Tinha a mania de querer um futuro melhor.

Porque amasse a vida, e não visse significado no futuro a não ser trazer dias melhores do que o presente, resolveu marcar o tempo colecionando tiques.
E como que a garantir que o tempo lhe fosse bastante bom, passou a associar a cada tique uma atitude positiva.
Toda vez que piscava o olho direito três vezes, procurava dirigir o olhar a uma moça triste, e cordialmente lançava-lhe um gracejo ou elogio, fazendo-a sorrir.
Quando parava na esquina com os dedos entrelaçados, girando os inquietos polegares a espera do sinal verde para pedestres, logo oferecia o braço a uma senhora de idade avançada, a fim de conduzir-lhe a travessia com segurança.
Se tinha ímpetos de conferir doze vezes a tranca da porta da rua ao sair, trazia sempre nos bolsos algumas guloseimas a dar aos meninos que o espiavam curiosos da calçada.
Preocupados com suas manias, amigos aconselharam que consultasse um médico especialista em T.O.C.
Gentilmente declinou, queria ficar com os tiques, e com eles praticar boas ações e criar futuros cada vez melhores para si e seus semelhantes.
O certo é que mal aquilo não fazia.
Fato é que seus vigilantes amigos notavam-no sempre saudável e feliz, contagiando até as figuras mais rabugentas ao pagar-lhes o engraxate, enquanto lhe tremiam incontroláveis as espessas sobrancelhas.
Tinha mesmo a impressão da aprovação do Universo, pois mal se espreguiçava a cada manhã e lá vinham mais tiques para a coleção!
O pãozinho comprado teimosamente a mais sobrava sempre, e era servido às migalhas aos pássaros no peitoril da janela.
O dinheiro extra, ganho pelo esmero no asseio do uniforme branco na oficina, era revertido em donativos para a igreja.
Os finais de semana de maníaca faxina garantiam roupas quase novas ao asilo, toda segunda-feira par.
Porém, com o passar dos anos, começou a sentir-se triste.
Parecia-lhe que os tiques não eram suficientes, precisava ter mais momentos, dobrar o tempo futuro, ajudar mil mais pessoas, viver mais, fazer melhor!
E foi então que o próprio tempo lhe soprou a solução.
Sentado em sua poltrona, pensando em como bisar minutos, mirou o cuco na parede, e súbito veio: “- Eureca!”
Recostou-se na almofada como a gozar o lampejo, pitou seu longo cachimbo e brindou o seu porvir.
Viveria enfim bem mais, faria o bem a granel!
Ouviu satisfeito o relógio, sorriu, confirmando a decisão.
Além de amontoar tiques, passaria a contar os tac.

Compartilhe essa obra

Inspiração

Enxergar no tempo mais do que um limite, senão uma oportunidade de dividir com o próximo nossas virtudes e o saneamento dos nossos defeitos.
Um olhar pela autoaceitação em rol da solidariedade.

Sobre a obra

Ciente das minhas manias e regras, não posso deixar que me tornem feitor aos outros.
Converter meu senso crítico em bondade me pareceu libertador, melhorou minha vida e fez nascer esse conto autobiográfico.

Sobre o autor

Sou biólogo, contador de histórias e Agente de Transformação na GIPES CP, e sempre busco exercitar a apreciação do belo e da excelência da natureza, seja nas paisagens afora ou no íntimo das pessoas.
Celebrando a vida, sigamos juntos rumo a novas estações.

Autor(a): CLAUDIO JOSE JUNIOR ()

APCEF/SP