Os cancelados do Rio

Os cancelados do Rio

“Homem de preto,
qual é sua missão?
Entrar na favela
e deixar corpo no chão.”

Atropelada pelo caveirão, a presunção de inocência agoniza na sarjeta. Não morre de imediato — resiste um pouco — mas já não encontra quem a socorra. Diante do que se desenrola nas favelas do Alemão e da Penha, sua sobrevivência parece mais um detalhe incômodo do que um princípio a ser preservado.
A força policial não veio exatamente para investigar. Veio com mandados de prisão — muitos deles não cumpridos — e deixou à vista outra lógica: a produção de mortos, vários com indícios que desafiam a versão de confronto.
Na prática, o morador passa a ser tratado como suspeito. Quem corre confirma a suspeita. Quem fica, arrisca-se a confirmá-la também. Se, como cantou Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, então não há urgência em distinguir, nem em esperar. O trânsito em julgado se antecipa: é o gatilho, o clarão do fuzil, a sentença que não admite recurso.
Não se trata de um desvio recente. Há uma linha que atravessa o tempo, desde as guardas que protegiam a nobreza no Império, convertidas em caçadores de escravos fugitivos, chegando a 1964, apoiadas na lógica do inimigo interno na ditadura, até chegar às operações contemporâneas. O racismo estrutural não precisa estar escrito nos regulamentos para operar: ele se manifesta na prática, nos alvos escolhidos, na forma como se entra e, sobretudo, na forma como se sai.
Na operação citada no começo, onde o homem preto, vestido de preto, patrulha o território onde o preto mora. E, ao fim, os corpos, reduzidos a estatística, escorrem para a contabilidade informal que a própria polícia consagrou em tom de cinismo: “CPFs cancelados”.
Cantado a plenos pulmões, em ritmo de marcha, o refrão que abre este texto, entre tantos outros do mesmo repertório, já foi instrumento de cadência e coesão. Hoje, quando ecoa nas periferias, soa como anúncio. Não prepara apenas a tropa: antecipa o desfecho.
E não é um fenômeno isolado. Em diferentes pontos do país, a lógica se repete com variações mínimas. Muda o nome da operação, ajusta-se o discurso, preserva-se o método.
Enquanto isso, cresce o apelo pela desmilitarização das polícias. Mas a engrenagem que sustenta esse modelo continua ativa, alimentando carreiras políticas, discursos de ordem e figuras que transitam com desenvoltura entre o Estado e suas margens mais opacas.
Na escadaria da Candelária, uma vela solitária insiste em permanecer acesa. Resiste ao vento, à chuva e ao esquecimento. Pequena, quase irrelevante diante da escalada da violência, ela ainda guarda um gesto: o de lembrar que houve nomes, histórias, vidas; antes de tudo se tornar número.
E talvez seja isso que mais incomode. Não o estampido, nem o clarão, nem mesmo a morte em si, mas a facilidade com que, depois dela, tudo volta a caber no silêncio.

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Inspiração

A operação Contenção, levada a cabo em 28 de outubro de 2025, no Rio de Janeiro, onde mais de uma centena de pessoas perderam a vida.
Tomada como sucesso por algumas figuras políticas do país, foi uma demonstração da incapacidade do governo daquele estado em combater o crime organizado, representado pelo Comando Vermelho.

Sobre a obra

A crônica foi contruída baseada n crítica social ao opor a frieza do jargão policial ("CPFs cancelados") à desumanização das vítimas. Para alcançar esse resultado, usei metáforas viscerais (a presunção de inocência agonizando), somada a termos jurídicos, que levam o leitor a refletir sobre o fato histórico.

Sobre o autor

Sou fronteiriço, de Santana do Livramento. Aposentado, apaixonado pelas letras, leitor assíduo e procuro sempre estar atento ao mundo à minha volta, sem deixar de expor minha opinião.

Autor(a): HELIO DA SILVA DOS SANTOS (Ganimedes Saturno)

APCEF/RS