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Por essa luz que me lomea...
Duas amigas - amigas do tempo do onça mesmo - se encontram num salão de beleza, podre de chique, bem no coração do CPA, o mais amado dos bairros cuiabanos.
- Comadre Marinalva! Quanto tempo? Como vai?
- Comadre Rosa! Eu to boa, com a graça de Deus!
- Mas que aguacero lá fora, heim?
- Pois é, São Pedro tá verteno água com gosto.
As amigas se abraçam e riem, falando alto e chamando a atenção de todos no salão, coisa corriqueira por ali, ponto de encontro da mulherada do bairro.
- Mas diga aí comadre, como tá o compadre Árvaro? Sarô da constipação ou ainda tá grocotchó?
- Nem me fale comadre. Esse homem tem me dado uma dor de cabeça...
- Ê ah! O que foi comadre? Além de doente tá aprontando?
- Pois é, agora que ele aposentou, virou arroz-de-festa, garrô a beber e se refestelá pro lado das moças da redondeza, fica só que abana a mão o tempo todo.
- Chá por Deus, mas que catchorro. E a senhora não deu umas porretadas no safado? Põe rédea nele, senão daqui a pouco começa a futxicaiada dos vizinhos.
- To tentano comadre, to tentano, mas tá difícil que só.
- Vai tomá na peidera com um homi desses... Se isso acontecesse com meu Roberval, era pá terra, eu dava nele até ele ficar com a espinhela caída.
- Deixa eu conta um causo comadre... Esses dias eu fiz uma peixada lá em casa, daquelas caprichadas, com mujica de pintado e ventrecha de pacú, comprei umas bem gelada, chamei uns parente e amigos, só pra ver se o safado ficava em casa, mas negatófi...
- O que aconteceu comadre? Ele não quis a peixada?
- Agora que que esse? Quero vê não querê... O catchorro encheu o bucho, comeu tanto que ficou até na orêia. Depois de tá até no chifre saiu berrano que ia procurar lugar onde tivesse cerveja gelada prêle bebê até abraçá o capeta.
- Mas que cordero. É mesmo um bocó de fivela...
- Ah, mas eu tive vontade de dar na cabeça dele com a vassora, comadre.
- Ê ah! E porque não pôs o safado pra corrê comadre? Ah, se fosse com o Roberval...
- Ele é assanhado, mas não se engraça com outra mulher não. Eu me garanto comadre. Mas não quero meu marido galinhando por aí, né?
- Mesmo assim comadre. Lugar de marido é em casa, ao lado da esposa. Meu Roberval nunca me deixa sozinha. É um companheiro digoreste.
- Eita comadre, o Roberval te ama mesmo heim? O Árvaro me ama também, eu nunca duvidei disso, mas ele sempre teve essa queda por tomar umas biritas na rua e agora
depois da aposentadoria, então ele tá querendo soltar a franga.
- Não deixa não comadre, senão já já ele tá de catcho por aí cum alguma rapariga e o povo vai ri no chá cara.
- Vôte comadre, canháem! Sarta de banda!
- Cuida, cuida do homi, por que senão ele pula a cerca mesmo.
- A senhora tem razão comadre. A partir de agora vou levar ele na txintxa. Rédea curta.
- Desde que eu casei com o Roberval eu nunca frouxei a rédea. Malemá ele sai de casa pra trabalhar.
- Comadre, por essa luz que me lomea, o Árvaro vai andar na linha a partir de agora ou não me chamo Marinalva da Silva.
- É isso aí muié!
- Bom, deixa eu ir que tô com um sarapatel no fogo. Aparece lá pra pegar uma bera. Manda abraço pro cumpadre Roberval.
- Pode deixar comadre. Mando sim. Depois passo lá pra pega uma rapa do almoço.
- Té mais comadre!
- Inté comadre
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Inspiração
Nos bairros mais antigos de Cuiabá ainda podemos encontrar pessoas que usam o linguajar tradicional. Pessoas não acostumadas com as expressões podem não entender uma conversa como esta. O objetivo é divulgar o cuiabanês, que torna o diálogo bem divertido.
Sobre a obra
A ideia foi retratar uma conversa entre duas amigas moradoras de um bairro tradicional de Cuiabá-MT, usando o linguajar típico local - o Cuiabanês.
Sobre o autor
Eu adoro explorar lugares suas histórias e provar sabores.
Autor(a): LIDIANNE AKERLEY SILVA (Lidianne Akerley)
APCEF/MT