Talentos

Orixá do Abaeté

Não sou detentora de grandes recursos nem meu marido Almir é. Não temos
praticamente nada, senão este filho agonizando na nossa cama, enquanto ele
está paralisado como muitos chefes de família ficam quando o muro e o alicerce
da nossa casa estremecem. A gente tenta ser mais forte do que a maldita
imagem fascista que os homens carregam na voz grossa ligada à imagem do
gogó grande, tal qual o leão carrega no pescoço o status de rei. Sinto um
profundo desgosto do meu casamento, não ter escutado minha mainha. Deve
ser o mesmo nó na garganta sentido por ela durante todo esse tempo infinito. Eu
a entendo! Quem sabe ela perceba, entenda e acredite o meu entendimento.
Sinto muito por ela. Quem sabe assim não leve o meu filho para as profundezas.
Quando eu era um pouco pequena, a minha mainha me levara para uma
cerimônia de candomblé. O babalorixá me estimava muito, mas não queria me
fazer presente. É muita energia de verdade circundando nosso corpo, nosso
mente, nossa alma. Danada, sagaz, eu assistia a tudo das frestas das cortinas
azuis com bolinhas brancas. Era um ritual belíssimo, misto de dança e canto,
festa e louvor. As pessoas não pareciam ser elas mesmas nem minha mainha
parecia ser a minha mãe. Mais tarde soube de Iansã, Ogum, Oxalá, Iemanjá,
Xangô, Oxum, Oxóssi... Mas uma vez eu vi uma mulher que o babalorixá não via
tampouco os outros. Não conhecia nem por conhecida da vila nem por energia
do terreiro. Tentei dizer algo, apanhei! Está sendo inventiva e me aborrecendo
com essa traquinagem, painho falou berrando por toda a casa.
Por muitas noites, estava presente nos meus sonhos aquela visão do dia da
surra de cipó. Tinha visto uma negra mais linda do que Isabel incorporando
Iansã, Carlota incorporando Iemanjá, do que Jacinta incorporando Oxum. Uma
cabeleira, uns beiços, umas pernas enormes. Se um dia eu fosse escrever um
livro, narraria seu vestido negro com riscos ondulados azuis fazendo par com
gestos bruscos a passos galopados em saltos miraculosos. Narraria desse
jeitinho. Mas já mais teria capacidade para escrever algo. Só sei que ela estava
ali, conto para você escrever algo qualquer dia desses, e só eu a enxergara
rondando o círculo o qual aparentava estar proibida de entrar.
De repente me viu, e eu me vi naqueles olhos imensos que pareciam um portal
aberto a um mundo profundamente obscuro. Foi quando ficou estéril, disse baba
a minha mainha, sobre o motivo pelo qual eu com vinte e poucos anos não
poderia ter filhos. Existe um orixá esquecido por todos que desejam algo da
natureza feminina. Esquecido devido ao caráter subvertido dessa
monstruosidade em tirar o já tido e nos oferecer o nosso por direito sagrado.
Fiquei inconformada por não ter filhos. Procurei baba por mais vezes ao longo
de dez anos. Fiz isso para obter mais informações: outras mulheres sofreram
isso e conseguiram o que queriam recorrendo a monstra da lagoa. Não era Uiara
culpada pelo afogamento do guerreiro fantasma chamando por outros à morte.
Por volta da década de 50, ali no Abaeté, disse mainha, seu bisavô fazia
cerimônia às margens da lagoa. Mas sempre algo dava errado. Alguns não
chegavam a tempo ou se perdiam só de pisar na areia. Fosse Uiara, fosse
monstra, fosse mistério, procurei por meios incontáveis o jeito de adentrar e
tomar o meu pertence: minha fertilidade.
— Na noite mais linda de lua cheia, ali na lagoa perante as palmeiras que antes
eram dendezeiros por aonde chegaram os orixás a ordem de Olorum, você deve
acender uma vela quebradiça de todas as cores. Subir por aquele caminho que
dará num sem fim de areal e matas. Retornar quando escutar o nono pio de uma
coruja. Se ela quiser ver você, faça saudação sem abrir a boca, pense alto:
“Laroiê epanabá!”.
E se ela não quisesse? Não me importava. Fiz de tudo, até pesquisei com outros
babas para não me ocorrer nem um mal pior. Eles disseram para levar algum
tocador de atabaque, o som criaria ao redor de mim uma rede de vitalização.
Olorum pode não estar conosco e deixar intercessores, mas ele é justo e
providencial. Atendi. Não a encontrei. Depois, soube daquela noite mais linda de
lua cheia não ser para ela igual seria para os românticos. Luas após muitas luas,
tomei rumo quando uma estava escondida, perdida num céu nublado de laranja
avermelhado. Sucede o ocorrido.
A lua cheia, o nono piar, depois eu volto e já emerge prateada e espetacular do
meio da lagoa de trevas. Engoli em seco, um horror e uma visão de beleza sem
fim. Prostrada de joelho assistia a um fenômeno que nenhum humano em vida
será capaz de acreditar. A Lagoa do Abaeté assombrosamente linda é uma fera
acariciada e faminta bem perto da gente.
— Sei quem és! Sei teus quereres e muito pouco preciso de palavras. Já tens, ó
mais nova coitada, o barco da morte pesado arrancado do teu ventre. Não era o
que querias? Partas, coitada mulher, e não volte nem deixe por aqui teu fruto
podre voltar. Concedi a ti uma condição de árvore abençoada a ser bela!
Amaldiçoado seja, e voltando, não duvide, arrastá-lo-ei impiedosamente,
impiedosamente, im-pi-e-do-sa-men-te! Arrastá-lo-ei para dentro de minhas
entranhas. Bem aqui onde todos os filhos morrem para que todas as mães
possam viver como gostariam - hesitei falar - Cala-te! Já tens os quereres. Vá,
vá!
Os afogamentos de jovens, crianças, idosos. O desaparecimento de lavadeiras.
O canto de Dorival Caymmi. Crianças brincantes na areia, crianças tomando
jangada, que apanham se muito perto chegar. Todos os filhos roubados pelo
orixá do esquecimento. Uma monstra que tira o peso da mãe que pode morrer,
que por clemência devolve a fertilidade fatal e por algum motivo mata-os. Uma
monstra ou uma aliada? Quantas porções de ódio ela deve ter depositado em
tantos ventres para que outros ventres pudessem escolher o que querem, mais
tarde eu pensei.
Depois de ter conseguido o que queria, meu único medo era que o meu rebento
andasse por lá. Que nada! Ele voltou, bebeu, brincou, pulou e engoliu muita
água, mas não era para está assim tão debilitado. Não sabia nadar, meu filho,
foi tão pouca água! Enquanto ele estiver ali paralisado, o fruto da minha
fertilidade, a custo de meu maior desespero, morria a míngua, tomei por decisão:
— Vou à lagoa do Abaeté! Ninguém vai me impedir de salvar a vida de meu filho!
Venha comigo se quiser! Ou fique aí estarrecido e se afogando em cachaça,
miserável!
Calhou de ser lua cheia, calhou de uma mulher está com uma vela acesa, a se
preparar para o início de uma felicidade fadada à desgraça. Sem atabaque,
agogô ou qualquer instrumento de ritos. Notei que aquela mulher era conhecida
minha que muito tinha enricado. Falavam sobre ser uma parideira de primeira
ordem, e uma cretina vendedora de crianças para estrangeiros. Agora ali eu intui
sobre algum pacto selado entre aquelas duas.
Fui me aproximando por entre uns matagais, escutando a conversa numa língua
desconhecida. Num dado momento do português muito claro do monstro do
Abaeté, tudo ficou muito claro. A maldita monstra atraia os filhos para ela.
Servíamos de barriga de aluguel. Foi quando vi que uma mulher do outro lado
das matas se aproximava. Muito jovem, com atabaques e velas numa grande
sacola. Não faça isso! Não troque sua paz de espírito pelo direito de ser mãe, e
se querer trocar, prefira a ciência à loteria diabólica perversa dessa lagoa dos
infernos.
Atrapalhei os planos da coitada, mas fiz os meus. Reaproveitei o material.
Esperei que a outra parideira terminasse a conversa íntima. Subi o caminho por
entre matas e areais! Deixei meu menininho sentado às margens das palmeiras.
Voltei.
O círculo prateado. As nuvens baixas. O vento cada vez mais denso. Aquela
água central subia verticalmente. O líquido tomava forma da entidade natureza.
Os olhos, os cabelos, os gestos ciganos, tudo parecia familiar. Não reparei da
primeira vez, me sentia menor e desprezível perante o poder de me restituir a
fertilidade. Mas agora estava de igual para igual, em direitos, deveres e corpo.
Ela tinha meus traços, era eu um orixá. Não! Estava sendo ludibriada por formas.
Não é possível.
— É um fracasso! Dona de águas paradas que não correm, não se renovam a
não ser pelo acaso dos céus! Menor que o mar e o rio, menor que o céu e o
vento! Raios caiam e perfurem o teu fundo de maldade e secura. Seca ficará e
nada ao redor de ti sobre. Ó, lagoa pequena, limitada, oprimida, vulnerável a
deixar de existir. Por todos os orixás, orixá maldita, eu quero que sejas mais e
mais esquecida! Não tens nem a consideração de Oxalá e dou minha cara à tapa
se Nanã aceita seus atos repugnantes.
Com as minhas expressões de compaixão no leito de dor do meu filho, ela se
compadece e estende os braços. Pensei que fosse mesmo a Olossá com sua
candura e ternura. Por isso, meu lado materno acreditou no lado materno dela.
Se eu não acreditasse, estava desacreditando em mim. Vem carregada pelas
suas águas negras em minha direção. Peço perdão pelo dito, digo entender o nó
na garganta. Uma natureza desmerecida, tratada como uma peça descartável,
substituída facilmente por outro ou outra. Eu entendo. Com a palma da mão
aberta, convidou meu filho para o colo. O olhar do meu único perguntando com
os olhinhos se posso ir, mainha. Respondo com olhar de pode, sim, meu anjinho.
Com ele nos braços, regressou ao ponto central, fico desconfiada. Mas não eram
as minhas formas, o meu rosto? Eu não estou errada, eu sei o que sinto. Apesar
de ter me aliado àquela força que me deu o não ao olhar meus olhos, quando
ainda pequena. Se ela pode fazer isso comigo criança ingênua sem nada ter dito
a ela... Começou a murmurar.
— Uma lagoazinha menor, ó, grande o mar de Iemanjá. Tão minúscula perante
o céu do grande Oxalá. Se um raio de Xangô cair, meu reino desmoronará —
comecei a ficar tranquila, pois os murmúrios assemelhavam-se a uma canção de
ninar, também sombria por tradição — Quedê, quedê, quedê meu lugar? Só
Olossá deixou para mim a lagoinha do Abaeté.
— Ele deve fica melhor — aflita estava — muito obrigado, qual teu nome?
— Ele há de ficar melhor. Não tenho nome. Ninguém deu. Alguns me confundem
com Olossá, mas era eu sua serva mais fiel e implorei-lhe um lugar para mim.
Era um dos crocodilos devoradores de oferendas e mensageiros. Pensavam e
tu pensas tratar-se de jacaré, mas não, não mesmo. Ninguém aprovou a
bondade de Olossá, nenhum deles é tão maternal quanto ela e ninguém mais
sofre por isso. Aqui era o reino dela, o local de culto. Ainda pensam nisso, mas
muitos já a esqueceram e só enxergam uma lagoa de águas escuras e rodeada
por uma areia branquinha. Herdei muito, tudo, o absoluto. Tenho uma força
desgovernada e um lugar meu. Eu tenho todos os sentimentos humanos na
qualidade miserável do ressentimento e o meu lugar é uma lagoazinha chamada
de limitada por você, oprimida, vulnerável. A lagoazinha não muito estreita para
quem vê, e profunda!
Um sorriso de 71 dentes me deixou aterrorizada. Gritei, tentei correr para
resgatar meu único filho. Mas não deu tempo. Um crocodilo afundou. Uma
serpente, um dinossauro, um monstro foi a última forma que vi levando consigo
o olhar do meu filho de “posso ir, mainha?”. Aquela criatura cheia de crueldade
levou toda a minha vida desde o primeiro dia no qual vi aqueles olhos enormes
do tamanho da verdadeira forma do sorriso satânico.
O santo esquecido, o orixá desconhecido, o deus renegado, eles podem te
oferecer grandes coisas e feitos, e pode te cobrar algo ou te roubar no primeiro
encontro. Talvez a paz, talvez a inocência ou a sorte. No meu caso a fertilidade,
deixando a vontade de ser mãe. A falta de recursos me levou ao desespero.
Tendo recurso, minha amada, fuja para a ciência, essa fortaleza remendada.
Deveria ter procurado Iemanjá, mas eu já tinha sido violentada espiritualmente.
Só procure por ela em último caso, não tendo recurso, não tendo jeito. Se essa
vontade suprema da maternidade devastar todo o seu interior, vá até a Lagoa do
Abaeté sem fazer ritual. Saiba um modo a pronunciar o pedido e faça promessas
conciliáveis. Lá é o portal de muitas as forças: lama, vento, rio, nuvens
condensadas por águas marítimas, céu, mata, terra. Pise e ande firmemente.
Peça e clame com vigor. Não volte grávida. Não volte no interim jamais! Nem
deixe que o fruto do seu ventre se aventure por lá.

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Inspiração

Numa viagem a Salvador, conheci a Lagoa do Abaeté. Numa pesquisa das histórias, músicas, contações popularres sobre o local, minha imaginação foi crescendo para criar uma nova entidade e manifestação de grande poder

Sobre a obra

Um conto com uma pegada da tradição do realismo fantástico ou maravilhoso.

Sobre o autor

Sou uma pessoa que luta para resistir a frieza, competitividade, jogo de aparências e status tão marcantes na sociedade em que vivo e até mesmo em meio a profissão que exerço. Não é fácil criar e encontrar pessoas que compartilham de ideais assim. Mas sei que elas existem, e aqui nesse festival tem muitas delas.

Autor(a): JOHNATAN DIEGO DE SOUZA GOMES (Tandie Pfefferman)

APCEF/PE


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