Talentos

Efemeridade

— 17 de agosto, Diego, é quando faço aniversário. — disse Thais, com olhar arguto, como se lesse os pensamentos da pessoa antes que a mesma formulasse alguma pergunta, e sorridente, Thais estava sempre sorridente. Parecia que a menina estava envolta em um campo de força que irradiava endorfinas e adrenalina, não tinha como ficar perto dela e não se contagiar com um espírito...Aventureiro.
— Mas alguém da sua família falou que seu aniversário é em janeiro, tem alguma história aí? — Diego recordou-se de um almoço recente em que conheceu a família de Thais, na casa de veraneio no litoral do Rio Grande do Sul. Haviam começado um namoro há pouco e Thais ao mesmo tempo que falava com desenvoltura de suas experiências, parecia ocultar segredos dentro de segredos. Pronto, ali Diego definiu um apelido para Thais, Matrioska, uma boneca russa. Daquelas que contém outra boneca dentro e dentro ainda contém mais uma boneca e assim sucessivamente. Matrioska, ou Thais, tinha uma carinha de russa mesmo, pele clara, cabelos claros, um olhar meio zombeteiro e imprevisível.
— Era uma vez, Diego, um senhorzinho com seus 87 anos meticulosamente vividos, que servia como um preciso marcador do tempo para seus vizinhos. Conhecido como Sr. Nomo, diziam que o apelido pegou quando alguém disse que ele parecia um metrônomo, sempre dando o ritmo, o compasso para vida. Dona Martha começava a preparar o omelete do desjejum sempre que via o Sr. Nomo sair de casa e parar na soleira da porta com Raduk, um cãozinho simpático, um bulldog branco que fazia companhia ao Sr. Nomo há 5 anos. Roger observava o passeio sagrado do vizinho e seu cão às 7h23 e recordava-se de Bandit, o cachorro daquele desenho animado que via quando criança...Sempre abria um sorriso nesta hora, mesmo que estivesse estressado com o trabalho que detestava ou desanimado com a esposa que só dava atenção ao celular e seu repertório de assuntos restringia-se a novelas em que ele não possuía o menor interesse.
O jornaleiro, Sr. Damian, mandava mensagem para a filha no Uruguai sempre que via o Sr. Nomo virar a esquina em direção ao tabuleiro de xadrez que ficava ao lado de sua banca de revistas. pontualmente às 15h53. E o jogo com hora marcada das segundas e quartas-feiras com o amigo de longa data Adamastor já era tradição no bairro desde o século passado. Era um jogo acirrado, Adamastor devorava livros de estratégias de xadrez e fora campeão em diversas competições, mas Sr. Nomo praticava mais, pois jogava online em casa com gente do mundo inteiro...Mas nunca contaria isso a Adamastor.
Não, o Sr. Nomo não havia parado no tempo, tinha suas manias e rituais recorrentes, mas se atualizava constantemente. Foi professor de História e de Literatura, e aos 65 anos acumulou a faculdade de Ciências da Computação ao seu currículo. Culto, era versado também em 4 idiomas, e apesar de um pouco tímido logo que conhecia alguém, em pouco tempo comunicava-se com desenvoltura em seu círculo de convivência, menos com uma pessoa. Anne, sua neta recém-formada em Biologia, mas que em nada parecia biológica em suas atitudes, havia se tornado um tanto “mineralizada”. Anne fazia o possível para não travar conversas com membros da família. Lacônica, respondia apenas quando perguntada e de preferência de forma monossilábica. Não era gótica, não mais, por alguns anos se identificou com o estilo, mas não via mais graça naquilo, agora era triste apenas. Suas atitudes ou a falta delas não era para se encaixar em alguma “tribo”, não era um estilo de vida. Aliás, a vida passava longe de Anne. Ela havia morado a maior parte do tempo em uma cidade distante de Porto Alegre, mas havia se mudado há cerca de três meses junto com a mãe, para a casa do avô. A morte do pai de Anne em um acidente de carro não lhes ofertou muitas alternativas.
O sobrado do Sr. Nomo abrigava com folga as duas novas moradoras e o Sr. Nomo inicialmente estava receoso com as eventuais mudanças que elas causariam a sua rotina tão perfeitamente estabelecida. Anne achava que o avô tinha um parafuso a menos, toda aquela vida mecânica e para quê? O velhinho até tentava travar uma conversa legal, contando algumas de suas aventuras, viagens e experiências, mas ela tinha sempre um livro à mão para disfarçar que estava ocupada lendo e sair pela tangente, ou então os fones de ouvido a salvavam das investidas do avô. Não costumava sair de casa, nem sorrir, sua mãe buscou a ajuda de um psicólogo. No primeiro dia da consulta Anne deixou o divã vazio, nem apareceu. Foi para um café destes com wifi e ficou fazendo nada no celular até dar a hora de voltar para casa. Das próximas vezes a mãe foi junto para se assegurar do tratamento da filha, mas não ia muito bem, o psicólogo não conseguia que ela falasse muito, Anne era a face da indiferença.
Até que o Sr. Nomo deixou este mundo. Após os ritos fúnebres e sem lágrimas de Anne, chegou o momento da família se reunir com o advogado para a partilha de bens, sua filha herdou a casa. Anne ganhou a guarda de Raduk e recebeu do advogado um HD externo, um envelope selado com a informação que aquilo só interessava a Anne e uma foto dele com ela quando ela era bem pequena, atrás da foto tinha um desenho provavelmente de sua versão criança, mostrando dois bonecos de mãos dadas, um sol e uma casa.
Já em casa, na privacidade de seu quarto, Anne abriu o envelope e descobriu uma folha de papel com as informações de um usuário e senha. Ela conectou o HD externo no computador, imediatamente apareceu uma janelinha pedindo autenticação. Anne copiou o que estava no papel e conseguiu acesso aos arquivos. Dois arquivos. Um vídeo e um documento de texto. Fez um uni-duni-tê e escolheu abrir o vídeo.
— Saudações minha neta! Se você está vendo este vídeo é porque eu já parti desta para melhor...Sempre quis dizer isso! — Um animado Sr. Nomo ria na gravação que ele fez com sua biblioteca ao fundo. — Mas, falando sério, mesmo não conseguindo me comunicar muito contigo, percebi o quanto você é esperta e especial, e você e nem ninguém merecia o que aconteceu... Sei bem disso, seu pai e eu éramos bons amigos. Mas como deves ter notado, sou guiado por minhas manias, por meu Transtorno Obsessivo Compulsivo. E te peço que essa seja também a sua herança. É o pedido de um morto, acho bom você cumprir ou vou puxar teus pés na cama enquanto dormires, hein? — Mais uma risadinha do Sr. Nomo. — Mas é sério Anne, lhe rogo que continue a desempenhar a minha rotina ao menos por 3 meses, contando a partir de agora. Há um documento chamado Rotina neste HD com os detalhes das minhas atividades e horários que quero que sigas à risca, bem como minhas receitas. Tenha uma boa vida, minha querida, o vovô vai ficar bem e ama muito você e sua mãe! — A tela do computador voltou a exibir o desktop.
Anne bocejou após a despedida do avô e lembrou das brincadeiras de fantasmas que povoavam sua infância com aquele bom velhinho. — Está bem, vou atender ao seu pedido, afinal não tenho nada melhor para fazer, não é? — E Anne mirou a grade semanal de atividades e dada a hora que era foi cumprir uma delas quando a campainha tocou. Havia à porta uma mulher de cerca de 30 anos, cabelo à Chanel, usando óculos de grau e abraçada em livros. — Com licença, Anne! Sou a Licila, amiga do seu avô, que Deus o tenha! — Anne olhou de relance o documento que havia impresso e entendeu “17h33 - Hora da leitura com Licila”, deixou-a entrar.
— Meu amor, sinto muitíssimo por sua perda... Era um dos melhores homens que já conheci...Ele me pediu que eu iniciasse uma leitura completamente nova para você. — Licila tinha um sotaque paulista — O Nome da Rosa ou Duna?
— Espera, espera...Eu sei ler e enxergo muito bem, senhora...Por que você deveria ler para mim? Entendo que meu avô tinha dificuldades, mas...
— Ó, na verdade depois eu descobri que ele também não enxergava assim tão mal. — deu uma risada com a mão cobrindo a boca — aquele maroto, ele gostava da minha voz e da minha companhia. Ah, já está tudo pago, deixe-me te proporcionar a experiência.
Anne deu de ombros. – Ok, então, vamos para a sala.
O Nome da Rosa foi iniciado e depois de alguns capítulos Licila pediu para a menina verificar qual seria o próximo item da rotina do sr. Nomo, pois lhe garantiu que ela também estaria incluída.
Era quinta-feira e para as 19h33 estava estabelecido que o jantar deveria ser o Frango Secreto do Sr. Nomo com Tâmaras com Nozes e Mel, uma receita romana de sobremesa. Ela e Licila cozinhariam juntas, assim como seu avô e a amiga faziam todas as quintas. Seguiu à risca a receita que seu avô deixara para ela, e as duas jantaram à luz de velas.
— Mas, errr...Licila, estava pensando, esta leitura de vocês não era muito romântica, não? Toda quinta-feira vocês cozinhavam e jantavam juntos? Vocês tinham uma espécie de namoro?
Depois de um riso e um suspiro de alívio de Licila, ela conseguiu responder — Estava me perguntando se e quando você ia perguntar algo assim... Bom, Anne, nunca tivemos um envolvimento romântico de verdade. Éramos só bons amigos mesmo, confidentes. Eu sentia também um carinho um tanto paterno por ele. Meu pai sempre foi tão distante, o sr. Nomo era um amor. Ele me ensinou e aconselhou muito, conversávamos sobre tudo. A ideia dos jantares foi dele, e foi uma ótima ideia no final, pois tem coisa mais agradável que ler um bom livro e depois cozinhar, comer enquanto se conversa sobre tudo, inclusive sobre a obra lida?
— Ora, vejamos, parece que meu avô não era só um excêntrico, tinha uma lógica até bem apurada... eu não via graça neste jeito dele, até apelidei ele mentalmente de hamster, porque parecia ficar só correndo e não saindo do lugar... Mas confesso que ele está colocando um pulga atrás da orelha... Embora eu não consiga entender pra que tanto esforço e planejamento ainda...
— É, ter TOC pode até ser libertador, menina... Se você for esperto. Posso te garantir que o sr. Nomo se divertia muito! — Anne e Raduk britanicamente se encontraram às 7h23 prontos para seu passeio matutino e a rotina seguiu tal e qual o planejado, Anne tornou-se um clone das atividades do avô. Até que as 17h33 ela parou em frente a cafeteria mais próxima, titubeou um pouco pensando um “ei, mas afinal o que eu estou fazendo?” e sem um argumento forte para que desistisse do comportamento serializado e com o cheiro aconchegante do café, simplesmente adentrou. Conforme as instruções, ela deveria se sentar na mesa 3 (sim, a mesa cativa do sr. Nomo) e pedir um Machiatto, um pão de queijo e uma palha italiana.
Assim que ocupou a mesa, que ficava na fachada do estabelecimento, uma área externa protegida por um toldo em que Raduk poderia ficar aos seus pés, uma garçonete quase da mesma idade de Anne veio ao seu encontro sorrindo tanto que a moça achou uma situação um pouco constrangedora.
— Boa tarde, você deve ser a Anne, não é? Ai, eu deveria estar muito triste pelo Sr. Nomo... mas aquele homem era de outro mundo.Ele que me disse que não devia... Que não devia... — e como o clima naquele lugar, que um dia frio torna-se quente do nada para logo adiante voltar ao esperado com um vento gélido, a sorridente moça desatou a chorar.
Pediu licença para se recompor e voltou à mesa para falar com Anne:
— E eu chorei na sua frente e você nem sabe o meu nome... é Isabel. O seu avô me avisou que você viria, eu já pedi para trazer o que ele pedia sempre, você deseja algo mais?
— Hum, não, Isabel. Por enquanto só o de sempre do Sr. Nomo. Vocês eram amigos há muito tempo?
— Ah sim, seu avô era muito especial para mim! Ele tinha empatia com as pessoas, ajudava em ações comunitárias, tinha um grande coração. Sou mãe solteira, ele ficou sabendo e ajudou muito o meu pequeno Lucas.
— Estou descobrindo um outro lado do meu avô, tentando ver as coisas do jeito dele. Mas tem algo me incomodando...
E naquele momento sua mesa recebe machiatto, pão de queijo e palha italiana.
— Viu? Três coisas. Essa mesa é a número três. Os horários da rotina dele sempre terminam com três. Sabe o porquê desta fixação com o três, Isabel?
— Ah, isso? Sei sim, ele me contou. Um dia ele leu um livro chamado “Encontro com Rama”, é do Asimov? Não, Arthur C. Clarke. Eu também li depois, seu vô me fez tomar gosto pela leitura. Bom, o livro narra o encontro de um viajante espacial com uma nave desconhecida, aparentemente inabitada. O explorador consegue entrar na enorme nave e descobre que os aliens usam um sistema matemático ternário, usavam o três para tudo...E deviam ter três dedos. A partir daí ele ficou obcecado pelo número. Dizia que não fazia uma cópia de segurança, fazia duas, para compor o que ele chamava de “trickup”. O que ele pudesse ele comprava sempre em trinca. Mais uma mania dele, nada demais.
— E a conversa com Isabel transcorreu, Diego. Ela e a Licila se tornaram minhas melhores amiga, somos três, Sr. Nomo aprovaria. Sim, eu sou a Anne. Por um tempo eu segui aquela rotina e aos poucos fui voltando a sentir, fui voltando a ter empatia, a ter raiva, compaixão, vontades e não só algo parecido com preguiça e indiferença. Meu avô me ajudou a sair da depressão e a sua rotina foi o melhor legado que eu podia ter recebido. Por uma questão simbólica, parei de me apresentar como Anne, queria começar nova vida do jeito que eu pudesse, daí me “apelidei” de Thais. 17 de agosto é a data que comecei a obedecer a rotina do meu avô, hoje comemoro mais essa data do que a que nasci.
— Incrível, seu avô sabia das coisas...e era meu colega da história também, virei fã.
— Sim, e depois de um tempo, foi quando a Licila terminou de ler Neuromancer que começamos a conversar sobre o número três e o assunto informática veio à baila que eu me dei conta. “Ele só deixou dois arquivos no HD externo...Só dois... E o terceiro?”. Corri para o computador e busquei para ver se tinha algum arquivo oculto. Tinha. Era outro vídeo, neste ele perguntava, de forma retórica, se eu estava gostando da vida dele. Mais uma de suas risadinhas. Depois me disse que me libertaria da maldição, enfim, ele tinha senso de humor! E que eu podia ser livre e fazer a rotina que eu bem entendesse ou nenhuma rotina... Mas que cuidasse bem de suas amigas e do Raduk. Bom, depois disso eu tomei coragem para viajar para alguns lugares históricos, já que História era um interesse dele, e curtir a vida um pouco sozinha, me virando. Por isso você me conheceu cheia de aventuras para contar.
— Nossa, quase uma narrativa fantástica! Que figura era este Sr. Nomo, queria tê-lo conhecido...
— Podes conhecê-lo agora através de mim. Eu de vez em quando volto a fazer a rotina dele quando fico nervosa... Você pode fazê-la comigo se quiser...
— Nervosa? Posso te ajudar com isso... E que tal se nós planejássemos a nossa própria rotina, Matrioska?
— Bom garoto! É aí que eu queria chegar, nós juntos podemos ser de verdade uma Matrioska, sabia? Eu até já estou cultivando uma bonequinha sua, aqui... No meu ventre...

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Inspiração

Buscava escrever sobre aspectos humanos e escolhi a efemeridade como tema para esta obra. Queria escrever sobre como as pessoas devem aproveitar ao máximo esta vida, com boas ações e um pouco de prazer, pois ela acaba rápido. Além disso, quis evidenciar como as pessoas podem mudar, de preferência para melhor.

Sobre a obra

Trata-se de um conto ficcional que discorre sobre a efemeridade da vida e sobre julgamentos que fazemos sobre pessoas sem ao menos conhecê-las direito. A história traz uma garota que conhece melhor seu avô, mas só depois do mesmo já ter falecido. Foi escrito após alguma pesquisa, pois o personagem do avô possui excentricidades em sua rotina.

Sobre o autor

Marcelo Laserra tem formação em Tecnologia da Informação, Gerência de Projetos e História. É autor de Sob a Égide, um romance steampunk com diversos elementos de conspiração e mistério. Pai, arqueiro, adepto do Role Playing Game e praticante de HEMA. Mais informações em marcelolaserra.com

Autor(a): MARCELO MILTON LASERRA (Marcelo Laserra)

APCEF/SC