Talentos Fenae/Apcef

As ideologias que nunca morrem

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Sobreviver.
Nunca vou me esquecer de um incômodo específico nas eleições de 2018: como eu e meu primo, vou chamá-lo de Rodrigo, criados praticamente pelas mesmas pessoas, vivendo a mesma realidade, acreditávamos em mundos completamente opostos? Me lembro de brigar com meus tios, primos, e até minha mãe sobre os rumos que a política brasileira tomava. Veio a pandemia e não tinha como imaginar o que viria a ser, quando me lembro disso, tenho um arrepio na espinha. Fatos que eu achava que aconteceriam, se concretizaram e outros de que eu tinha certeza nunca se tornaram realidade. Não demorei muito para perceber isso. Mas a questão continuou na minha cabeça. Pensei: não é possível que todas as pessoas que pensam diferente de mim sejam burras, Rodrigo não é. Eu sabia que era óbvio que a socialização dos meios de produção traria um melhor bem-estar social ao mundo. Mas por que isso não era uma certeza universal? Dizer que meu primo era burro não ajudava, ele não era. Eu precisava entender o porquê.
— Parece coerente com tudo aquilo que você me disse antes. E o que você descobriu?
A coerência sempre foi um valor que eu persegui, por mais que eu fosse apenas mais um humano e nem sempre conseguisse mantê-la, era um valor inegociável. Acabei ralando muito na faculdade e vendo desde cedo a incoerência de alguns professores, nunca vou me esquecer daqueles que se diziam a favor do proletariado, mas que davam aulas em horários impossíveis para os trabalhadores serem seus alunos, e meu peito sentia que isso era algo que estava no alcance deles para modificar aquela realidade. Mas isso só ficou claro quando tive aula com uma professora coerente, que facilitava ao máximo a vida dos trabalhadores estudantes, dando sua aula aos sábados. E nas outras cartas, você leu e viu minha relação com o serviço público. Portanto, havia dentro de mim um incômodo com o parafuso que faltava na máquina pública, e não precisa ser nenhum gênio para sentir os resultados da ausência dos serviços públicos.
Meu cérebro funciona encontrando padrões, e as semelhanças entre o que eu e o Rodrigo víamos de errado saltaram aos meus olhos. Criticávamos o sistema do mesmo jeito, só que as soluções pareciam diferentes. Ele dizia que desigualdade não era um problema, mas sim a falta de uma condição material mínima para as pessoas desenvolverem o seu maior potencial. O Estado também era um problema, notei que Rodrigo defendia a abolição do Estado, decretando que imposto é roubo. E naquilo que eu acreditava o Estado também seria abolido. A diferença era a tal da propriedade privada, enquanto em uma sociedade utópica não existiria nenhuma propriedade, na outra, imagina-se que uma classe só não teria mais nenhuma propriedade (somente nós que alugamos, e não compramos mais nada, mas existe ainda a propriedade das Big Techs sobre esses bens). As peças começaram a se encaixar, Rodrigo tinha um ódio tão grande pelos governos de esquerda, que desde pequeno eu não entendia, ele berrava a ineficiência do funcionalismo público para explicar a sua raiva, era quase uma inveja. Quando teve acesso à internet, foi muito rápido, se sentiu especial por estar decifrando a realidade; os conhecimentos que somente Rodrigo e seu grupo seleto tinham da realidade, que explicavam tudo, ou ao menos aquilo que eles achavam ser a realidade, mesmo ainda que isso tudo tenha vindo de alguns parágrafos de textos do Twitter. Assim, ele havia decorado meia dúzia de explicações para o "fracasso" do Brasil.
— Mas ele não via que nos países ricos a maioria da população era pobre?
Hoje pegar essa informação é bem fácil e simples, você pede para uma inteligência artificial e consegue acesso aos números. Se ele tivesse feito essa pesquisa veria que o resultado era que cerca de 13 milhões de famílias do país mais rico do mundo não têm nada, ou patrimônio negativo, são muito mais pobres que ele. Há um ditado que a grama do vizinho é sempre mais verde. Todavia eu arriscaria dizer que isso ainda é uma colonização de nossas mentes, é uma relação de síndrome do vira-lata, de achar que no Brasil nada presta ou funciona, mas que lá fora é o paraíso.
Rodrigo deixou guardado no fundo de seu coração a esperança de que ele pudesse empreender e, em algum momento, ficar rico. Mas toda a sua expertise vinha de anos e mais anos trabalhando mais de 14 horas por dia dirigindo pelo Brasil, faltando condições materiais mínimas para conseguir financiar o seu próprio meio de produção, o caminhão. Hoje eu entendo que para ele seria impossível admitir que era um sonho impossível, por isso, para não encarar essa impossibilidade material, ele depositou em mim a esperança de que um dia eu pudesse ser sócio dele, comprando esse meio de produção — uma vez que eu trabalho no banco e tenho acesso ao crédito de financiamento. E assim, ele continua sobrevivendo e trabalhando, enquanto o seu corpo consegue energia para isso. Mas a vida não é como ele imagina, os créditos não saem magicamente, os juros são um entrave, e há tantos obstáculos que é impossível para mim arriscar-me numa empreitada dessa.
— Sinto muito pelo seu primo. No lugar de onde eu venho, como eu poderia dizer isso de um jeito que você possa me entender? Bem, isso seria uma lavagem cerebral. Quanta incoerência.
A humanidade é de fato confusa e bastante incoerente. Precisarei trazer um outro primo, para deixar as coisas às claras, o Enzo Fernandes, os dois são da mesma família nuclear. Enzo nunca gostou de estudar, mas sempre sonhou em se tornar rico, inclusive conseguiu já comprar os seus próprios Bitcoins; ele não largou a faculdade para empreender, largou o Ensino Médio, começando sua vida como entregador de aplicativos, sem precisar alimentar um passarinho, conseguiu ascender e conquistar outros negócios. É bom contratar pessoas e ensinar, fracassou em alguns empreendimentos — precisamos do fracasso para motivar os outros a não desistirem dos seus sonhos — mas ganhou experiência e algum capital. É importante termos em mente as estatísticas, pois cerca de 50% das empresas fecham nos primeiros cinco anos tanto no Brasil quanto nos EUA. Ele firmava com um restaurante, que atende apenas via Delivery, num bairro nobre de Brasília. Mas, segundo ele, não encontra mão de obra.
— Oxi. Eles não acreditam na lei da oferta e da demanda?
Eles dizem que isso é uma intervenção no mercado, que tudo deve ser livre. Para entender isso eu preciso te contar duas histórias, a primeira é sobre um estudo conduzido por Festinger na década de 1950. Em 1954 uma dona de casa de Chicago (Dorothy Martin) afirmou receber uma mensagem telepática de seres alienígenas do planeta "Clarion". A mensagem dizia que um grande dilúvio inundaria todo o planeta no dia 21 de dezembro de 1954. Leon Festinger viu uma notinha no rodapé de uma página sobre o grupo e pensou: "Que ótima oportunidade para ver o que acontece quando as pessoas forem confrontadas com provas irrefutáveis de que estão erradas" ele sabia que não iria vir nenhuma nave alienígena. Ele infiltrou estudantes no grupo de crentes, que tinha por volta de 25 a 30 pessoas. Alguns deles se reuniram no dia 20 de dezembro na casa da Dorothy, eles esperavam que a meia noite viria a nave, e levaria todos eles embora. Vale destacar, o caso mais famoso, o médico Dr. Armstrong pediu exoneração cinco dias antes da data do suposto dilúvio.
— Que história interessante, e o que eles fizeram quando não houve o dilúvio? Eles perceberam que estavam seguindo uma charlatã?
Engraçado você dizer isso, eu também achei que eles caíram na real. Foi como se eles precisassem provar a todo o custo que eles estavam certos. Dorothy disse ter recebido uma mensagem de Deus, Ele decidiu suspender o dilúvio e salvar o planeta inteiro por causa da luz das pessoas que foram naquela noite. Nos dias seguintes eles não pararam mais. Ligavam para todos os jornais, chamavam repórter na casa, davam entrevistas longas, liberavam fotos, convidavam o público, pois até então era tipo um grupinho secreto, com apenas aquela nota que o Feestinger tinha visto nos classificados do jornal. No último dia foram cantar no jardim e apareceram umas duzentas pessoas. A política interveio, começou a ameaçar internar e prender, eles se espalharam. Dorothy fugiu. Passou pelo Arizona, foi parar no Peru, voltou para os Estados Unidos, mudou de nome e fundou uma nova religião. Seguiu recebendo mensagens dos aliens até morrer em 1992. Sozinhos, eles não sustentam mais a crença, e nisso se baseia a ideia da dissonância cognitiva, quando o humano se depara com algo que lhe causa dor, ou seja, uma evidência irrefutável de que ele estava errado, ele busca apoio no grupo para se reafirmar e não enfrentar a dor de estar errado, criando assim, uma realidade paralela.
— Mensagens alienígenas? Seria cômico se não fosse trágico. E a segunda história?
A segunda história você vai encontrar mais detalhes no meu texto chamado: "Por que todos nós achamos que temos uma solução para o Brasil?" lá eu falo também sobre o efeito Dunning-Kruger, em resumo, é um fenômeno curioso que quando começamos a aprender um assunto, nós achamos que sabemos mais que os especialistas, é como se víssemos um vídeo no Reels do Instagram e já sabemos mais que os médicos especialistas naquele assunto. Então o Enzo que não paga uma única conta em seu lar, o dinheiro do sustento da família vem de um BPC (Benefício de Prestação Continuada) e uma aposentadoria de sua avó, tem a completa certeza que ficará rico por seus próprios méritos. Portanto, qualquer política de distribuição de renda é uma política contra ele, uma vez que o mínimo de conhecimento que ele e o Rodrigo conhecem a cerca de economia e da sociedade, fazem-os duvidar de qualquer especialista e terem a certeza de que eles e as informações que seguem tem a resposta para um mundo melhor.
Infelizmente, durante alguns meses após estudar tal ideologia, eu também cheguei a acreditar nisso. Durante esse meu período de fraqueza, tracei meus planos. Eu iria pegar todos os meus conhecimentos e transformar em um produto, vender para mil fãs e me tornar um milionário. Sim, eles tem uma maneira diferente de seduzir cada um de nós. Fui iludido nisso também. Me envergonho. Eu não pensava sobre as políticas públicas, estava olhando completamente para o meu próprio umbigo. Em minha defesa, era trabalho demais, não sobrava tempo para pensar ou refletir sobre o todo.
E eu me entreguei ao projeto de corpo e alma. Assistia aos cursos, e fazia tudo aquilo que eles diziam para fazer. E eu investi bastante dinheiro nisso, cerca de R$ 98.678,09. Mas nada dava certo, as promessas que me fizeram não se concretizaram. E a cada nova decepção, ou eu encarava que tinha feito escolhas ruins, ou eu dobrava a aposta. Pois sempre vinha uma nova campanha de marketing falando que o problema não era eu, era que eu ainda não tinha encontrado o veículo certo (entenda aqui veículo como mentoria, guro, curso, ferramenta, etc), bastando eu pagar mais R$ 997,00 para ter agora os meus problemas resolvidos. Além disso, se reclamasse, era porque eu não tinha desejado certo, era errado até reclamar, por causa da bendita lei da atração.
— Você acreditava que os efeitos microscópicos das partículas extrapolavam para os corpos? Você não estudou física na escola, não?
Eu sei, olhando hoje, não faz sentido. Todavia, também entendo que essa é uma crença construída, que faz com que eu acreditasse que estava pensando com meu cérebro, quando na verdade, estava reproduzindo uma narrativa construída por grandes marketeiros. Essa crença me fazia me confortar com o "fracasso" do outro, para eu ter a esperança eu meio que precisava aceitar, em algum grau, o mundo tal como ele é.
— Estou começando a entender mais sobre a incoerência humana. Mas se o social confirma as crenças, e mesmo você vivendo na realidade paralela da lei da atração das redes sociais, o que te fez abandonar esse barco?
Em algum momento eu comecei a ver padrões: todas aquelas pessoas que estavam "vencendo" aquela corrida vendiam a esperança de enriquecer. E vi o desenho de uma pirâmide. Além do mais, eu sou uma pessoa que tem dificuldades de construir e manter relações sociais, além de nunca ter aceitado o binarismo das teorias. Para mim, parecia ser muito verdade que você pode ter uma mobilidade social no sistema, trabalhando duro, e com um pouco de sorte. Ao mesmo tempo eu sabia que o ambiente moldava o indivíduo. Eu percebia que em meu próprio comportamento, eu sempre me adaptava a turma, as crenças, e a forma de trabalho. Percebi também que eu sou completamente influenciável. E casado com minha esposa não pude deixar de me influenciar por todas as histórias que ela me contava, principalmente em relação a violência transgeracional.
— O que é violência transgeracional?
O pai do Rodrigo, José, é um senhor que trabalhou muito, começou desde cedo, aos 9 anos, já ajudava a colher e fazer trabalhos na roça. Já meu pai, nasceu em um contexto semelhante, com a mesma idade já vendia balas na beira da rodovia para gerar uma renda extra para a família. Na roça do José não existia nenhuma infraestrutura, a cidade mais próxima ficava há dez horas de canoa. Ambos cresceram com essa força de se tornarem homens dignos, fortes, machos, como dizem por aí. José era um andarilho, procurou oportunidades, ele precisava abrir o caminho, tinha a ânsia de crescer rasgando o seu peito, migrou, havia nascido numa região que durante muitos anos ficou conhecida como: "Corredor da Miséria". Essa era uma região que abrangia o Norte de Goiás (antes da separação e formação do Tocantins, Leste da Bahia, e Sul do Maranhão). A fome quando assola seu estômago te faz mover-se. Já meu pai, acompanhou a família que veio para a Brasília logo, mas muito logo em seu começo. José, chegou mais tarde, e em sua época, pedreiros ganham muito mais dinheiro que empregados de escritório. José, se especializou. Já meu pai, andava 5 quilômetros por dia para estudar, e já aos dezesseis anos trabalhava com a carteira assinada. José não gostava da rigidez de uma empresa, gostava de construir suas próprias casas, vê a arte de sua cabeça se transformar em concreto. Ambos trabalharam mais de 40 anos. Meu pai, por ter sempre trabalhado com a carteira assinada, teve a sorte de se aposentar antes da primeira reforma previdenciária de Lula. Já José, nunca conseguiu completar os 15 anos de contribuição e trabalhou até seu corpo não aguentar mais, e ser aprovado no BPC (Benefício de Prestação Continuada), BPC que sustenta a vida de Enzo. Ambos contribuíram para a sociedade, mas o olhar que meu pai recebia era de vitória, enquanto José era de só mais um. Enquanto meu pai ainda está vivo, José não conseguiu no SUS os exames preventivos necessários para diagnosticar uma doença que matou metade de sua família, e sofreu de internação em internação nos últimos 5 anos de sua vida. Meu coração não deixa de desejar que todos pudessem ter a vida do meu pai e pudesse muito mais que apenas:
Sobreviver.

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Inspiração

Eleições.

Sobre a obra

Reflexões sobre como nós pensamos diferentes, e como nos apegamos as diferenças, mesmo que concordemos com boa parte do que discutimos.

Sobre o autor

Apenas um trabalhador da caixa que gosta de escrever.

Autor(a): GUSTAVO ARANHA DA SILVA SOUTO (Gustavo)

APCEF/DF


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