e noites daquela década.

Ela se chamava Dandara e ele Perseu. Deu para entender nas primeiras frases e já se chamaram rapidamente assim pelos nomes depois de algumas poucas palavras. Ele que gostava de chamar aos outros por nomes carinhosos não encontrava nome mais carinhoso que o dela para o substituir. Ela rapidamente se afeiçoou ao rapaz e lhe botou o apelido de "Pepeu". Dandara foi quem ligou a primeira vez e ele atendeu o telefone com sua voz firme, calma, doce e grossa e ela percebeu que havia ligado para a pessoa errada por engano. Ou não. Se desculpou, se demorou alguns longos milésimos de segundo em que a mente devaneou e desligou em seguida. Não o conhecia.

Não tardou e alguns minutos depois ligou novamente para o mesmo número mas já não mais por engano. Precisava ouvir sua voz novamente e também algo mais pois por ela havia se encantado. Queria saber mais sobre o seu dono. Queria saber mais sobre aquele rapaz e toda a ideia que nela ele havia criado. Era noite e dava para ver da varanda o céu, a lua e as estrelas. Era prazeroso ficar ali em pé ouvindo alguém se apaixonando e querendo lhe descobrir. Foi audaciosa. Se interessou. Ligou continuamente por dias e dias seguidos e alimentou a cada dia mais e mais a sua fantasia. Ele que gostou da investida jamais recusou uma ligação e agora ansiava diariamente pelo próximo "O telefone está tocando".

O telefone ficava na sala e às vezes havia familiares e visitas por ali. O fio não era longo e não dava para ir muito longe nem sair do vão. Se esconder também era um tanto vergonhoso e era preferível falar baixinho e dar pequenos risos contidos e fingir não haver tanta timidez. Tentavam se imaginar como seriam no mundo real. Era um namoro situado no elo entre o futuro eminente e um tempo quase antigo onde a inocência preponderava as relações. Era tudo escuro. Se fechassem os olhos pouca diferença faria. Se fossem cegos se amariam. Um presságio das relações que viriam a se desenvolver por um tempo nesse início de século. Afinal, quem sabe qual seria o futuro das relações e as relações do futuro.

Já fazia algumas semanas que se enamoravam e criavam coragem para se encontrar. Perseu já havia topado. Dandara que foi quem sugeriu era mesmo quem ainda resistia. O que podia acontecer daquele encontro se tudo estava tão bom. Marcaram de se encontrar no calçadão da praia às sete horas da noite. Dentre outras roupas ele iria com um boné vermelho, não dava para errar. Ela também deu detalhes de suas roupas mas talvez por primeira impressão preferisse observar de longe e ver se o rapaz lhe agradava. Pode ser que tenha levado uma amiga.

Entre o vaivém de tantas pessoas Perseu olhava para todas as moças e se perguntava se seria aquela ou aquela outra. Ele a esperou sentado num banco por algum tempo e depois por mais algum. Era tempo suficiente para que ela chegasse o visse e decidisse se iria ao seu encontro. Talvez algum atraso. Talvez ela tenha passado na sua frente e lhe deixado encarar e ele não tenha se interessado sem saber se eram as roupas certas. Talvez ele tenha saído antes de ela chegar. Talvez tenham se aguardado de costas um para o outro em algum lugar não tão óbvio. Deviam ter gritado ao longo do passeio público o nome um do outro. Se ela foi e pensa que ele não foi com certeza se magoou e não se saberá jamais ao certo por quem quer que seja o que de fato aconteceu. Apenas cada um com as suas meias verdades.

Fato é que Perseu nunca mais recebeu ligações de Dandara e ele que nunca lhe pediu o seu número de confiante que era também não lhe ligou e nem havia outros meios de ir atrás dela. Só lhe restava esperar por um som ou gritar simultaneamente por todas as ruas. Talvez se jamais tivessem marcado de se encontrar fizessem bodas de namoro telefônico ainda hoje. Aquelas linhas de telefone se cruzaram se entrelaçaram e se partiram. Suas vidas seguiram e não se lhe fizeram qualquer falta e a menos que ela reconheça a sua voz por novo acaso ou novo engano e lhe confesse o acontecido serão para sempre em suas vidas apenas uma lembrança esmaecida pela inexperiência da adolescência.











Pedro Wagner Mota Oliveira
João Pessoa, 09 de junho de 2023

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Inspiração

Em meados de 2023 participei de reuniões do Clube do Conto da Paraíba.

Nessa ocasião escrevemos sobre o tema "telefone sem fio" ou algo parecido.

Recordei-me de uma memória viva e muito marcante da minha adolescência e a qual me refaz crer no fogo ingênuo da paixão.

Sobre a obra

Essa história remonta a uma situação vivida pelo autor quando adolescente aos 13 anos de idade, no ano de 2003.

Uma garota me ligou por engano e passamos a nos comunicar ao longo de meses apenas por ligação sem que nunca tivéssemos nos visto.

Algo como um amor "plat-elef-ônico".

Sobre o autor

Eu sou Pedro Wagner, escritor, músico, massagista, piloto de fuga, dono de bar, e bancário nas horas vagas. Amante da complexidade do mundo e caçador de aventuras inusitadas, gosto de de viajar no mundo das ideias e transcrevê-las para o "papel" de tempos em tempos.

Autor(a): PEDRO WAGNER MOTA OLIVEIRA (Pedro Wagner)

APCEF/PB


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