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O dia em que Fotografei a Minha História

O dia em que Fotografei a Minha História

Fiz um ensaio fotográfico com minha mãe. Ela foi minha modelo.
Depois pensei porque não fiz isso antes.
Participei de uma oficina de fotografia cujo o título era NEGRAS EM FOCO e a tarefa final era uma exposição fotográfica com as fotos de cada aluno. Neste exercício deveríamos retratar mulheres negras e apresentar a sua própria descrição do que é ser uma mulher negra.
Eu havia escolhido uma outra modelo, uma linda menina negra, com todas as características raciais como a pele morena cor de jambo, cabelos encaracolados lindos, e o frescor da infância. Cada raça e etnia tem sua beleza específica.
Mas ao longo da oficina, fui percebendo que a mulher que me gerou, que me deu a vida, que me ensinou a ser gente, e que apesar de todos os conflitos naturais entre mãe e filha, foi forte suficiente para me trazer até onde estou hoje seria a minha melhor modelo.
Uma das partes do exercício me levou a conversar com minha mãe sobre sua origem e sua história para eu entender o que seria ser uma mulher negra para ela. E então voltamos duas gerações, na minha bisavó, a vovó Madalena.
Minha mãe contou que ela nasceu ainda no regime de escravatura, no período da Lei do Ventre Livre, mas na prática não foi liberta ao nascer. Foi vendida aos 10 anos a um senhor de engenho para se tornar sua mulher e foi trazida do Nordeste para o Acre e aqui viveu até o fim de sua vida. Ficou viúva muito jovem o que a levou a casar outras vezes, ficando viúva um total de quatro vezes.
Ela demonstrou um grande orgulho dessa mulher.
Chegou a hora da prova prática: tirar fotografia! Marcamos no domingo a tarde no Horto Florestal. Um parque ecológico muito frequentado da nossa cidade e lá fui eu buscar minha mãe de carro na casa dela.
Primeira graça do dia: minha mãe trouxe uma mala enorme, com várias mudas de roupas e três pares de sapatos, além de alguns acessórios para fazer o ensaio dela. Quase não dava conta de carregar de tão pesado.
Então começamos! Muitos cliques, muitas poses, trocas de roupas e muitas, muitas risadas.
Entre andar pela trilha da natureza, sentar no chão, brincar com bolhas de sabão para dar um efeito nas fotos, encostar nas árvores, sentar em troncos, eu tentava deliberadamente fazê-la rir.
Aí percebi que depois de adulta nunca tinha tido um momento tão precioso com minha mãe. Apesar de estar sempre com ela, fazer chamada de vídeo diariamente, nunca passamos tempo juntas sozinhas assim.
E isso tudo aconteceu durante seu processo de luto por sua própria mãe. Antes saíamos as três juntas, íamos lanchar no shopping, ao mercado, porque eu tenho carro e eu era a motorista delas.
Minha mãe após as fotos nesse dia estava radiante. Disse-me que não lembrava de ter rido tanto, até doer a barriga de tanto rir.
Aí percebi que a gente perde tempo com tanta coisa que não importa. Deixa ser engolido pela rotina, pelo trabalho, pelas crises da vida quando ser feliz por um momento é tão simples quanto tirar uma foto! E o que era um exercício de uma oficina de fotografia tornou-se uma das lembranças mais doces que eu tenho com minha mãe.

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Inspiração

Precisei fazer um exercício da oficina de fotografia e escolhi minha mãe como modelo. Comecei fotografando minha mãe e terminei registrando minha própria origem, minha ancestralidade e uma das lembranças mais preciosas da minha vida.
A felicidade está muito perto, basta nos permitirmos vivê-la.

Sobre a obra

Trata-se de texto autobiográfico, que narra uma experiência real vivida durante a produção de um ensaio fotográfico entre mãe e filha. O texto combina elementos de memória pessoal, história familiar, ancestralidade, identidade racial e reflexão sobre os vínculos afetivos.

Sobre o autor

A fotografia faz parte da minha vida desde a infância. Quando conheci o Talentos, vi a oportunidade perfeita para compartilhar essa paixão com mais pessoas.
Sou empregada da CAIXA há 22 anos e comecei no Talentos acompanhando os desenhos das minhas filhas no Desenho Infantil, mas elas cresceram eu me aventurei por novos caminhos, como Literatura.

Autor(a): WANIA MARIA DANTAS DA SILVA RAMOS (Wania Ramos)

APCEF/AC