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O VELHO, O MOÇO E O VELHO

O VELHO, O MOÇO E O VELHO


Eram vizinhos, o Velho e o Moço. Não se conheciam. Até que conheciam um ao outro, mas nunca trocaram um cumprimento. Não sabiam, reciprocamente, seus nomes. Cerca de 100 metros separavam suas janelas, o mesmo condomínio, duas torres verticais, ladrilhadas e paralelas.
Em comum, alimentavam, sem saber, que um observava o que se passava no quarto do outro. E nutriam, embora relutassem em admitir, uma inveja velada daquilo que observavam.
Não ouviam nada do que vinha do quarto do outro, mas eram indiscretos ao ponto de observar por mais que alguns segundos. E viam.
Não só se viam, como no íntimo de cada um deles, achavam que sabiam exatamente o que se sucedia na vida de cada um. As estórias são assim.

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O Velho e o Moço

Meu corpo dói. Tudo dói.
Afinal essa carcaça que me carrega, ou sei lá se sou eu que a carrego, reclama da forma que lhe dá na telha: cansaço, artrite, artrose, tosse e agora deu pra dar esquecimento...ora olhe pra mim, logo eu, memória tão boa, sei de cor e salteado a escalação do Escrete Canarinho da Copa de 50, fui esquecer de pagar a conta de luz e vieram me cortar a energia, francamente!
São 90 anos de vida, bem vivida. Não sou ranzinza não senhor. É que às vezes falta paciência mesmo, depois de certa idade não quis mais engolir sapo e falo o que me dá vontade. Devo nada a ninguém...quer dizer, hoje devo, estou inadimplente com a Companhia Energética, esqueci de pagar, não sou sovina, nem liso, ora quem nunca esqueceu?! E nem me peça pra pagar pela internet, não confio. Pago minhas contas em dinheiro, pego uma fila – tenho preferência, atualizo os informes inúteis com o pessoal do caixa e do atendimento e volto pra casa. Mais seguro assim.
Justo nesse dia que faltou (me tiraram, repito!) a luz, é que fiquei mais ainda sem fazer nada. Não que eu seja desocupado, apenas me aposentei. Mas ficar ali, sentado, sozinho na minha cadeira, na escuridão, foi que notei uma presença nunca dantes percebida. No apartamento em frente ao meu. A escuridão do meu lar fazia com que eu, tal qual vaga-lume, procurasse uma fonte de luz, e eis que me deparo com o Moço.
Rapaz bem apessoado e atlético, deve fazer remo. Não sei se disse, mas representei o Rio Grande do Norte nos Jogos Estudantis Nacionais de 45, na Capital Federal, o Rio de Janeiro. Voltando ao Moço, ali estava ele, luz do quarto acesa.
Estava escutando algum som do balacobaco. Eu não estava ouvindo, até porque acho que já estou ficando surdo. A Dolores de vez em quando resmunga: - “Esse velho tá ficando môco!” Môca é ela que não escuta quando eu a chamo! Enfim, quando digo que o Moço estava escutando alguma música é porque vi as luzes do aparelho de som, que reluziam e piscavam a caixa de som de acordo com a sinfonia. O Moço nunca viu uma vitrola de ficha. Melhor do que uma vitrola de ficha só os locais nos quais essas se instalavam. Saudades...
Está lá o Moço no quarto... anda de um lado para o outro, não dança, como se vagasse impaciente. Entrou lá uma bela morena, da cor do café com leite, cabelos longos, lembra uma índia de um filme que se não me falhe a memória... qual o nome daquela atriz? Que fez também aquela novela...deixa pra lá.
A morena parece nervosa. Começam a conversa. Sentam-se um de frente pro outro...ela abriu a bolsa, puxou um envelope, entregou ao Moço. Ele abre devagar...lê atentamente. Atônito.
Olhos de contemplação.
Eles se abraçam e parece que choram. Acho que vi o Moço soluçar. Sem dúvida: a morena estava grávida, o teste deu positivo, o Moço ia ser pai.
Lembrei-me de quando soube que seria pai do meu primogênito. Moema não fez teste de gravidez, nem foi em farmácia. As regras atrasaram, ela ficou com as ancas anchas, deu pra enjoar ao ver abacatada, daí não deu outra, a mãe dela matou a xarada: “Moema, você tá prenha”.
Nessa hora tive vontade de levantar daquela cadeira, descer o elevador, ir à torre vizinha, subir o elevador, tocar a campainha e parabenizar o Moço. Mas não fui, sabia nem o nome dele, e ia pensar que estou gagá, e louco não estou, já disse.
Também não que eu seja o melhor pai do mundo. Tive dois. Mas não moram comigo não. O mais velho disse que o Brasil estava difícil, violento e sem jeito, e o jeito que ele deu foi se mudar pro Canadá de mala e cuia há mais de dez anos. Só vi minha neta, que agora me fugiu o nome, uma única vez. Duvido que ela se lembre do avô! A caçula é vida louca. Mora numa praia perto daqui, mas só a vejo no meu aniversário, mas pelo menos completo ano a cada 12 meses, mas o mais velho não, congela lá no Canadá, mas não vem ver o pai! Já me chamou uma vez, mas também não insistiu muito nem eu tenho pele de urso para morar naquela geleira.
Voltando aquela cena que se esvaía. O Moço abraçava a morena, luz do quarto acesa, tocador embalando aquele encontro... que música seria a sinfonia perfeita pro momento? Eles se beijam e a morena sai de lá repentinamente. O Amor tem pressa. Deve ter ido contar as boas novas para o restante da família.
Saiu a morena e entrou depressa uma senhora. Era a mãe do Moço. Eles se abraçam e agora só ela chora... avó de primeira viagem! Mas muito me admira. O Moço não era nenhum adolescente, e acho é muito bonito, morar com a mãe. Certamente já teve oportunidade de sair de casa, de ser independente, mas preferiu sacrificar ali sua liberdade para acompanhar a mãe, não deixá-la só. Falo sem ressentimento algum, viu? Tudo bem, meus filhos saíram de casa cedo, eu também sai e a mãe deles os criou, mas não é que eu me sinta esquecido ou largado, só estou dizendo que acho bacana por parte do Moço de estar com sua mãe. Olha agora o abraço deles dois, mãe e filho, que agora o filho vai ser pai. Viva o Moço.
Acordo com Dolores me olhando. Já falei dela? Dolores trabalha aqui no apartamento já faz mais de dez anos. O recorde é dela, me aguenta, eu a aguento e temos esse pacto de convivência. Cozinheira de mão cheia, e tem bom coração. Mas não faz meu tipo.
Eu adormeci na cadeira de balanço ontem a noite, sem energia vou fazer o que? Mas tava ali Dolores, estatelada na minha frente, como que se admirasse uma estátua. Emendando um bom dia, já pergunto do meu cuscuz com leite de côco e ovo frito...ela revida de lá dizendo que não posso comer ovo frito todo dia por causa do meu colesterol. Estou pouco me lixando a essa altura do campeonato, de birra, peço dois ovos mexidos e me levanto da cadeira.
Torno a examinar o palco de ontem, o quarto do Moço que até ontem ignorava a existência. Olhando atentamente para lá vejo a decoração ainda jovial daquele ambiente, e próximo da porta, pendurado lá pendia um berimbau. Acho que o Moço mantinha a forma era jogando capoeira. Nunca fui de luta não, meu esporte era o Remo. Não sei se disse, mas representei o Rio Grande do Norte nos Jogos Estudantis Nacionais de 45, na Capital Federal, o Rio de Janeiro.
Debruço-me na janela e vejo o Moço já acordado, ele está feliz. Acho que não dormiu muito, mas o pouco que dormiu deve ter sido fantástico. Eu durmo pouco, acordo cedo e já não sonho.
Quem me dera, só por hoje, ser o Moço.
Então o Moço se encaminha até a janela e também se debruça. Olhar fulminante. Olhar de quem quer falar, mas não diz e cala.

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O Moço e o Velho

Meu corpo dói. Tudo dói.
Mudança de treino na academia traz uma dor intermitente, que me faz descobrir músculos que eu tinha e nem fazia ideia. Na verdade, ainda acho que são os reflexos, ou a falta deles, depois de uma ressaca no fim de semana. Típica segunda-feira.
Não sabia se era a ressaca ou se eu estava vendo espíritos do além, mas quando olho pela janela, vejo um vulto no apartamento em frente, com fundos olhos a me observar. Achei que o imóvel estava fechado, certeza! Nas unidades ao lado percebia as luzes acesas e via as pessoas na sala de jantar, famílias reunidas e televisores sintonizados em um mesmo canal.
Mas naquele apartamento só havia a escuridão, um vulto, curvado, sentado a se balançar numa cadeira e aqueles negros olhos a me fitar.
O alerta de mensagem interrompe aquele assombro. Na verdade, vem outro susto, é uma mensagem de Leila. Nosso namoro é instável, mas nos gostamos. Quer conversar urgente e diz que está chegando em 15 minutos. Putz, começar a semana com uma D.R. (discussão de relacionamento) ninguém merece. OK, fiz cagada e brigamos no fim de semana. Mas precisava vir essa hora aqui em casa? 30 anos na cara e vou ficar de briguinha numa segunda-feira de noite?
Mas não tive escolha, ela avisou que vem e já conheço, não é salutar nem inteligente contrariar Leila.
Pra distrair, ligo o som. Está passando qualquer coisa, mas o que me distrai é o piscar esfuziante e desnecessário das luzes que saem da caixa de som. Não combina com a música que está sintonizada. Vejo o berimbau. Lembrança da nossa última viagem de férias de casal. Fomos a Salvador e na empolgação comprei isso, que agora virou trambolho. Um pedaço de arame, um pedaço de pau e uma cabaça. Decorando e desarmonizando com tudo e não servindo para nada.
Estou um tanto nervoso, o que será que ela quer conversar?
Ela já conhece o porteiro então ninguém mais avisa que ela vai subir, também tem a chave da casa de mamãe e só percebo que ela chegou quando ela bate à minha porta. Do nada, me gela a espinha.
Me pede pra sentar...pô, desembucha!
Leila é linda. Dei sorte. Nessa hora não escuto nada, tentando adivinhar aonde ela quer chegar.
Entrega um envelope e segue despejando as palavras, a voz está trêmula e acelerada. Abro. Um papel elegante, com um brasão vermelho decorado com leões, embaixo dele escrito: “University of Cambridge” (Universidade de Cambridge).
- Leila, que porra é isso?!
Daí então ele me explicou que estava fazendo testes admissionais, mas achava que não ia passar, por isso não tinha me falado nada, mas finalmente obteve sucesso no plano e foi aceita para estudar na tradicionalíssima e secular instituição.
Disse que sentia muito, que gostava de mim, mas que estava decidida, que iria topar e viajaria ainda no fim do mês para as terras da Rainha.
Onde eu fico nisso tudo? Eu fico por aqui.
Ela saiu em disparada, estava arrasada. Eu segurei a onda né?! Ela que pulou do barco, não eu.
Mas nisso entra minha mãe no quarto, muito aflita, porque tinha escutado tudo e cai no choro. Daí confesso, a mãe chorou, quem não chorar é quem não tem coração. E coração eu tenho, ou o que sobrou dele, ainda despedaçado. Ah, Leila... você ainda vai se arrepender.
Fico só no quarto, a imagem de Leila saindo por aquela porta, o fim do namoro, a despedida para nunca mais, a bandeira da Inglaterra e a cadeira de balanço com o Velho estático me tira qualquer pitada de sono. A insônia me abraça, apresentando o raiar do dia sem que tenha pregado os olhos.
Aproximo-me da janela e lá vejo o Velho. Ele dorme feliz. Chegar à velhice como aquele Velho deve trazer ao sujeito aquele gostoso sentimento de missão cumprida. Era ali Senhor de um vistoso apartamento de mais de 100 metros quadrados. O tapete persa, os quadros, a escrivaninha de mogno e a TV 60” denotavam que ali dormia um homem de sucesso, que havia vencido na vida.
Mas isso não é tudo, vejo suas pantufas, calçado de quem não tem pressa e que não precisa mais correr.
Estou com 30 anos, moro com minha mãe, até morei com uns colegas da faculdade numa quitinete, mas era muita ralação e voltei. Mas minha mãe quem pediu, melhor pra nós dois. A faculdade, não terminei, comecei duas, tranquei, mas ano que vem eu volto.
O que mais me chamou atenção não foi o luxo daquele apartamento, nem a altivez do Velho em seu hobby de seda. Era de admirar a quantidade de porta-retratos espalhados pelas bancadas e mesas. Lá deveriam estampar as fotos da esposa, filhos, netos, viagens e momentos outros inesquecíveis.
E lá estava eu, guardando a única foto que revelei minha e de Leila... duvido agora que um dia vou chegar onde o Velho chegou. Estou destroçado.
Eis que entra na sala a esposa do Velho. Uma senhora distinta, que pára em frente à cadeira de balanço.
Olhos de contemplação.
Em cinco anos de namoro Leila nunca me olhou assim, nem quando eu estava acordado. E ali está a esposa do Velho, zelando o sono dele.
O velho acordou. Trocam olhares e conversam. Ele deve ser bem humorado, pois a esposa gargalhou e saiu rindo. O Velho se levanta e vem até a janela.
Quem me dera, só por hoje, ser o Velho.
O Velho está lá na janela. Aproximo-me da minha e também me debruço nela. Olhar fulminante. Olhar de quem quer falar, mas não diz e cala.

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Então, o Velho viu o Moço e o Moço viu o Velho. Talvez fossem um só. Na verdade, eles percebiam o reflexo que não existia, pois entre as frestas indiscretas de uma janela sempre pode haver um espelho que só nos vai refletir.

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Inspiração

Havia me mudado para um prédio antigo. Chego em casa do trabalho e olho pela janela, vejo um senhor grisalho jantando, no apartamento do prédio logo em frente ao meu. Daí surgiu a ideia do conto... devaneios sobre a vida daquele homem, sobre o que estava no prato e como seria a vida dela, e também o que ele pensaria sobre o novo vizinho.

Sobre a obra

Escrever "O Velho, o Moço e o Velho" foi um barato. Demorei 5 anos. A primeira parte rascunhei em 2012. Todo o restante fiz de impulso numa madrugada esse mês. Conta uma ou duas estórias sob pontos de vista de pessoas bem distintas, vizinhos que não se conhecem mas muito sabem da vida do outro, desde o instante que faltou luz na casa do Velho.

Sobre o autor

Escrever para mim é um prazer, não é regra. O único método aplicado é o da "tentativa e erro". Conto narrativas que gosto de ouvir.

Autor(a): FAUSTO DE ARAUJO NETO ()

APCEF/RN

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