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A NULHER DA CAPA PRETA
A MULHER DA CAPA PRETA
A capa de pedra está lá há mais de cem anos, caída sobre a cruz como se alguém a tivesse deixado ali ontem.
Quem passa pelo Cemitério da Piedade, no Prado, pode vê-la por entre as grades: a cruz escura, as grandes dobras e, mais acima, um ramo verde pendurado no braço da cruz.
De dia, há quem pare para olhar.
De noite, quase ninguém demora o passo.
Dona Quitéria, que vendia mingau perto da esquina, dizia que o cemitério tinha silêncio demais para ser só silêncio.
— Ali dentro tem gente que morreu, mas não se aquietou — afirmava, mexendo a panela. — E quem não se aquieta depois de morto é porque deixou conta, amor ou segredo.
Seu Orestes, taxista antigo, ria.
Mas, quando escurecia, estacionava sempre um pouco mais longe do muro.
Por respeito, dizia.
No Prado, todo mundo conhecia a história da Mulher da Capa Preta.
Contavam que, numa noite de baile, um rapaz conheceu uma moça chamada Carolina. Dançaram. Conversaram. Quando a festa terminou, ele se ofereceu para acompanhá-la até em casa.
Chovia.
A moça sentia frio, e o rapaz tirou a capa preta que usava e colocou-a sobre seus ombros.
Carolina aceitou.
Caminharam pelas ruas molhadas de Maceió. Quando chegaram perto da casa onde ela dizia morar, a jovem pediu que ele não fosse adiante.
— Amanhã você vem buscar sua capa.
O rapaz concordou.
Foi embora pensando menos na capa que na desculpa que teria para vê-la outra vez.
Na manhã seguinte, voltou.
Bateu à porta.
Uma mulher atendeu.
Ele perguntou por Carolina.
A mulher demorou a responder.
— Carolina?
— A moça que mora aqui. Estive com ela ontem à noite.
A mulher continuou olhando para ele.
— Que Carolina?
O rapaz disse o nome completo.
Carolina de Sampaio Marques.
A mulher perdeu a cor.
Carolina estava morta havia anos.
Ele riu.
Depois percebeu que ninguém mais ria.
Contou sobre o baile, a chuva, a caminhada. Falou da capa que emprestara à moça e que viera buscar.
A conversa demorou.
Por fim, a mulher concordou em acompanhá-lo ao Cemitério da Piedade.
Quando chegaram ao jazigo, o rapaz parou.
Sobre a cruz estava sua capa preta.
Pelo menos era assim que o Prado contava.
E foi justamente por causa dessa história que Damião decidiu fazer uma besteira.
Damião tinha vinte e seis anos, uma coragem barulhenta e um juízo que funcionava apenas em horário comercial. Trabalhava numa loja de celulares no Centro e gostava de dizer que não acreditava em nada que não viesse com comprovante, garantia ou nota fiscal.
— Assombração é falta de iluminação pública.
Na noite em que tudo aconteceu, chovia fino em Maceió.
Damião estava na porta da casa de Naldinho quando a conversa chegou à Mulher da Capa Preta.
— Eu duvido tu entrar no cemitério hoje — disse Naldinho.
— Eu entro.
— Conversa.
Damião tirou o celular do bolso.
— Entro e tiro uma foto do túmulo.
Leninha, irmã de Naldinho, ouviu da janela.
— Faça isso não, Damião.
— Por quê?
— Porque tem coisa que a gente não precisa provar.
— Leninha, eu sou um homem moderno. O fantasma que quiser me assustar vai ter que aparecer em alta resolução.
Naldinho riu.
Toinho Gordo não.
Toinho só aceitou acompanhá-los depois que soube que Dona Quitéria tinha prometido cuscuz com carne de sol quando voltassem.
— Eu vou — avisou —, mas se aparecer qualquer coisa sem CPF, vocês resolvem.
Foram os três.
A rua estava quase vazia. A chuva deixava o asfalto brilhando sob os postes.
Damião conhecia aquele túmulo. Já o tinha visto muitas vezes através das grades.
Nunca tinha chegado perto.
Pararam diante do portão.
Lá dentro, a capela aparecia ao fundo.
Toinho apontou para o alto da fachada.
— Aquilo é um caixão?
— É — respondeu Naldinho.
— E dos lados?
— Caveiras.
Toinho tornou a encarar o portão.
— O lugar avisa. Entra quem quer.
Damião empurrou.
Entraram.
Um carro passou atrás deles. O ruído dos pneus no asfalto molhado atravessou as grades.
Damião entrou primeiro.
Seguiram pelo caminho entre os jazigos. À esquerda, a primeira rua se abriu entre túmulos e grades. Passaram por ela.
— Não é aqui? — perguntou Toinho.
— Na próxima.
Continuaram.
Na segunda rua, Damião virou à esquerda.
Túmulos dos dois lados, grades, pequenas faixas de grama, cimento irregular sob os pés.
Toinho vinha por último.
— Isso aqui é caminho?
— É — respondeu Naldinho.
— Para vivo?
— Cala a boca.
Continuaram.
Mais adiante, alguma coisa escura apareceu acima dos outros túmulos.
Damião diminuiu o passo.
Era a cruz.
Sobre ela, as dobras.
De longe, pareciam pano.
— É aquela?
Naldinho fez que sim.
Toinho parou.
— Pronto. Já vimos.
Damião continuou.
Primeiro percebeu que as dobras não se moviam. Depois viu o brilho da pedra molhada. Mais perto, distinguiu o ramo verde pendurado no braço da cruz.
Parou diante do jazigo.
— É pedra.
Toinho finalmente se aproximou.
— Eu sabia.
— Sabia nada.
— Mas suspeitava com muita convicção.
Damião riu e levantou o celular.
Fffrrr...
O sorriso desapareceu.
— O que foi isso?
Os três ficaram parados.
— Não fui eu — disse Toinho.
Damião aproximou a luz da cruz.
Passou os dedos por uma das dobras. Pedra fria e imóvel.
Um ônibus passou na avenida.
Os três ouviram.
Damião soltou o ar.
— Vento.
Naldinho olhou em volta.
— Que vento?
Damião tornou a erguer o celular.
Fffrrr...
Desta vez, mais perto.
Damião reconheceu o som. Tecido roçando o chão.
Toinho deu um passo para trás.
— Damião...
— Quieto.
Apontaram as luzes para os lados.
Grades.
Pedra.
Túmulos.
Ninguém.
Damião voltou-se para a cruz.
A capa continuava imóvel.
— Deve ter alguma coisa presa...
— Bonita, não é?
A voz veio de trás deles.
Toinho fechou os olhos.
Naldinho não se mexeu.
Damião virou devagar.
Uma mulher estava no caminho por onde haviam acabado de passar.
Não parecia uma assombração. Era isso que mais incomodava.
Era jovem, usava um vestido escuro e trazia os cabelos presos. As mãos descansavam uma sobre a outra diante do corpo.
Damião olhou além dela.
O caminho estava vazio.
— A senhora entrou por onde?
Ela inclinou a cabeça.
— Pela mesma entrada que vocês.
Toinho abriu um olho.
— A gente não viu.
— Eu vi vocês.
Toinho fechou o olho novamente.
A mulher se aproximou.
Damião percebeu que não ouvira seus passos.
Ela parou ao lado do jazigo e olhou para a cruz.
— Vieram por causa dela?
— Da capa? — perguntou Damião.
A mulher não respondeu.
— A senhora conhece a história? — perguntou Naldinho.
— Qual delas?
Naldinho não soube responder.
Damião tentou.
— A do baile. Do rapaz que emprestou a capa para uma moça.
Nada no rosto dela mudou.
— Depois ele levou a moça em casa — continuou Damião. — No dia seguinte voltou para buscar a capa e descobriu que ela já estava morta.
A mulher continuava ouvindo.
— E encontraram a capa aqui — completou.
Ela voltou os olhos para a cruz.
— É o que contam.
— Então é mentira?
A mulher tornou a encará-lo.
— Eu não disse isso.
Toinho abriu os dois olhos.
— Minha senhora, com todo respeito, isso não ajuda.
Damião apontou para o monumento.
— A senhora sabe de quem é esse túmulo?
— Você não sabe?
Damião hesitou.
Conhecia a lenda desde menino — o baile, o rapaz, a capa, todas as versões. Ainda assim, não sabia responder.
A mulher apontou para a pedra.
— Está escrito aí.
Damião abaixou o celular.
A luz percorreu a base do monumento.
A chuva dificultava a leitura. Ele passou a mão sobre a pedra.
As letras apareceram aos poucos.
CAROLINA DE SAMPAIO MARQUES.
Damião leu em silêncio.
Quando levantou a cabeça, a mulher continuava diante dele.
— Carolina — disse.
Ela sorriu de leve.
Damião olhou o nome outra vez.
— A senhora...
Não terminou.
Toinho percebeu antes.
— Damião...
— Quieto.
Damião voltou-se para Carolina.
— E o rapaz do baile?
Ela demorou.
Então seus olhos se desviaram para um túmulo próximo.
Damião acompanhou o movimento.
— Quem está enterrado ali?
— Meu marido.
Damião ficou calado.
Toinho olhou para o túmulo, depois para Damião, e abriu a boca.
— Nem pense — disse Damião.
Toinho fechou.
— Então a história...
— Que história?
Damião não respondeu.
Carolina passou os dedos pela borda do próprio jazigo.
— Vocês sabem contar muitas.
— Qual é a verdadeira?
— Se eu contar, vocês param de inventar?
Damião não respondeu.
— Foi o que pensei.
Um carro passou lá fora.
Por alguns segundos, ouviram apenas o motor afastando-se.
Damião percebeu que ainda segurava o celular.
— Posso tirar uma foto?
— Pode.
Ele não esperava aquela resposta.
— Sua?
— Você veio fotografar a capa.
Damião olhou para a cruz e baixou o aparelho.
— Acho que não quero mais.
Ela assentiu.
Fffrrr...
Os três se viraram para a cruz.
Nada se moveu.
Toinho aproximou-se de Naldinho.
— Eu quero registrar que ouvi.
Carolina permaneceu imóvel.
— Ouviu o quê? — perguntou.
Toinho apontou para a pedra.
— Isso.
— Isso o quê?
Fffrrr...
Toinho ficou pálido.
Carolina não olhou para a cruz.
Damião percebeu.
— A senhora sabe o que é?
— Sei.
Esperaram.
Ela não disse.
— E não vai contar? — perguntou Toinho.
— Não.
— Eu sabia.
— Não sabia.
Toinho ficou ofendido.
Carolina riu baixo. Damião não soube por que aquilo o assustou mais que o resto.
Naldinho tocou seu braço.
— Vamos embora.
Damião concordou.
Antes de sair, voltou-se para Carolina.
— Posso contar que encontrei a senhora?
— Pode.
— Vão acreditar?
— Você acreditaria?
Damião pensou.
— Ontem, não.
— Então não exija tanto dos outros.
Ele guardou o celular.
Os três começaram a caminhar.
Tinham dado poucos passos quando Damião se virou.
Carolina ainda estava diante do jazigo.
A chuva engrossou.
Damião piscou.
Não havia ninguém.
— Naldinho...
— Não.
— Mas...
— Eu não vou voltar.
Toinho já estava vários passos adiante.
— Vocês podem conversar andando.
Damião tornou a olhar para o túmulo.
A cruz, as flores verdes, a capa de pedra.
Tudo imóvel.
No caminho de volta, passaram novamente pela capela.
Toinho não olhou para as caveiras.
Do lado de fora, Leninha e Dona Quitéria esperavam sob uma sombrinha.
— E então? — perguntou Leninha.
Damião guardou o celular no bolso.
— Nada.
Naldinho virou para ele.
— Nada?
Damião deu-lhe uma cotovelada.
Dona Quitéria estreitou os olhos.
— Encontraram a mulher?
Os três ficaram calados.
A velha assentiu.
— Imaginei.
— Como? — perguntou Damião.
— Você entrou querendo uma fotografia e saiu escondendo o celular.
Toinho apontou para a casa.
— O cuscuz ainda existe?
Dona Quitéria suspirou.
— Existe.
— Graças a Deus. Finalmente uma coisa em que posso acreditar.
Naquela noite, o causo cresceu antes mesmo de o cuscuz acabar.
Naldinho jurava que o barulho da capa tinha vindo de todos os lados.
Toinho dizia que Carolina surgira sem dar um único passo.
Damião quase não falou.
Dona Quitéria ouviu tudo.
Quando terminaram, perguntou:
— E como era o nome dela?
Toinho coçou a cabeça.
Naldinho esperou.
Damião respondeu:
— Carolina de Sampaio Marques.
Dona Quitéria continuou mexendo o mingau.
— Pelo menos uma coisa vocês trouxeram de lá.
Uma semana depois, Damião voltou ao Cemitério da Piedade.
De dia.
Não levou os amigos.
Também não levou desafio.
Passou pelo portão e seguiu pelo mesmo caminho.
À luz da manhã, viu rachaduras no cimento, ferrugem em algumas grades e flores murchas sobre outros jazigos.
Numa das lápides, reconheceu o sobrenome da avó.
Lembrou-se da mão dela apertando a sua entre as cruzes.
— Aqui a gente não ri, Damião. Aqui a gente respeita.
Quando avistou a cruz escura, continuou sem parar.
Chegou perto.
A capa era pedra.
As flores verdes também.
Damião olhou para o túmulo próximo.
Lembrou-se da resposta de Carolina.
Meu marido.
Depois baixou os olhos.
CAROLINA DE SAMPAIO MARQUES.
Passou os dedos pelas letras.
— Carolina de Sampaio Marques.
Deixou as flores que havia trazido.
Quando se virou para ir embora, ouviu:
Fffrrr...
Damião parou.
Não havia vento.
Ficou imóvel por alguns segundos.
Não olhou para trás.
— Até outra hora, Carolina.
Continuou andando.
Já estava quase alcançando a passagem quando ouviu uma voz atrás dele:
— Damião.
Parou.
Dessa vez, virou.
Não havia ninguém.
Só o jazigo.
A cruz.
As flores verdes.
A capa de pedra, imóvel.
Damião ficou olhando.
Depois seguiu em direção ao portão.
Não se lembrava de ter dito seu nome.
Inspiração
A minha inspiração nasceu da lenda alagoana da Mulher da Capa Preta e ganhou força ao conhecer seu túmulo e pesquisar a história de Carolina de Sampaio Marques. Por trás da assombração repetida por gerações, encontrei uma mulher com nome e história. O conto nasceu do desejo de aproximar memória, lenda e mistério.
Sobre a obra
Meu conto revisita a lenda da Mulher da Capa Preta pelo olhar de Damião, um jovem descrente que entra no Cemitério da Piedade para desafiar a assombração. Entre humor e suspense, seu encontro com Carolina põe em dúvida a história que todos repetem e revela que, por trás da famosa capa, existe um nome.
Sobre o autor
Sou Verônica Galvão, escritora, poeta, advogada, bancária aposentada da Caixa e formanda em Letras/Espanhol. Integro a Academia de Letras e Artes do Nordeste. Escrevo desde a infância e busco na literatura preservar memórias, revisitar histórias e transformar experiências, lugares e afetos em ficção e poesia. Já publiquei três livros.
Autor(a): VERONICA DA SILVA GALVAO (Verônica Galvão)
APCEF/AL
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