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A verdade sobre o sumiço de Doralice

A VERDADE SOBRE O SUMIÇO DE DORALICE

Dona Ismaela

Dona Ismaela acordou às cinco da manhã naquele sábado, o mesmo horário que acordava todos os dias. O marido dormia tranquilamente ao seu lado, costumava levantar-se um pouco mais tarde que ela. A mulher olhou o Sol nascendo por entre as cortinas, e pensou em quanto tempo demoraria para sentir falta da rotina pacata do campo, depois que voltasse ao ritmo frenético da metrópole. Tratou de trocar o pijama por um vestido mais ajeitado, pois sabia que o filho traria visitas, e foi para a cozinha arrastando os chinelos pelos corredores. Abriu a porta da frente e viu algumas motos e uma caminhonete no jardim.
- Hoje ele trouxe pouca gente. – Falou sozinha.
Pôs a água no fogo, tirou o bule do armário e ficou por alguns instantes olhando as bolhas se formando nos cantos da panela fervente, pensando na vida, e novamente nas saudades que talvez sentiria dali, na nova vida que teria em Belo Horizonte e.... foi puxada de volta à realidade pelo vulto que acabara de sentir passando por baixo da mesa.
Virou-se num solavanco. Seria um rato?! Ela não o viu com clareza, mas pelo tamanho do vulto era um bicho grande, uma ratazana! Tinha horror a ratos! Se tinha um uma coisa que não lhe causaria a menor saudade ao ir embora dali seriam aqueles bichos nojentos que vez por outra apareciam em sua casa. Pegou a vassoura e sentiu sua calmaria matinal esvaindo-se com a simples suposição da presença de um animal lazarento daqueles no seu entorno.
Com um olho atento às panelas e o outro à visão periférica, fez cuscuz com ovos, assou o queijo, ferveu o leite e dali a pouco, quando estava levando o bule de café pra mesa, lá veio aquilo de novo: passou como um raio por baixo do armário indo pra traz do fogão. A senhora levou um susto tão medonho que deixou o bule escapulir da mão, e lá se foi o café quentinho lavar o chão da cozinha.
- Rato maldito! Eu te pego desgraçado!
Deu uma batida no fogão com o cabo da vassoura, fingindo-se valente, mas com o coração a mil como se estivesse prestes a se defrontar com um terrível monstro. Bateu mais uma vez e outra mais forte, pronta pra descer a vassourada assim que o invasor saísse da toca. Já havia matado alguns ratos algumas vezes, pela força da necessidade, mas normalmente deixava essa tarefa infame para os homens, pois pra isso eles bem serviam. Foi quando aquela criatura abominável deu as caras: saiu debaixo do fogão uma coisa que ela nunca tinha visto; se tivesse tempo para associar aquele bicho com outros que havia no currículo de invasores da sua casa, diria que aquilo era uma mistura de ratazana com gambá, mas como não teve tempo de pensar em nada, só pode compreender que estava diante de uma criatura dos infernos.
O bicho tinha olhos de trevas, o pelo ouriçado como um porco espinho, o rabo enorme, teso, como que prestes a lhe dar uma rabada ao menor movimento seu, os dentes estavam bem à mostra, afiados, ameaçadores. Dona Ismaela ficou paralisada até finalmente soltar um grito de horror, ao que o bicho retribuiu com um grunhido de tremer os ossos e correu novamente pra baixo do armário, passando a centímetros dos pés da aterrorizada senhora.
Dona Ismaela entrou em estado de histeria, atirou-se sobre a mesa de qualquer jeito, com a única intenção de não pisar o mesmo chão que aquela criatura horripilante. Depois atirou-se em direção à porta, com a mesma sensação da infância, quando se atirava sobre as cobertas num salto impensável para o tamanho de suas pernas, com medo de que uma mão fantasmagórica surgisse por baixo da cama para agarrar o seu pé. Não, aquilo era pior! Aquele era um medo real. Havia um demoniozinho na sua casa e ela acabara de lhe olhar nos olhos e ver seus dentes ameaçadores apontados pra ela.
Correu até a casa de Seu Assis, toda suja de cuscuz com ovos. O caseiro já matara até cobra peçonhenta sem esboçar o menor medo; bicho do mato, o homem tinha destreza em lidar com toda a fauna do lugar, era ele o especialista em reconduzir animais silvestres para as matas fechadas e eliminar criaturas indesejadas que não raro apareciam na granja DoceVida.

Seu Assis

Seu Assis acordou com murros na porta e os gritos desesperados de Dona Ismaela. Pensou em assalto, em morte, em Seu Rômulo passando mal. Aliviou-se ao saber que se tratava de mais um rato azucrinando a vida da patroa. Pegou o cassetete e prontamente foi até a casa principal, tranquilo, como se matar animais aterrorizantes não fosse nada de mais. Gostava de matar bichos para acalmar aquela nobre senhora, a quem servia a tantos anos com imaculado respeito.
Agora com os dias contados para a partida do casal daquela granja, sentia que talvez aquele fosse o último bicho que mataria para tranquilizar a patroa, a última vez que enxergaria aquela gratidão em seus olhos, que despertava nele um ancestral instinto de herói. Estava acertado com os compradores da granja que Seu Assis permaneceria como caseiro, já que estava há tanto tempo ali e conhecia aquele lugar como ninguém, mas perder a convivência com Dona Ismaela e sua família estava lhe tirando de tempo. Mataria aquele bicho com uma cacetada certeira e mostraria à patroa, quem sabe pela última vez, o valor da sua coragem e da sua atitude viril.
Chegou à cozinha e foi direto vasculhar debaixo dos móveis.
- Cuidado, Seu Assis, esse bicho é brabo como eu nunca vi, tem os dentes afiados e... olha ele ali!!! Mata ele, Seu Assis!!!
O bicho correu pra sala e se enfiou no meio das caixas. Seu Assis foi atrás determinado, abriu caminho e viu o tal bicho acuado com os olhos fixos nele entre as caixas onde se lia “JOGO DE JANTAR”. Um erro seu e o caríssimo conjunto de porcelana da patroa estaria em sério risco. Mas Seu Assis era um homem experiente e certeiro: desceu uma só cacetada na cabeça do animal e bastou. O sangue se espalhou pelo chão enquanto o bicho se debateu até a morte.
Dona Ismaela respirou aliviada e deu nova ordem ao caseiro:
- Leve esse bicho lá pra fora, deixe pendurado na cerca que eu quero mostrar pro Rogério o tipo de criatura que eu tenho que lidar por aqui. Quem sabe assim ele se ressente menos por eu estar indo embora dessa granja e entende o meu lado, ao invés de ficar pensando em pista de Motocross.
Seu Assis obedeceu a senhora e deixou o bicho exposto ao sol, pendurado na cerca com o sangue pingando na terra. Já havia visto um animal daqueles e sabia que não era nada ameaçador, mas não disse isso à patroa, pra não diminuir o valor do seu feito. Depois puseram-se os dois a limpar o estrago de sujeira que a passagem daquele bicho deixara na casa: sangue, café, cuscuz com ovos; tudo espalhado pelo chão.
Não demorou muito veio Rogério, bem tranquilo, pensando apenas em tomar café e partir pros caminhos de areia e rampas íngremes com sua moto, mas o homem bruscamente mudou de ares ao sentir a euforia da mãe:
- Meu filho, você precisa ver o bicho horrível que apareceu aqui na cozinha hoje de manhã! Venha ver! Seu Assis conseguiu matar e deixou lá fora pra você ver!
Qual não foi o susto de Rogério ao ver Doralice toda ensanguentada pendurada na cerca:
- Mãe! Você matou a Doralice!!!
- Matei o quê, menino?! Que diabos é Doralice?
- Esse bicho que você matou é a Doralice! É o animal de estimação da namorada do meu amigo! Você a matou! E agora? Como é que eu dizer isso pra ela?!
- Ora e quem é o maluco que cria um trem desses? Você precisava ver, uma coisa dos infernos! Me mostrou os dentes e quase me atacou e...
- Doraaaa! – De longe se ouviu uma voz de mulher chamando – Doraaa!
Os três se entreolharam com cara de quem se envolveu num crime e agora ouvia as sirenes da polícia.
- É ela, já sentiu a falta da Doralice! – disse Rogério sussurrando de nervoso.
- E agora?! – Disse a mãe, já ciente do drama que se anunciava.
- Vamos enterrar o corpo! – Respondeu Rogério sem titubear.
O caseiro pegou o cadáver de Doralice pelo rabo e correram os três para os fundos da casa de Seu Assis. Os dois homens pegaram as pás e se puseram a cavar uma cova para o malfadado furão.
- Cavem um cova bem funda, pra não ter perigo nem de feder – Ordenou a mãe, em meio à enxurrada de reclamações sobre as companhias do filho – Você sempre trouxe esses seus amigos malucos pra cá e eu nunca reclamei, chegam aqui todos cobertos de lama, parece um bando de bárbaros, uns porcos no chiqueiro, agora uma mulher com um bicho lazarento desses era só o que faltava você me arrumar, eu prestes a ir embora dessa casa e me acontece um troço desses! Ah, mas eu vou embora daqui e não vou sentir a menor falta das suas amizades esquisitas! Ora Rogério, essa foi a pior visita que você já trouxe aqui...
- Mãe, eu não sabia que ela vinha, nem ela nem esse bicho! Ela apareceu na hora, você não sabe que o Juliano vive trocando de namorada? A gente chegou vocês estavam dormindo e ela disse que o bicho ficava numa gaiola!
- Doraaaaaa! – Os gritos da mulher ao longe pareciam cada vez mais aflitos e cada vez que se faziam ouvir davam a Dona Ismaela a sensação de ser uma criminosa ocultando um terrível assassinato.
Rogério e Dona Ismaela voltaram para a casa principal com a cara mais dissimulada do mundo. Tentavam parecer serenos, como se nada tivesse acontecido. Doralice estava morta, mas sua inocente dona nada saberia.

Dona Ismaela e Bianca

Na semana seguinte os pais de Rogério entregaram a granja aos novos moradores e partiram para Belo Horizonte carregando uma grande carga no caminhão de mudança. Bianca passou toda aquela semana hospedada na granja, sem desistir da esperança de encontrar Dora. Aumentou a recompensa oferecida a quem a encontrasse, rezou, fez promessa e chorou as lágrimas de uma vida inteira. Juliano teve que voltar pra cidade por causa das demandas urgentes no escritório de advocacia, mas falava com ela todos os dias por telefone. Bianca saiu da granja na sexta-feira seguinte, juntamente com os pais de Rogério e o caminhão da mudança, mas deixou todos os seus contatos com o caseiro Assis, pra que ele a contatasse assim que tivesse notícias de Doralice.
Na partida deu um longo abraço em Dona Ismaela, que foi muito atenciosa e suavizou sua dor como pôde naqueles dias em que as duas conviveram por conta do sumiço de Doralice. Que amor de senhora! Foram doces e gratificantes os momentos em que as duas se sentaram no alpendre e conversaram sobre os mais diversos assuntos, além, é claro, das especulações sobre o teria acontecido à Doralice. Dona Ismaela falou-lhe sobre Deus e sobre os mistérios que envolvem a vida e a morte com muita sensibilidade e sabedoria. Bianca chegou a crer que a oportunidade de conhecer Dona Ismaela, dias antes da sua partida, fora o contraponto positivo que sempre existe em meio às adversidades.
Dona Ismaela deixou aquela granja como quem se livra de um capítulo clandestino em sua vida. Ora teve pena daquela jovem mulher sentimental, que depositava tanto afeto num bicho medonho, ora a praguejou em pensamento por lhe roubar a paz num momento tão delicado quanto aquela despedida. Os quinze anos de história naquela granja de repente se tornaram secundários diante da farsa que ela manteve intacta naqueles dias. Conversaram sobre muitas coisas. Dona Ismaela engatava vários assuntos, falava de desapego, de mudanças, do que ela considerava realmente importante na vida; Bianca acompanhava a conversa com interesse, mas volta e meia retornava ao assunto de Doralice. As duas tomaram café, almoçaram e jantaram naquela casa onde o furão havia sido morto. O segredo às vezes pesava na consciência de Dona Ismaela, outras vezes lhe parecia uma debochada ironia do destino. Despediu-se de Bianca com um abraço apertado, sem saber se aquela força vinha da culpa ou do alívio. Com os olhos mareados em lágrimas a jovem lhe perguntou:
- Dona Ismaela, me diga com toda sinceridade, a senhora acha que a Doralice vai aparecer?
- Vai, Bianca. Ela vai aparecer. – Disse a senhora olhando-a nos olhos, sentindo-se a mais dissimulada das mulheres.
Até o último dia da sua permanência na granja, e mesmo muito depois de sua partida, vieram vizinhos dar testemunhos de que tinham visto Doralice.

Doralice

Belo Horizonte era uma cidade muito inspiradora para Seu Rômulo e Dona Ismaela. A cidade natal de ambos lhes trazia muito boas memórias dos tempos de infância e adolescência e o fato de terem voltado ao convívio da “civilização” deu um novo ânimo à vida do casal. A nova rotina amenizava na consciência de Dona Ismaela o episódio da dissimulação vivida na última semana, ao ter mandado matar o bicho de estimação de uma mulher e ocultado a morte e o cadáver terminantemente. Estava decidida a manter aquele segredo enquanto vivesse.
Compraram um belo apartamento num bairro nobre da cidade e Dona Ismaela decidiu finalmente contratar uma empregada doméstica, para ficar menos tomada pelos afazeres do lar. Queria cuidar mais da saúde, passear com o marido, visitar amigos, tricotar, pintar e se dedicar aos hobbies que lhe faziam feliz. Mas em toda sua vida nunca havia dado sorte com empregadas domésticas: já havia sido roubada, difamada, traída, e por muito tempo alimentou a ideia de que, se quisesse uma casa em ordem, ela mesma teria que trabalhar por isso.
Buscou indicações entre as amigas e fez muitas entrevistas com as candidatas que se interessaram pelo emprego. Encontrou algumas opções, mas sempre havia um porém, algo na pessoa que não lhe agradava ou não atendia às suas necessidades. Até que no fim da tarde, quando a senhora já estava cansada de fazer tantas perguntas e avaliar respostas, apareceu uma mulher por quem Dona Ismaela sentiu instantânea empatia. Uma jovem de personalidade afável que cozinhava, lavava, passava, arrumava e no mais estava disposta a aprender. O emprego ela dela, sem dúvida. Mas Dona Ismaela percebeu que àquela altura já estava tão exausta que começou a entrevista sem sequer perguntar o nome da mulher, passando direto para a sondagem sobre suas habilidades e os aspectos da sua personalidade.
- Você vai começar amanhã a fase de experiência aqui em casa. De antemão, acredito que você tem tudo pra dar certo aqui, espero não me decepcionar. Mas... me desculpe, eu esqueci de perguntar o seu nome.
- Dora. Quer dizer... meu nome mesmo é Doralice, mas pode me chamar de Dora.
Dona Ismaela ficou sem ação, mas logo depois caiu na gargalhada. A jovem ficou a olhou confusa, sem entender qual era graça. A história do sumiço de Doralice havia sido deixada pra traz, mas aquele nome veio até ela, pra mantê-la viva na lembrança:
- Doralice! Finalmente, você apareceu!!!



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Inspiração

Esta história é baseada em fatos reais. "Rogério" é o nome fictício de um parente da minha colega de trabalho da Caixa. Comentei com ela que precisava escrever um conto para participar do concurso, mas ainda não tinha ideia sobre o que escrever. Ela ficou por uns instantes pensativa, depois disse: "Tenho uma história interessante pra você contar"

Sobre a obra

Escrevi o conto num tom de suspense, para despertar a curiosidade do leitor. A história ficou dividida em dois contos sequenciais, que possuem sentido individualmente. Todos os nomes foram mudados no conto, com exceção de Doralice, que de fato era como se chamava o(s) personagem(ns) na vida real.

Sobre o autor

Escrever é um dos meus maiores prazeres. É o momento em que o tempo pára e minha mente fica totalmente envolvida na atividade, em estado "flow". É a minha arte preferida.

Autor(a): ALINE PEREIRA GURGEL (Aline Gurgel)

APCEF/RN


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