Talentos

O Computador

Algumas pessoas debatiam teorias da mais alta filosofia. Queriam alcançar: a correta definição de corrupção, a questão do amor e o sentido da existência humana. Mas, como diria Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra.”, e apesar das divergências as modulações permaneciam fixas. O casarão ficava no Setor de Mansões de Sobradinho II, numa rua com poucas casas, naquela noite não havia transeuntes. A chuva era intensa, estava frio, a energia acabara algumas horas antes, apenas algumas velas junto aos relâmpagos iluminavam o ambiente.
Um, dos cinco amigos, era importante, justamente aquele que cochilava. Acordava, vez ou outra, quando os trovões rompiam a harmonia do diálogo. Sentia-se casmurro, quarenta, ou cinquenta, anos? Realmente não fazia diferença, passara da idade daquele tipo de reunião social. Mas ele não era querido, era tolerado! Apenas por sua excelente eloquência, tornou muito bem quisto.
Gostava de dizer não ter lado, apreciava conhecer o máximo de teorias possíveis, acreditava que cada conjectura seria o complemento de outra, uma vez que a verdade absoluta não existiria. Portanto, não dialogava com os apaixonados, via a paixão como parte de um todo maior, dividir para conquistar, só por meio dela se fragmentavam. Enquanto o povo se esgotava discutindo sobre comprar “mortadela” ou “coxinha” o dono da padaria lucrava. Repetiu essas palavras naquela noite. Não obstante, um dos presentes apresentou uma nova argumentação desafiando-o.
- Acho que o senhor tem razão. - limitou-se a dizer, voltou a dormir.
Quando o sino da meia noite tocou Vincent despertou de vez. Os amigos discutiam aprazivelmente acerca do buraco existencial que cada ser humano costuma ter. Quando perguntaram sua hipótese, queriam muito saber o que ele pressupunha sobre aquilo. Não sabiam que ele tomaria a palavra durante quase toda uma hora.
- Nem hipótese. Nem palpite. Caso queiram eu dou a cada um o meu parecer a respeito da questão, mas exijo não ser interrompido. Nem dias, semanas ou meses, passei a minha vida inteira pensando nisso. Portanto o meu parecer é aquilo que mais se aproxima da verdade. Caso não aceitem eu me retiro e vou dormir, entretanto se consentirem as condições e tentarem me refutar, sairei por aquela porta e nunca mais colocarei os pés nesta casa. - todos se calaram, estavam atentos e curiosos. - Em primeiro lugar, todas as pessoas são formadas pelo consciente e pelo inconsciente. Mas isso não vem de Sigmound Freud.
- Não vem?
- Não! A psicologia tem suas raízes na filosofia. Voltemos aos gregos. Platão defendia a existência de dois mundos: o mortal e o imortal, este vinculado a alma, enquanto aquele amarrado ao corpo. Renè Descartes aprofunda essa teoria da alma humana, sendo o primeiro a descrever em detalhes a existência dela. Soren Kierkegaard especulava a existência de dois eu’s, o verdadeiro e o desejado. Machado de Assis contou sobre duas almas a que vem de dentro para fora e aquela de fora para dentro. Francis Galton disse que existiam dois elementos: a natureza biológica e o ambiente externo. Portanto, essa ideia de que a humanidade é formada por dois elementos não possuí nada de novo, Freud foi apenas o primeiro a atribuir novos nomes a velhos conceitos.
- Mas e o pré-consciente?
- NÃO! Eu disse que não queria ser contestado! - Vincent respirou, tomou um pouco de água e prosseguiu: Então, em todas as teorias que apresentei há um terceiro elemento: o poder da escolha. Sigmound Freud dizia que nós somos a junção desses três elementos de personalidade. O consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Comprova-se esse raciocínio com aqueles meninos encontrados com uma alcateia, batizados de meninos lobos, neles não há humanidade…
- Perdão, onde os acharam?
- Recentemente, um na Rússia. Ele foi deixado na floresta e adquiriu os hábitos da alcateia. Ficava preso, no convívio com outras pessoas, pois não conseguiram desenvolver a humanidade morta que havia nele. Quando fugiu foi caçado como um animal, seus dentes eram afiados, conseguiria facilmente dilacerar um homem. Dessa maneira, o seu inconsciente recebe influência externa e forma a humanidade a partir das interações entre duas pessoas, pois o que melhor representa a humanidade é a capacidade da linguagem. Ela molda o nosso modo de pensar, desconfio que ele ao conviver com os lobos não era capaz de pensar, ou seja, existir. Assim, o externo engoliu a humanidade do menino. Somos a junção dessas esferas, pois quando se perde o equilíbrio, aborta-se a humanidade. Existe uma força que vem do externo, batizou-se de SUPEREGO, outra, muito oculta, relativa aos conceitos biológicos do ser, chamada de ID, e o poder da escolha o EGO, que na maior parte do tempo é guiada pelo SUPEREGO. Assim, quando estamos em sociedade desenvolvemos a capacidade de pensar por meio da linguagem. Mas, ainda assim, o EGO não se mantém único durante a vida.
- Como assim?
- Ele se transforma. Ele também pode ser vários, sem ao menos conhecer os outros EGO’s. Como o caso que vou contar a vocês, aconteceu quando eu tinha vinte e cinco anos.
Os outros se calaram, arregalaram os olhos, como estavam curiosos! Queriam muito saber um pouco da vida de Vincent, sabiam apenas que era casado, não tinha filhos, era muito pobre, venceu na vida e tinha uma arma. O que ele havia feito? Como era esse tal EGO?
- Não é nenhuma novidade que sempre fui muito pobre, muito menos que gosto de livros. Graças ao Getúlio Vargas, que instituiu os concursos públicos, isso pôde se tornar uma qualidade: havia sido nomeado para o meu primeiro cargo público, passara entre os primeiros lugares: “Oficial de Justiça do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios”. Toda minha família ficou muito orgulhosa. Imaginem, não só o primeiro a se formar, mas também o primeiro a se tornar um doutor. Mas, alguns sentiram inveja, olhavam-me virando o rosto, não me deixei abater por isso. Por outro lado, os verdadeiros amigos sentiram felicidade: pura e sincera, até vaquinha fizeram e me presentearam com um terno.
“O primeiro mês de trabalho. O tribunal ficava em Brazlândia, eu morava em Santo Antônio do Descoberto, por sorte, minha madrinha ofereceu-me um quartinho na sua casa na cidade. Não tenho do que reclamar, ela me tratava como um príncipe, chamava-me de “doutor”. No início não me agradava, gostava do meu nome: Vincent, forte e potente. Mas com o passar do tempo, não só acostumei como passei a apreciar. Os filhos de madrinha também me tratavam assim, ela os educara muito bem. Na casa a mobília era simples, de chique, apenas um computador Pentium I, Windows 95, vindo diretamente do exterior. Naquela época não era igual hoje, em que todos tem um celular, era algo de outro mundo, eu mesmo nunca havia acessado um micro. Madrinha, que me achava tão inteligente, deixou o computador no meu quarto e dizia: “use para pesquisar e mudar o mundo”.
- E você usou?
- Não a princípio. Em três semanas de convívio, amigos, podem imaginar o que aconteceu, já não admitia mais ser chamado de Vincent, agora era apenas “seu doutor”. Quando eu entregava intimações, olhava-os de cima a baixo. O ID aos poucos ia eliminando o SUPEREGO. Até a empregada doméstica chamava-se de “seu doutor”. Como eu gostava de sentir seus olhares de admiração. Deus no Céu e eu na Terra. Era como se eu tivesse nascido naquele momento, não queria ter de volta aquela não-vida de antes. Até que…
- O que aconteceu?
- O esposo da irmã mais velha de madrinha estava doente, ele descobrira que estava com câncer e o médico não havia lhe dado mais que alguns dias de vida. Ela deveria partir imediatamente para dar apoio à irmã. Se não fosse o serviço iria com ela, mas havia ainda duas intimações a entregar… Ela foi compreensiva, pediu apenas para cuidar da casa, e disse a empregada para cuidar de mim, voltaria dentro de alguns dias.
- E a empregada era bonita?
- Não me lembro, pois ela estava sempre uniformizada, quase não a via. Ela me tratava de maneira muito aconchegante, fiquei muito feliz com isso, no primeiro dia nem senti falta da madrinha. Mas vocês não sabem o que a macabra empregadinha estava planejando…
- Tentou te matar?
- Não! Muito pior, ela fugiu levando a TV, justamente quando eu havia acabado de entregar as intimações! Quando cheguei a casa. Silêncio. Nem o som das cigarras. Retirei o terno, fui ao quarto dela e apenas um bilhete: “Levei a TV como compensação pelos três meses de salário atrasados”.
- Terrível.
- Comecei a viver um dilema, avisar ou não a madrinha? Ah! Maldita empregadinha, e eu havia confiado nela. Poxa, a madrinha estava vivendo um momento péssimo com a irmã, não queria fazê-la sofrer ainda mais, afinal, sempre foi tão zelosa comigo. Mas ela deveria saber. Entretanto, tentei ligar em vão.
“Uma vida inteira e nunca havia tido a oportunidade de ficar sozinho. Já experimentaram? Andei nu. Pulei. Gritei. Masturbei-me. Banhei. Masturbei-me. Cochilei. Nem ao menos uma tarde havia se passado. Desesperei-me.
Tédio.
- Você não comia?
- E como comia. A empregadinha pensara em mim, deixava algumas marmitas no congelador, havia suprimentos para meio mês. Mas o tempo não passara. Faxinava a casa. Tédio. Lavei as roupas. Tédio. Reorganizei os móveis. Tédio. Masturbei-me de novo. Tédio. Até que ao acordar no segundo dia de solidão, notei o computador…
- Ele possuía aquela tela transparente de proteção?
- Sim! Ele era todo branco, potente, e como um ser vivo me encarava, até então nunca ousei ligá-lo. Ele deveria valer um ano do meu trabalho, era melhor não. O medo arrolava-me. Tentei reestabelecer minha rotina. Tédio. Tentei caminhar pela cidade. Tédio. Tédio. Tédio.
Tédio.
- Vocês não imaginam o que eu fiz.
- Diga logo homem.
- Liguei a máquina. Ele rompeu o silêncio devastador. O iniciar da tela lembrou-me do filme “Matrix”, senti medo e desliguei da tomada.
- Não, você não fez isso. - disseram todos em meio a risos.
- Fiz. Pobre moço da favela não sabia que a pior coisa que poderia ter feito era aquela de desligar o micro da tomada. Vocês devem imaginar o que senti.
- Tédio!
- As horas se arrastavam como a fila de um banco. Sozinho, parecia que a cidade estava abandonada. Nem por engano o telefone tocava. Sem rádio, televisão, humanos. Tédio. Tédio. Tédio. Dormi de novo.
- Acordei. No terceiro dia resolvi religar a máquina e para minha total surpresa: dizia que o computador havia sido encerrado incorretamente, aperte “ENTER” para prosseguir. Corri. A ideia era fugir e nunca mais aparecer ali, assim a madrinha não me cobraria. Mas, à medida que avançava o cansaço e a curiosidade só aumentavam. Voltei à máquina e vocês não imaginam a minha surpresa.
- Diga.
- Estava funcionando normalmente. No começo não sabia muito bem o que mexer, fui mexendo. Lembrei-me de um amigo do serviço que falava que a internet era a única máquina que não poderia ser desligada. Existia uma coisa na tela chamada de Internet. Liguei para o meu amigo, passamos horas conversando, ele fez por mim o que eu poderia chamar de aula inaugural da informática.
- No quarto dia já sabia frequentar salas de bate-papo, usar WebCam, mas, assim que a novidade da máquina passou. Tédio. Ligava a WebCam e não conseguia enxergar a minha imagem. Olhava e nada na tela, tudo em branco. Aquilo foi me dando nos nervos. Tédio. Passava horas e horas na frente da máquina tentando ver o meu retrato no bate-papo. Nada. Tédio. Quis quebrar a maquina, mas Tédio. Parava parar comer e dormir, poucas horas por noite fora da frente do computador. Tédio e já voltava para frente da máquina. Tédio. O melhor foi a ideia que tive para vencer o tédio…
- Qual?
- Vesti a roupa de oficial e liguei a WebCam. Conseguia ver cada detalhe do meu rosto na baixa resolução do aparelho. Tirei uma foto e coloquei no perfil do bate-papo com a seguinte legenda: “Oficial de Justiça”. Toda hora a janelinha do bate-papo apitava com novas notificações, alguém perguntava: “o doutor trabalha em qual Tribunal?”. Conheci pessoas do Rio de Janeiro, de Santa Catarina, do Japão, do Paraná, de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Eles nunca deixavam de me chamar de doutor. Assim consegui enganar o Tédio, até a volta da madrinha, que ainda ficou fora alguns dias.
Voltaram a si quando escutaram o som do carro do narrador que partira. A chuva também havia cessado, era quase uma da manha, estava na hora de voltarem para casa.

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Inspiração

Inspiração é algo que não acredito. Acredito que escrever é um trabalho como outro qualquer e a função do escritor é sentir as vibrações do mundo e com muito trabalho e leitura criar coisas novas. Assim, após um longo estudo sobre Machado de Assis criei este conto em sua homenagem.

Sobre a obra

É quase um monologo em que a voz que o narrador concede vai apenas a um personagem que é uma verdadeira incógnita dizendo coisas sem sentido que no final faz todo o sentido.

Sobre o autor

Sou o Gustavo, estudante de Letras, escritor e bancário, autor do livro Abortos, vencedor do regional talentos de 2016 na categoria de contos e crônicas e em 2017 na categoria poesia.

Autor(a): GUSTAVO ARANHA DA SILVA SOUTO

APCEF/DF