Talentos

As joias do resgate

Ainda não consigo avaliar os fatos de forma isenta, mas sei que era para pagar o resgate. E foi com curiosidade que eu avaliei aquelas peças, vendo duas senhoras empenharem tantas joias.
— Mas moço, o senhor faz tudo em meu nome e separa por favor os lotes com as peças que vou lhe passando aos poucos?
— Claro, foi minha resposta lógica, enquanto avaliava as joias, cada coleção com seu estilo, e ouvindo as senhoras murmurando.
— Essas são da Joana, anota aí.
E eu achando que já tinha visto muito, em “meus vinte anos de boy”, resolvi dividir minha atenção entre as peças e as senhoras: Mais de cinquenta anos, com o semblante pesado, e a resignação nos olhos. Há pessoas que quase morrem, ao deixar um par de brincos no penhor, mas sempre achei que não era para tanto.
Depois de uns três lotes de peças antigas, e mais um tanto de novas, elas somaram os valores e disseram que voltariam no outro dia.
Qual o impacto de um resgate? Quanto vale reaver algo de que se foi privado? Quando elas vieram no segundo dia, com mais que o dobro da quantidade de peças, fiquei incomodado, um tanto curioso com esse empréstimo inusitado. Vários contratos, cada contrato um envelope, cada envelope, um número. E a cada número que eu dava, elas anotavam mais um nome.
E, desta forma, se faz uma penhora: Perde-se algo que estimamos, que carrega consigo pedaços de nossas vidas, e em cada renovação, temos a esperança de que resolveremos.
— Pra onde essas peças vão?
É a pergunta mais frequente, mas apenas o resgate garante que veremos novamente nossos “amores”. Somos as vítimas do penhor, torcendo para que o avaliador não venda nossas lembranças no próximo leilão.
Ao colocar, sei lá se o vigésimo lote na balança, criei coragem e perguntei qual era a finalidade, se não fosse muita impertinência minha.
— É para o pagamento do resgate.
— Como?
— Nosso sobrinho foi sequestrado, e nós estamos levantando o valor para o resgate, com as joias de toda a família.
Como isso me abalou!
Percebi que poderia ter avaliado com mais carinho os lotes anteriores, ter errado a mão na lupa... Contudo, resolvi tocar o assunto e a avaliação, enquanto era um pouco menos exigente nas avaliações seguintes.
— Ele foi levado há três dias...
— Contrato pra quanto tempo?
— O mínimo possível.
— Trinta dias tá bom?
— Tá, assim que der, nós resgatamos.
Nós não vendemos dinheiro, vendemos soluções! Quando nos procuram é porque o problema já está instalado. São práticos, deixam o coração de lado, muitas das vezes.
Terminei o último contrato, somei os valores, paguei, desejei sorte e recomendei-lhes fé.
Depois de me refazer do choque, percebi que os últimos contratos tinham alguns problemas, coisa burocrática... Mas aí, fazer o quê, né? Só me restava torcer pelos resgates, das joias e, principalmente, o do rapaz. Do sobrinho da Dona Maria.
Quinze dias depois, um casal de jovens apareceu em minha banca e quitou aqueles contratos, e quando eu perguntei se a situação fora resolvida, o rapaz me respondeu que era ele o tal sobrinho. Aliviado, dei quitação dos contratos e avisei que as joias estariam disponíveis dali a três dias, quando sua tia deveria recebê-las, pessoalmente.
Na data prevista, foi com muita estranheza que bati o carimbo RESGATADO naqueles contratos.

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Inspiração

A essencialidade e a importância de darmos o máximo em cada contato humano. Atendemos necessidades e muitas vezes, não imaginamos o impacto que nosso trabalho terá sobre a vida de quem atendemos.

Sobre a obra

Texto produzido em 2007, revisitado anos depois, com muito carinho e que se mantém atual, por sua forma de retratar as relações entre a burocracia e a urgência humana.

Sobre o autor

3º lugar do concurso Talentos Fenae 2019 (Regional SP); 5º lugar no 2º Concurso Novos Talentos da Literatura José Endoença Martins da FURB 2019; Escreve no wattpad há seis anos, com foco em contos e romances de fantasia, suspense, terror e regras de RPG. Tem como favoritos e principais modelos: Asimov, King e Tolkien.

Autor(a): PAULO ROQUE GOULART VALENTE (Roque Valente)

APCEF/SP