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ANTES DA SENHA
ANTES DA SENHA
Antes da senha,
existe uma pessoa.
Que chega
com medo, com vergonha
de não entender
o que aquela máquina pede,
o que a vida cobra.
Antes da senha,
chega uma pessoa
segurando a carteira
com as duas mãos.
Chega outra
com o dinheiro enrolado num saco,
escondido no sutiã,
como quem guarda e segura
o último pedaço
de segurança.
Antes da senha,
vem um trabalhador
com a casa própria
dobrada numa pasta azul.
Vem uma mãe
abrindo uma poupança pequena,
como quem planta uma árvore
no bolso da filha.
Vem quem não sabe perguntar,
mas precisa de resposta;
decorou números,
atravessou sol,
ônibus e fila
para chegar até ali.
E do outro lado, há mãos.
Uma mão entrega.
A outra recebe.
Uma mão traz o que pode.
A outra devolve o que sabe.
Mãos que contam dinheiro,
mas também contam tempo.
Contam histórias.
Contam espera.
Contam medo.
Contam começos e recomeços.
Mãos que, quando erram,
pagam sozinhas
a diferença do dia —
como se o dinheiro
valesse mais
que a mão que o conta.
Mãos que digitam de novo,
para que a pessoa siga,
mesmo quando o sistema trava.
Mãos que aprendem,
dia após dia,
a olhar nos olhos
e a chamar pelo nome.
Tem cliente que chega
com um bom-dia inteiro.
E tem cliente que descarrega ali
o troco de uma briga
que começou em outro lugar.
Gente que traz no bolso
mais perguntas do que dinheiro.
Que chega com o futuro dobrado
entre documentos.
E nenhum nome
deveria sair menor
do que entrou.
Talvez ninguém veja,
no fim do expediente,
quantas vezes uma palavra paciente
evitou uma lágrima
e segurou a mão que tremia.
Pois há um mundo inteiro
passando por aquelas mãos:
gente que chega de olhos baixos,
de ombros caídos,
de número anotado na palma da mão.
E antes de qualquer número,
há apenas um desejo:
ser visto.
Ser ouvido.
Ser chamado pelo nome.
E quem passa o dia inteiro
vendo o outro,
ouvindo o outro,
chamando o outro pelo nome —
quem vê essa pessoa?
Quem chama por ela,
quando a fila acaba,
o sistema fecha,
e resta só alguém
a quem ninguém perguntou
como estava?
Inspiração
Minha inspiração nasceu da experiência como bancária aposentada da Caixa. Quis dar voz a quem tira a senha no totem — sozinho ou com ajuda — e espera ser chamado, com medo ou vergonha; e, do outro lado, às mãos que atendem, contam, erram e aprendem a olhar nos olhos e chamar cada pessoa pelo nome.
Sobre a obra
Poema em versos livres estruturado em espelho: de um lado, quem chega antes da senha carregando medo, dinheiro escondido e esperança; do outro, as mãos de quem atende. Uso as anáforas 'Antes da senha' e 'Mãos que' como fio condutor, encerrando em uma pergunta aberta: quem cuida de quem cuida?
Sobre o autor
Sou Verônica Galvão, aposentada da Caixa, poeta, escritora, advogada e formanda em Letras/Espanhol, membro da ALANE. Amo a poesia desde a infância e mantenho uma constante visão de futuro, aprimorando meu olhar e acompanhando as transformações contemporâneas. Já lancei três livros e sigo criando novos projetos.
Autor(a): VERONICA DA SILVA GALVAO (Verônica Galvão)
APCEF/AL