Depois do café

Depois do café

Colocou uma das peças do jogo americano sobre a mesa, cuidando para que as bordas de ambos ficasse paralela. No centro, colocou o pires e a xícara. Alinhou cuidadosamente os talheres, puxou a cadeira e sentou.
Abriu a caixa do remédio e espalhou sobre a mesa as três cartelas. Duas fileiras de cinco comprimidos em cada.
“Um para cada dia do mês”, pensou.
“Em fevereiro, sobram duas. Ou uma, se for ano bissexto”.
“Nos meses de trinta e um dias, faltará um comprimido”.
Agitou a caixa e a bula caiu. Abriu-a, leu sem dar muita atenção aos termos técnicos, mas riu do enunciado que dizia “Para quem se destina esse medicamento?”
“Para mim, é claro!”
A receita estava ali como prova, com a assinatura do médico e tudo.
Seguiu lendo e prestou especial atenção na parte que orientava o que fazer se alguém tomasse uma dose excessiva.
“Pode haver sensação de desmaio e perda da consciência, pela queda repentina da pressão.”
“Procure imediatamente o socorro médico e leve a embalagem ou bula deste medicamento…”
Dobrou o papel respeitando as marcas da dobradura original e recolocou na caixa.
“Procurar socorro… mas, e se a pessoa estiver só?”
“Se estiver só, assim como eu, não há o que fazer”
Olhou em silêncio para as cartelas, passou a mão pelo friso lateral da mesa, pousou os olhos na xícara e um súbito lampejo trouxe à tona a lembrança de quando havia mais xícaras, mais colheres, mais barulho.
O espaço do apartamento se tornou denso, como se as cadeiras, a geladeira, o micro-ondas, o fogão e o resto dos móveis não existissem. Uma súbita nuvem escondeu-lhe o brilho dos olhos.
Engoliu em seco, suspirou e voltou a atenção para a receita do médico, aberta ao lado da caixa: “tomar um comprimido após o café da manhã”.
O som da chaleira chiando atraiu-lhe a atenção. Antes de levantar, olhou em volta mais uma vez, ouvindo os sons do passado. Foi até o fogão e derramou a água no coador.
Pegou uma das cartelas, libertou um comprimido e guardou os outros na caixa.
“Espere eu terminar o café”, falou para o pequeno botãozinho esbranquiçado sobre o pires.

Compartilhe essa obra

Inspiração

Há uma voz corrente que fala sobre estar só no meio da multidão. Carlos Drummon de Andrade, em seu poema "A Bruxa", questiona se está sozinho no Rio, na América, no mundo.
Fazendo uma releitura, narrei o que seria o cotidiano de uma pessoa solitária e suas angústias, o hábito de falar com as coisas e as lembranças que acompanham seus dias.

Sobre a obra

Usei a técnica "Show, don't tell", revelando a obsessão por controle e o isolamento do personagem por meio de rituais e ações físicas, sem precisar explicá-los.
Já no diálogo com Objetos (Antropomorfização), busquei materializar a solidão ao fazer o personagem conversar com o remédio e a bula na ausência de interlocutores.

Sobre o autor

Sou aposentado, nasci na fronteira, em Santana do Livramento. Tive a felicidade de caminhar pelas mesmas ruas onde Jose Hernandez perambulou quando escrevia ssua magistral obra "Martin Fierro". Sou fã de Mário Quintana, Walt Withmann, Paulo Leminsky e outros autores.
Tive a felicidade de viver em um meio onde a literatura sempre foi valorizada.

Autor(a): HELIO DA SILVA DOS SANTOS (Ganimedes Saturno)

APCEF/RS