Talentos

KAMIKAZE, VENTO DIVINO

KAMIKAZE, VENTO DIVINO

HIRO, O SAMURAI

Hiro Mori postou-se de cócoras e serenamente contemplou o pôr-do-sol, crédulo que seria a última vez que faria isso na vida. Sua resignação era tamanha que se permitiu observar o aparecimento e a primeira hora de movimentação das estrelas no firmamento. No dia seguinte iniciaria a invasão Mongol.
Novembro de 1274, a frota mongol com várias centenas de embarcações e um contingente superior a 20.000 soldados, a mando de Kublai Khan, neto de Gengis Khan, avançou pelo estreito da Coréia, capturaram as ilhas de Tsushima e Iki, dominaram a baía de Hakata e chegaram próximos a capital da província Fukuoka.
A queda de todo o arquipélago japonês era iminente, os mongóis eram a maior potência militar daqueles tempos e dominavam quase todo o mundo “civilizado”.
Hiro reuniu-se com a sua família e consensualmente decidiram que não se entregariam aos invasores, tirariam quantas vidas fossem possíveis de seus algozes, e por fim, quando não mais restassem esperanças, cometeriam o Seppuku¹. A partir daquele momento, todos deveriam manter uma espada curta sempre à mão.
Na última refeição do dia comeram arroz e peixe ensopado. Os adultos tomaram uma dose de Sakê². Os bolinhos da sorte, “motis”, foram guardados para o dia seguinte.
Após o jantar todos permaneceram sentados à mesa durante um longo tempo, calados, tentaram ouvir o som dos tambores que tocaram nos dias anteriores, porém o silêncio era total, até mesmo os insetos e bichos noturnos não emitiam som algum. Apenas o farfalhar do vento sinalizava que o tempo não tinha parado.
Deitados nas esteiras de palhas de arroz entrelaçadas aguardaram o sono chegar, cada membro da família se preocupava apenas o destino dos outros, e Hiro, guerreiro condecorado, que há vinte anos passara a se dedicar a criação de sua família, ainda pensava que o conselho da cidade falhara ao não montar uma estratégia conjunta de defesa.
Assim que adormeceu Hiro sentiu-se elevado pelo vento, que tomou uma forma humana, e o vento murmurou “não virão”, “não virão, “não virão”. As rajadas continuaram por toda aquela noite.
Antes do raiar do dia, Hiro levantou-se, acendeu uma tocha e confirmou se todas as portas e janelas permaneciam intactas, em seguida amolou esmeradamente a sua espada, ele falava para si mesmo em voz alta e apontava cada atividade que executava, uma técnica que viria a ser conhecida por “Shisa Kanko“, que auxilia a evitar o esquecimento das ações importantes.
A família reuniu-se para o desjejum, não trocaram nenhuma palavra enquanto realizavam uma frugal alimentação, os olhares eram suficientes para relembrar as tarefas de cada membro: Hiro faria o enfrentamento na parte externa da casa, com o arco, flechas, lança e espada, a mulher, a filha, e os gêmeos, recém-chegados à adolescência, permaneceriam trancados dentro da casa, e disparariam tiros de flechas, a partir de pontos estratégicos, meticulosamente preparados e protegidos.
Durante todo aquele dia, todos na vila costeira permaneceram em vigília, olhos fixos na baía à espera dos mongóis.
A maioria dos habitantes, pescadores de profissão, adotaram decisão idêntica à do clã Mori, tirariam as suas próprias vidas antes que suas casas fossem violadas. Aquele povo não se submeteria a demonstração de força do inimigo.
Ao entardecer, um pequeno barco aportou no caís da vila, e trouxe uma ótima notícia para os habitantes: Na noite anterior a baía fora assolada por uma tempestade que destroçou a frota mongol e aniquilou milhares de soldados inimigos, obrigando-os a desistirem da invasão.
A cultura japonesa foi salva pelo Tufão Kamikaze, enviado pelos céus, os ventos divinos varreram a costa e afastaram o perigo.
A placidez das águas da baía, as marolas que refletiam mansamente a luz laranja durante o lusco-fusco daquele dia de outono, contrapunham com a tormenta ocorrida em alto mar na noite anterior. Hiro encontrou a explicação para o seu sonho, e a família Mori celebrou degustando os “motis”.
Kami significa Deus e Kaze vento. Kamikaze, Vento Divino, no século XIII, em duas oportunidades, os ventos divinos impediram que os Mongóis invadissem o Japão.


1 Seppuku, suicídio cometido com uma faca ou espada acarretando morte por desventramento.
2 Sakê, bebida alcoólica fabricada pela fermentação do arroz.

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Inspiração

Uma pesquisa da árvore genealógica feita para um trabalho escolar da minha filha.

Sobre a obra

Um relato do “último” dia da cultura nipônica, na ótica de um samurai.

Sobre o autor

Um observador dos fatos cotidianos e de sua correlação com a história.

Autor(a): GILSOMAR CORREA DA CUNHA ()

APCEF/PR