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O Barulho da Chave
O silêncio da nossa casa tem duas cores. Tem o silêncio da tarde, que é amarelo-claro, quando a mamãe está na cozinha fazendo bolo e o rádio toca baixinho. Esse silêncio é bom, dá vontade de brincar de carrinho no tapete.
Mas tem o silêncio da noite. Esse é cinza-escuro. Começa a surgir quando o sol vai embora e mamãe passa a olhar demais para o relógio da parede. Ela não canta mais. O bolo que ela fez perde o cheiro, e ela me manda ir para o quarto mais cedo, mesmo eu não estando com sono.
— Fica no quarto, meu amor. Brinca lá dentro — ela diz, com uma voz que parece que vai quebrar se eu apertar muito.
No meu quarto, eu viro o super-herói mais poderoso do mundo, mas meu superpoder é um pouco diferente: eu consigo ouvir tudo através das paredes. Eu sei exatamente quando a chave gira na fechadura da sala. Não é um giro comum. É um giro pesado, que avisa que o Gigante chegou.
Quando os passos dele entram, o ar da casa fica tão grosso que é difícil de respirar. Eu me encolho debaixo do cobertor, mesmo no calor. Seguro o meu urso de pelúcia com tanta força que acho que vou rasgar a orelha dele. Eu fecho os olhos e peço para o meu superpoder funcionar de verdade. Queria ter uma capa invisível para cobrir mamãe. Queria ter um escudo indestrutível para colocar na frente dela.
Aí começam os barulhos. Não são palavras de conversa. São palavras pontudas, que o Gigante joga na direção dela. Eu não entendo a maioria delas, mas sei que machucam porque, logo depois, vem o som que eu mais odeio no mundo: o choro da mãe. É um choro baixinho, engolido, daqueles que tentam não fazer barulho para não me acordar. Mas eu estou acordado. Eu sempre estou acordado.
Teve um dia que o barulho foi mais forte. Teve som de vidro quebrando e um grito que parecia de bicho machucado. Minhas pernas tremeram tanto que eu não consegui levantar da cama para ir até lá. Eu só consegui chorar sem fazer som, imitando ela. Fiquei pensando se a culpa era minha. Se eu tivesse guardado os brinquedos mais rápido, ou se eu não tivesse pedido aquele caderno novo na escola, talvez o Gigante não estivesse tão bravo.
Na manhã seguinte, o Gigante já foi trabalhar. A casa volta a ficar amarela, mas é um amarelo desbotado. Mamãe está na cozinha, de óculos de sol dentro de casa. Quando eu chego perto, ela sorri e me dá um abraço muito, muito apertado. Ela cheira a sabonete e a medo.
Eu não pergunto do óculos de sol e nem do roxo que aparece bem na bordinha dele quando ela se abaixa. Eu só seguro a mão dela com os meus dedos pequenos. Eu não sou um super-herói de verdade, não tenho capa e nem escudo. Mas, enquanto o Gigante não volta, eu sou o guarda-costas da minha mãe.
Inspiração
Quis trazer o ponto de vista da criança sobre a violência doméstica, que não se limita à agressão física ou psicológica da mulher. Os filhos são vítimas invisíveis desse ciclo de abusos, e o lar, que deveria ser um ambiente de segurança e afeto, transforma-se em um cenário de vigilância e medo constante.
Sobre a obra
Nesta crônica, usei a narrativa em primeira pessoa de uma criança de aproximadamente 6 anos, trazendo metáforas infantis para tentar traduzir os sentimentos causados pela situação de violência contra a mulher no papel de mãe (trauma, medo, culpa, impotência).
Sobre o autor
Sou uma alma inquieta guiada pela curiosidade. Adoro aprender, por isto não consigo escolher uma caixinha só para morar. Escrevo para dar ordem ao caos de tudo o que me encanta no mundo.
Autor(a): GICELI DEMUNER DE SOUZA (Giceli )
APCEF/ES