O cachorro

O CACHORRO

Tudo ia bem até o dia em que ela apareceu em casa com aquele cachorro.
Averso a animais de toda a espécie, a simples visão daquele mastodonte me encheu de horror.
Ao notar a minha expressão, ela sorriu (eu adorava quando ela sorria, e ela sabia disso).
Explicou que estava fazendo um favor muito especial para uma amiga, dessas a quem nada se pode negar: tendo que viajar às pressas para acudir a mãe doente, não tinha onde deixar o animal, e pedira que ficasse com ele por uns dias.
Segundo a amiga, o bicho era dócil e bem educado, não causaria qualquer problema. E, para não me incomodar, ela o prenderia na área de serviço, nos fundos da casa.
Desarmado pela argumentação, engoli meus sentimentos de repulsa e concordei, um pouco ressabiado.
Naquela noite, acordei sobressaltado com o cão uivando horrivelmente, desenterrando todos os meus medos atávicos. Minha mulher dormia placidamente, como se nada ouvisse.
Censurando-me intimamente, decidi tentar dormir de novo - afinal era só um cachorro.
Mas o sono não vinha, e, depois de tentar todas as posições que a cama oferecia, resolvi levantar.
Na cozinha, acendi a luz e dirigi-me à geladeira com aquela fome noturna típica do sono perdido.
Antes que eu resolvesse o que comer, o cachorro começou a ganir lamuriosamente, como se ferido, e um instinto paternal desconhecido me encheu de preocupação com o pobre animal.
Decidi verificar - afinal o coitado poderia estar sem água ou coisa que o valha. E não havia perigo, já que era inofensivo e estava preso à corrente.
Abri a porta e saí, generoso e gentil.
Não vi o cachorro.
Em compensação, atrás de mim a porta bateu, travando por dentro.
Nada para preocupar, pensei - era só chamar minha mulher pela janela da frente da casa.
Saí para o quintal, e o que vi, à luz generosa da lua cheia plena, movimentou todos os meus instintos sanguinários: meus vasos de orquídeas, mantidos numa estufa improvisada com plástico sobre um jirau, estavam no chão, revirados, quebrados, misturando os cacos a talos e flores, numa visão de apocalipse!
Minhas orquídeas! Corri para elas, furioso e indignado, pensando nos mil cuidados com que as tratava!
A meio caminho, topei de frente com ele.
Enorme, assustador...e solto!
Ela não o prendera como tinha prometido!
Sem voz, sem ação, sem dignidade, fiquei paralisado, tomado de pavor.
Por sua vez, ele também parou, a me olhar.
Pela minha cabeça passaram, em desabalada carreira, as alternativas de fuga: a porta, trancada. Correr, nem pensar - tinha ouvido dizer que excita as feras a corrida da presa.
Antes que eu achasse o que fazer, a atitude de observação dele começou a mudar: passou a rosnar, franzindo a pele do focinho e erguendo as orelhas.
A seguir, uns enormes dentes brilhando à luz da lua me foram mostrados, e o rosnar se transformou num latido ameaçador.
Não sei como aconteceu - o instinto de sobrevivência deve ter a mesma origem da força do Superman - em seguida eu estava sobre o único galho da única árvore do quintal, e a fera latindo e pulando para me alcançar.
Como o galho era baixo, tinha que manter as pernas encolhidas para que não as alcançasse, e para piorar a árvore tinha espinhos pelo tronco todo, impedindo que eu achasse uma posição confortável.
Estava frio, e meu pijama, molhado por motivos que me recuso a relatar, colava-se umidamente gelado às minhas pernas.
A noite durou cem anos.
Quando, sol alto, minha mulher abriu a porta e deu comigo encarapitado na árvore, sob a atenta e ameaçadora vigilância do mastim, desabou numa sonora gargalhada que lhe custou conter.
Amarrado o cachorro, desci da árvore, humilhado, ferido, dolorido, encarangado, em magoado silencio.
Troquei de roupa, fiz as malas e pedi o divórcio.
E vim para o Tibete, onde vou ficar meditando entre os monges até esquecer que existem cachorros.
E mulheres.

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Inspiração

Observar como há pessoas que temem exageradamente os cachorros.

Sobre a obra

É um conto simples e sintético, que procura destacar apenas o tema de fundo.

Sobre o autor

Escrevo desde quando aprendi a ler (e isso faz muito tempo). No transcurso da vida escrevi e publiquei em períodicos, coletâneas e livro, poesias, contos e crônicas.Sou membro da Academia Tupaense de Letras, Ciências e Artes (ATLECA),

Autor(a): FLOR AIDA PEREGRINO DA SILVA ()

APCEF/SP