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O homem Sem Lados

O Homem Sem Lados

A chuva é curiosamente democrática, porém expõe desigualdades: cai sobre todos igualmente, mas o tipo de abrigo que cada um pode utilizar para se proteger varia enormemente. Às seis da tarde de uma terça-feira cinzenta, o teto da parada de ônibus, com tamanho muito menor que o desejado e inútil para o vento que empurra a chuva quase de lado, funciona mais como consolo psicológico. Ali, sob as gotas inclementes, o verniz da civilidade urbana não se dissolve de uma vez, ele vai escorrendo devagar, misturado ao suor e à poeira, enquanto aguardamos o transporte público como quem espera um milagre.
Aguardar a condução é um exercício involuntário de observação sociológica. Naquela noite, espremido entre a calçada molhada e a lateral do ponto de ônibus, eu tentava manter a dignidade da minha mochila quando o silêncio foi quebrado por uma voz ao lado:
— Que demora...
Foi um desabafo solto no ar, um pensamento dito em voz alta por um colega de infortúnio com aquele tom grave de quem não busca exatamente uma conversa, a não ser com seus botões.
Entretanto, outra voz respondeu:
— O problema do brasileiro é que o povo gosta de reclamar de barriga cheia.
A transição foi tão brusca quanto o freio de um ônibus. Olhei para ele com um misto de curiosidade e sobressalto. Era um sujeito na casa dos quarenta anos, vestindo uma camisa polo azul-marinho, calça jeans e uma mochila de marca famosa cruzada no peito. Tinha a postura ereta dos obstinados, aquele tipo de presença física de quem faz questão de demonstrar que não está ali por derrocada, mas por mera passagem temporária. O homem ajeitou as alças da mochila, deu dois passos para a frente, olhou para a avenida como se pudesse acelerar o tráfego pela força do pensamento e continuou, com o olhar de quem vai ministrar uma palestra gratuita para uma plateia necessitada:
— Ficam aí, 'ah, porque o ônibus atrasa', 'ah, porque o transporte é ruim'... Eu não me meto nessas conversas, sabe? Não tenho ideologia, meu amigo. O meu nome é Valdir e meu sobrenome é trabalho. O negócio é acordar cedo e fazer o seu. Se a pessoa trabalhar duro, o resultado vem. O resto é mi-mi-mi de quem quer moleza.
Apresentado a Valdir — um homem que tudo indicava que vendia oito horas diárias de sua força de trabalho em um galpão de logística, possivelmente sem qualquer garantia de hora extra —, passei a escutar sua pregação sobre a eficiência do mercado com a fascinação de quem estuda uma espécie rara. Valdir falava do sistema produtivo com a paixão de quem possui ações na Bolsa de Nova York, completamente imune à ironia de estarmos ambos encharcados sob uma estrutura metálica inútil.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer réplica, a dinâmica da própria calçada resolveu intervir no nosso pequeno seminário.
Uma trabalhadora, carregando duas sacolas pesadas de supermercado após uma jornada de oito horas num caixa de farmácia, tentou se recolher sob a única parte do abrigo que parecia relativamente seca para proteger as compras da chuva. Valdir, no entanto, estava no caminho e não recuou um único centímetro. Manteve as pernas bem abertas, ocupando o espaço de duas pessoas. Para ele, ceder espaço não era um gesto de cortesia ou empatia, era uma concessão não solicitada a quem não havia chegado primeiro para exercer a posse do terreno.
Ajeitando a gola, Valdir decidiu enriquecer nossa conversa com os bastidores de sua própria jornada de mérito:
— Lá na empresa mudaram a supervisão. Colocaram uma mulher no comando do setor. Nada contra, não sou machista. Mas você conhece o esquema, né? A sujeita não entende nada da operação do galpão. Onde já se viu? Uma mulher querendo ensinar homem a carregar caixa. O pessoal comenta... se ela subiu tão rápido de cargo, coisa boa não é. Deve ter algo com o chefe da diretoria, não tem outra explicação. Mulher quando cresce assim do nada em empresa, ou é favorecimento por baixo dos panos ou é cota. Mérito mesmo, de ralar de verdade, a gente sabe como funciona.
Ouvi aquilo em silêncio, pasmo com a facilidade com que o tribunal de Valdir absolvia a própria estagnação e condenava a competência alheia. A teoria do livre mercado de Valdir encontrava um teto tarifário bastante claro quando o talento pertencia a uma mulher: para ele, a posição que ele ocupava era fruto de suor, a dela, um escândalo de alcova.
Ainda no meio do meu espanto, um SUV importado passou em alta velocidade pela faixa da direita, atropelando uma enorme poça. O tsunâmi de água turva e lama lavou a calçada, encharcando a barra da calça da trabalhadora das sacolas e respingando na minha mochila e na do próprio Valdir.
A mulher soltou uma exclamação indignada contra o motorista do carro, que sequer desacelerou. Valdir, limpando calmamente uma gota de lama da manga de sua camisa, interveio no ato para restabelecer a ordem dos fatos:
— Calma, minha senhora! Também não é assim, o motorista não tem culpa! O homem tá no direito dele de rodar com o carro dele, pagou caro por isso. A culpa disso aqui é do Governo, que não tapa os buracos! É a prefeitura que deixa juntar essa água toda. Se os políticos fizessem o papel dele em vez de cobrar imposto e roubar, não tinha poça na pista. O rapaz do carro é tão vítima quanto nós.
Contemplei aquela cena em absoluto estado de choque filosófico. Em menos de cinco segundos, Valdir absolvera a falta de empatia do motorista do veículo de luxo e canalizara sua indignação para a ineficiência estatal, recorrendo à crítica pública para defender o privilégio privado — tudo isso enquanto enxugava a lama do próprio rosto.
Lá embaixo, finalmente despontou o ônibus. Vindo a passos de cágado, o veículo vinha com a suspensão arriada e as janelas embaçadas pelo suor acumulado de dezenas de passageiros.
A porta dianteira abriu com um chiado pneumático que soou como um suspiro de cansaço. Valdir guardou o celular no bolso, ajeitou a mochila com a firmeza de um soldado em embarque militar e, antes de colocar o pé no primeiro degrau da catraca, virou-se para mim com um sorriso pedagógico:
— Pois é, meu caro... O segredo da vida é esse: não se deixar contaminar por essas discussões ideológicas. O negócio é ser neutro, focar no seu e não depender de ninguém.
Valdir acotovelou-se para dentro da lata de metal superlotada, garantiu seu espaço em pé no espaço reservado a PCD e seguiu viagem, profundamente convicto de que era um homem absolutamente livre, consciente e dono do seu próprio destino.

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Inspiração

Da observação do cotidiano, o ponto de ônibus como um microcosmo social. Quis retratar com ironia a figura do cidadão que se diz neutro e sem ideologia, mas reproduz preconceitos e contradições profundas em suas atitudes diárias.

Sobre a obra

É uma crônica pautada na ironia dramática, no contraste de perspectivas e no uso da ambientação (a chuva e a parada de ônibus) como metáfora social. Busquei usar um ritmo ágil nos diálogos e construir os personagens para que as pessoas se identificassem, culminando num desfecho que mostra o abismo entre o discurso e a prática.

Sobre o autor

Leitor apaixonado, desde pequeno lia tudo, de enciclopédias a rótulo de xampu. Tinha predileção pela crônica, de Rubem Braga e Fernando Sabino a Veríssimo. Aprendi a me encantar com a arte de pegar o trivial, o rotineiro e o aparentemente invisível do dia a dia para destrinchar filosoficamente com leveza, humor e empatia.

Autor(a): GUSTAVO BASTOS FERNANDES DA CONCEICAO (Gustavo Bastos)

APCEF/DF


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