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A Geopolítica das Férias e o Latifúndio da Toalha Úmida
A Geopolítica das Férias e o Latifúndio da Toalha Úmida
Há uma contradição fascinante no ritual das férias modernas: gastamos meses de planejamento, uma quantia substancial do orçamento familiar e horas de deslocamento para atingir o supremo estado de repouso, apenas para sermos engolfados por uma rotina de prontidão militar. O indivíduo paga para relaxar, mas passa o dia em estado de alerta máximo, patrulhando os limites da civilidade alheia. O mormaço do resort e o cheiro de protetor solar parecem derreter a etiqueta urbana com a mesma velocidade com que transformam um cidadão pacato num vigilante da ordem social.
Tudo começa na malha de transporte vertical da hospedagem: a fila do elevador.
A engenharia dos hotéis é repleta de lirismo e pouca física. Um adesivo de metal fixado na cabine informa, com solene autoridade, que a lotação máxima é de seis pessoas ou 450 quilogramas. Trata-se de uma estimativa extremamente otimista, que talvez fosse realidade há priscas eras, mas hoje talvez isso se mantenha apenas para uma comitiva de ginastas olímpicos em jejum. Observei com rigor científico que quatro adultos de peso mediano já testam os limites da gravidade, pois, ao entrar o quinto, o sensor do equipamento aciona um alarme estridente, acusando o excesso de massa e paralisando o tráfego. O resultado é a formação de um gargalo crônico no saguão.
É ali que surgem os estrategistas da fila paralela. O furador profissional de elevador não dissimula, não pede licença, nem finge procurar uma informação no mural. Ele simplesmente se aproxima com a naturalidade de quem atende a um chamado divino, posiciona-se lateralmente à porta e, no milissegundo em que a folha de inox desliza, projeta-se para dentro com a agilidade de um felino, deixando a fila oficial estupefata no saguão.
O clímax do transporte vertical, contudo, ocorreu comigo já no elevador. Imagine a situação: você está dentro da cabine, vindo dos andares superiores com o intuito de descer até a garagem no subsolo. A porta se abre no térreo e revela o caos: acaba de desembarcar um ônibus de excursão trazendo várias famílias numerosas e hiperativas, equipada com malas de rodinhas, bolsas térmicas e boias infláveis.
Você tenta avisar, com o braço estendido num gesto de contenção pedagógica: “Está descendo”. O aviso é solenemente ignorado pela matriarca do grupo, que assume o comando das operações com a energia de um general em desembarque anfíbio:
— Vamos, vamos! Entra, entra!
Um dos parentes ensaia uma dúvida honesta diante do espaço visivelmente minúsculo: “Mas será que cabe?”. A mulher, certamente querendo imitar Xerxes ao tentar invadir Esparta pelo desfiladeiro das Termopilas, ou no mínimo, os funcionários do metrô de Tóquio encarregados de empurrar as pessoas para dentro, sentencia: “Cabe sim, vai ter que caber!”.
A física clássica afirma, de forma muito arrogante, que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Mas o ser humano olha para um elevador com capacidade para 6 pessoas, vê 10 para entrar e reflete: “A mecânica quântica está aí para provar que tudo é possível”. Ela talvez ache que se todo mundo vibrar na mesma frequência de desespero, os elétrons vão colapsar e nós vamos finalmente compartilhar o mesmo estado quântico. Infelizmente, a mecânica quântica proíbe esse nível de intimidade e o resultado não é uma fusão molecular poética, é apenas o sovaco de um estranho na altura do seu nariz.
E, enquanto olho estupefato para a iminente invasão, a família começa a se espremer para dentro do recinto num exercício de compactação humana inacreditável. O único ser sensato da comitiva é o pai da mulher — o avô da família —, que permanece do lado de fora, visivelmente sem graça e envergonhado diante da cena, recusando-se a entrar. A filha insiste, aos brados: “Vem, pai! Cabe!”.
Naturalmente, o sensor do elevador não compartilha do entusiasmo da matriarca e dispara o bipe contínuo de carga máxima. Diante daquela ocupação hostil e do concerto de apitos, eu, atônito, decido que a dignidade vale mais do que a preguiça: desembarco do elevador e faço a transição do térreo para a garagem no subsolo pelas escadas de emergência.
Vencida a etapa do transporte, o teatro da convivência migra para o salão do café da manhã.
Por ser uma refeição inclusa na diária, estabelece-se um pacto tácito entre os hóspedes: abastecer o organismo com a fartura de um banquete medieval para adiar o almoço até onde a biologia permitir. Às sete da manhã, o bufê é uma terra de oportunidades. Contudo, para quem chega após as oito, a salada de frutas já se tornou uma lenda urbana, uma lembrança distante transmitida pelos funcionários. Resta aos retardatários a contemplação melancólica de algumas poucas fatias solitárias de mamão e melancia em um balcão quase vazio.
É no setor de hidratação do restaurante que a burocracia do estabelecimento atinge o ápice do absurdo. Próximo ao filtro de água, uma placa implacável proíbe o preenchimento de garrafas de água. O hóspede é obrigado a servir a bebida exclusivamente em copos descartáveis de plástico. Não importa se a intenção do sujeito é encher a garrafa para colocar sobre a própria mesa e consumi-la ali mesmo, durante o café: a garrafa é vista pela gerência como um contrabando térmico, um artefato subversivo que certamente ameaça a economia do frigobar. O cidadão é forçado a fazer seis viagens de ida e volta ao filtro equilibrando copos plásticos como um malabarista.
Já na área das piscinas, a questão territorial ganha contornos de disputa fundiária.
Você adentra a área de lazer e se depara com um espaço completamente deserto de seres humanos, mas cem por cento ocupado. Todas as espreguiçadeiras, cadeiras e mesas estão "reservadas" por objetos estratégicos: uma toalha úmida, um par de chinelos velhos ou um óculos de sol que já viu verões demais. É a especulação imobiliária de resort. Criam-se latifúndios de descanso que permanecem desocupados durante horas, enquanto famílias reais orbitam a piscina procurando um palmo de sombra. Onde está a reforma agrária das espreguiçadeiras quando mais se precisa dela? Resta ao cidadão comum olhar para aquele deserto de toalhas vazias e recordar, com fina ironia, a morte e vida severina: “É a parte que me cabe neste latifúndio”.
Para coroar o descanso, o parque aquático oferece o entretenimento sonoro e hidráulico das crianças que ignoram solenemente a existência do salva-vidas.
Apesar das reprimendas constantes e do apito enérgico do profissional, pequenos projéteis humanos insistem em saltar de fora da piscina diretamente para a água, com preferência quase magnética pelas imediações do bar molhado. A manobra atinge em cheio os adultos acomodados nos banquinhos imersos. É quando nos deparamos com o conceito filosófico mais intrigante das férias: a possibilidade real de se molhar uma bebida. O sujeito está ali, segurando pacificamente seu copo, quando uma bomba de água clorada disparada por uma criança de sete anos aterrissa ao seu lado, diluindo o drink e banhando petiscos, pratos e frequentadores.
Ao final do dia, ensopado por bombas infantis, sem conseguir encher a garrafa d'água, derrotado pela reforma agrária das espreguiçadeiras e após subir cinco andares de escada para fugir do excesso de peso do elevador, o hóspede deita na cama do hotel com a sensação de missão cumprida. Afinal, as férias foram pagas para descansar. E poucas coisas exigem mais esforço do ser humano do que o doloroso exercício de relaxar em comunidade.
Inspiração
A inspiração surgiu das férias, em que fui para Caldas Novas. Observando a dinâmica das pessoas para garantir lugar na piscina e a logística minuciosa de viagem, percebi que aquilo era um verdadeiro tabuleiro de xadrez social. Decidi registrar essa experiência real sob uma lente cômica e hiperbólica e, porque não dizer, filosófica.
Sobre a obra
Utilizei o contraste cômico entre a linguagem solene da geopolítica, diplomacia e estratégia militar e as situações mais banais de férias em família. Busquei o exagero alegórico, um ritmo dinâmico dos diálogos e a precisão dos detalhes da viagem real.
Sobre o autor
Leitor apaixonado, desde pequeno lia tudo, de enciclopédias a rótulo de xampu. Tinha predileção pela crônica, de Rubem Braga e Fernando Sabino a Veríssimo. Aprendi a me encantar com a arte de pegar o trivial, o rotineiro e o aparentemente invisível do dia a dia para destrinchar filosoficamente com leveza, humor e empatia.
Autor(a): GUSTAVO BASTOS FERNANDES DA CONCEICAO (Gustavo Bastos)
APCEF/DF
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