Talentos Fenae/Apcef

Prece

Prece

A chuva que se anunciava
veio antes do fim do dia.
O vento soprou furioso
arrastando a frente fria

O céu se vestiu de chumbo,
num prenúncio de aflição.
Despejou chispas de raio
e estrondos de trovão.

No casebre de madeira
a avó fervorosa, clama
que sua fé seja firme
e mantenha acesa a chama.

Uma vela sobre a mesa,
no prato, uma cruz de sal.
E aos céus pede, em prece,
que se acalme o temporal.

Segura o terço entre os dedos,
se benze com água benta.
Pede à imaculada virgem
que corte ao meio a tormenta.

Em profusão cai a chuva,
o vento silva lá fora.
Pelas frinchas da madeira,
a casa murmura e chora.

Repousa o terço na mesa,
da vela se apaga a chama.
Apoiada em suas crenças,
ela se recolhe à cama.

Encolhida entre as cobertas
ainda sussurra uma prece:
"Senhor Deus, rei do universo,
em teus braços, me abandono..."

Aos poucos, a chuva para
o vento reduz o entono.
A natureza se acalma
e a noite pega no sono.

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Inspiração

O recente evento das enchentes no Rio Grande do sul e o grande trauma que causaram na população gaúcha. A isso, somei a memória de minha avó, parteira e benzedeira na zona rural de Santana do Livramento.
Ela sabia "cortar tormentas" e benzer o tempo para afastar oa males. Em sua ascendência charrua, sabia de feitiços e encantamentos.

Sobre a obra

A obra mostra como a fé traz paz no meio do medo. Usei rimas simples para dar ritmo de canção, versos curtos para a leitura fluir bem e metáforas que transformam a tempestade e a casa em personagens. Assim, criei uma história cheia de emoção, que começa assustadora, mas termina acolhedora.

Sobre o autor

Sou fronteiriço, de Santana do Livramento, sempre ligado às coisas do campo, à natureza e às crenças que me foram passados pelos ancestrais. Muitas histórias contadas junto ao calor aconchegante de um fogão a lenha, enquanto o Minuano assobiava cantilenas nas cercas de arame.

Autor(a): HELIO DA SILVA DOS SANTOS (Pedro Martin)

APCEF/RS