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Quando Clarice Lispector me disse
— Calma garoto, acredite você não quer viver de escrita.
Se você me perguntasse hoje quando eu quis ser escritor, eu não saberia te dizer. Quando me recordo das referências, posso dizer que sou também um produto geracional que tinha sonhos de riqueza e se admirava com J.K. Roowling autora do Harry Potter. Mas, no Brasil, quantos escritores ou escritoras você conhece assim? Na época eu não sabia nem da existência do Paulo Coelho, nem mesmo dele. Mesmo eu sendo um aspirante a escritor com uma imaginação formidável, ainda assim, era impossível para a minha mente sonhar com um lugar que nenhum outro brasileiro ou brasileira havia pisado.
— Mas sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho. — já dizia o coaching.
Para alguém que constrói narrativas que são verdadeiros sonhos se tornando realidade, de maneira alguma, posso concordar com o coaching. Um sonho grande é muito maior que um pequeno. Sonhar escrever um livro é muito diferente de sonhar em ser o primeiro brasileiro ganhador de um prêmio Nobel de Literatura, por exemplo. Ou será que eu passei a acreditar nisso depois que me tornei um adulto que não realizou os sonhos da infância?
Lembro-me perfeitamente que cogitei e prestei a prova para a Academia da Força Área de Pirassununga/SP, mergulhei na prova, pesquisei nos antigos fóruns do Facebook sobre como era a rotina, tudo. Me lembrava daqueles filmes estadunidenses sobre os militares, sobre o heroísmo, sobre ser homem, olhando para trás parece até comigo, não consigo me ver lá. Você fez uma prova para cursar uma faculdade de piloto que durava cerca de 4 anos. Durante esse período você recebia uma bolsa para se manter, e quando formado, piloto, acende e se torna oficial das forças armadas, com o salário de hoje R$ 10.443,42. Na época, eu era um completo quebrado, esse salário brilhava em meus olhos era tudo o que eu precisava. Prestei a prova, mas a classificação não chegou nem perto, precisava de um nível de inglês que eu estava a quilômetros de distância. Avaliei o que precisamos fazer, muitas vezes, o custo benefício e não, não fiquei estudando até passar, como o coaching mandou.
É engraçado como muitos de nossos sonhos simplesmente escapam por nossos dedos, como se fossem uma água que jamais pudesse ser capturada por nossas mãos. Foi assim, que ainda alimentei durante algum tempo a ideia de tirar a licença privada para me tornar um piloto e quem sabe um dia ter um avião, até descobrir o custo de uma licença ou de um avião.
— Por que você não faz engenharia? Você é tão bom em matemática.
Reescrever uma memória é reviver, é se lembrar que sim, você um dia foi um dos melhores alunos em matemática, e por mais que não use mais essa habilidade, você um dia foi isso. Nós mudamos, mesmo que em nossa própria mente olhemos para nós e achamos que somos o mesmo. Parece que minha mente é a mesma de quando eu tinha doze anos, embora, hoje eu tenha conhecimento que era impossível para a mente daquela época contemplar. Disse tudo isso para dizer que prestei o vestibular para engenharias e não passei.
Doeu.
A essa altura eu não me lembro qual a prova eu reprovei na redação, mas eu dei uma olhada nas provas daquele ano, e vi os temas. Até antes de escrever esse texto, minha lembrança era que o tema da redação foi o mais difícil de todos os PAS, um bicho enorme, um monstro destruiu os meus sonhos. Deixo com você a avaliação do tema:
"O cotidiano, considerada a dualidade vida-morte, pode ser considerado um espaço de criação ou de cópia."
Olhando agora essa lembrança neste momento, não sei se foi mais doloroso ou mais reconfortante saber do tema. Cada ponto que fazemos ou deixamos de fazer modifica todos os outros pontos da nossa história. No ano seguinte, sem aprovação em nenhuma universidade pública continuei a jornada de estudos, embora, mais uma vez, no meio do ano eu não consegui. Foi quando tudo mudou, passei de estudante de vestibular para estudante de concurso.
Estudar para concurso é muito diferente do vestibular. Na época, os cursinhos eram todos presenciais e você se sentia ao lado de adultos. Muitos adultos. São olhares cansados, pessoas vindo de um outro trabalho buscando, talvez, a única forma de ascensão social deste nosso país. Sempre tive facilidade com aprendizado, então, escutava uma vez, seguia, fazia exercícios e diferentemente do vestibular, nos concursos passei.
— Já que você começou a estudar para concurso, por que você não faz Letras? Você gosta tanto de escrever. — Lucas, um de meus melhores amigos me deu esse conselho, que nunca foi esquecer e mudou completamente o rumo da minha história.
Prestei também o vestibular para Letras e consegui o sonho de estudar numa universidade pública. Deixei de estudar para concurso, mas já havia sido aprovado em três concursos de banco, e fiquei na expectativa de ser chamado, que não demorou muito. Algo peculiar quando construo essa lembrança é que passei na colocação de 89, e caso eu tivesse acertado mais duas questões (preenchi errado uma no gabarito) e outra não havia estudado, que era uma questão sobre a missão da Caixa, e vira e mexe eu ainda me esqueço da missão dela. A missão da Caixa Econômica Federal é promover a cidadania e o desenvolvimento sustentável do país, atuando como instituição financeira, agente de políticas públicas e parceira estratégica do Estado brasileiro. Seu principal propósito é transformar a vida e realizar os sonhos de todos os brasileiros. Por minhas contas, se eu tivesse acertado essas duas questões eu teria sido convocado imediatamente e ido para um outro lugar. E também, minha história seria completamente diferente hoje.
Logo, fui chamado e escolhi trabalhar no meu emprego que eu trabalho até o dia de hoje, eu falo mais sobre o que é ser um empregado público federal na crônica 51, "Passar num concurso pode ser a pior coisa que irá te acontecer", em que detalho os meus últimos 13 anos de dedicação ao cargo.
No ano de 2014, creio ter conhecido o concurso que mexeu profundamente comigo. Para os íntimos chamado de CACD (Concurso de Admissão à Carreira Diplomática), achei super interessante, para esse concurso você estuda: português, inglês, geografia, direito, economia, história do brasil, história mundial e política internacional. Se você não é do mundo dos concursos saiba que os outros concursos não tem matérias tão interessantes como essa. Mas ele tinha um problema, precisava saber inglês, espanhol e francês. Tendo três etapas, uma primeira etapa de certo ou errado, com muitas questões (atualmente 240), e uma segunda fase com português e inglês, e finalmente uma terceira com o restante das matérias. E a segunda e terceira fase completamente escritas. Fiquei apaixonado e decidi que queria esse concurso.
Adivinhem? Não consegui nem tentar. Na época que comecei a olhar para esse concurso não existiam muitos materiais online, muito menos um curso de línguas estrangeiras focados no concurso, afinal, o concurso não pede que você seja fluente nos idiomas estrangeiros, mas sim que você consiga ler e escrever, num nível C1? Sim. Mas não falar, e escutar.
Foi um período muito conturbado, em três linhas eu poderia dizer que era impossível para um ser humano normal conseguir conciliar estudos, uma universidade federal, e estudo para um concurso, e ter algum relacionamento. Eu como ser humano normal não consegui, e esse sonho ficou arquivado.
Claro que como todo millennium eu também sonhei com a liberdade da internet. Imagina que coisa incrível, poder trabalhar de casa, de qualquer lugar do mundo, vender na internet, viver do que você realmente ama. E o que eu realmente amava? Literatura. Você também já deve ter ouvido falar nesse sonho do marketing digital, que é nada mais que o sonho enlatado capitalista da fortuna. Ficar rico. Eles enchem isso e colocam isso próximo da nossa cabeça. Eu, frustrado no trabalho, como dizem, CLT, mergulhei fundo nisso. Pensei: vou me tornar rico, farei meu curso. Comprei todos os cursos possíveis, fiz tudo que diziam para fazer. E o resultado? Que resultado o quê. Era óbvio que não daria certo. Olhando para essa história com os olhos de hoje, como eu não pude perceber que aquilo não daria certo? Como? Era uma espécie de pirâmide, sim, o vendedor de curso que vendia como vender um curso, e assim por diante. E como eles faturam milhares de reais, milhares de reais meus também, comprei mentorias, cursos, assinaturas, tudo o que você pode imaginar. E para piorar ainda me culpava por não ter o resultado esperado.
Se você analisar esse negócio friamente, ele é perfeito, você inventa ou traz um método, algo assim. Depois convence as pessoas que elas precisam daquilo, e faz promessas milagrosas, como sair da pobreza, se tornar rico. Fazer 6 em 7, que era uma forte, vender mais de 100 mil reais em sete dias em um lançamento. Ou então, vender todos os dias. Esteja dormindo enquanto o dinheiro cai na conta. E se a pessoa seguir direitinho o método e não ter resultado, não é culpa do método, não é culpa do mercado, a culpa é exclusivamente da pessoa.
Quando estava na escola e comecei a desejar me tornar escritor, eu sonhei secretamente que seria um escritor único, um escritor de movimento literário, eu fundaria a minha própria escola literária. E tantos sonhos são iguais às roupas, parecem não nos caber mais.
— Hoje, quanto mais eu desisto, mais eu me orgulho dos caminhos que escolhi trilhar.
Inspiração
Do incômodo em não conseguir trabalhar apenas com o que se ama.
Sobre a obra
Sobre quais sonhos são realmente nossos?
Sobre o autor
Um trabalhador sonhador.
Autor(a): GUSTAVO ARANHA DA SILVA SOUTO (Gustavo A)
APCEF/DF
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