A MULHER QUE PROCESSOU O PAPAGAIO

A MULHER QUE PROCESSOU O PAPAGAIO
Dona Zefinha nunca foi mulher de levar desaforo para casa.
Levava sacola, levava troco errado, levava guarda-chuva emprestado e, vez ou outra, até levava bolo solado de aniversário de vizinha para não fazer desfeita. Mas desaforo, não. Desaforo ela deixava na porta, batia o pé e mandava de volta para o lugar de onde veio.
Viúva desde os quarenta e dois anos, tesoureira havia dezoito anos da Irmandade de Nossa Senhora do Bom Parto, ela tratava o próprio nome como a única herança que ninguém ia tocar sem pedir licença. Dinheiro, na vida de Zefinha, não era só dinheiro. Era reputação com data de validade eterna.
Por isso, quando o papagaio de seu Jurandir gritou, pela terceira vez naquela semana, “Zefinha, cadê o dinheiro?” — bem na hora em que ela passava carregando o livro-caixa da Irmandade debaixo do braço — ela não pensou duas vezes: botou o vestido azul de missa, calçou a sandália de sair para resolver coisa séria e foi direto ao fórum.
Porque uma coisa era ofender Zefinha. Outra, bem mais grave, era plantar dúvida sobre a tesoureira da Irmandade na frente de quem via ela passar todo santo dia com a pasta dos recibos.
A cidade inteira ficou sabendo antes do meio-dia.
— Zefinha vai processar o papagaio.
— O papagaio?
— O próprio.
— Mas papagaio tem CPF?
— Se tiver, deve estar negativado.
A notícia correu pela feira, entrou na padaria, atravessou a farmácia e chegou até a barbearia. Lá, os homens já discutiam o caso.
— Tecnicamente — disse seu Armando, que lia jornal velho e por isso se
considerava jurista — o papagaio é reincidente.
— Reincidente em quê?
— Em falar demais.
No fórum, a atendente tentou manter a postura.
— A senhora deseja ajuizar uma ação contra quem?
— Contra o papagaio de Jurandir.
— Nome completo?
— Do papagaio?
— Do requerido.
— Pois bote aí: Louro. Vulgo Descarado.
A moça pigarreou.
— A senhora sabe informar o sobrenome?
— Se puxou ao dono, deve ser Louro da Silva Caloteiro.
A atendente respirou fundo.
— Dona Zefinha, talvez a ação deva ser contra o proprietário do animal.
— Minha filha, foi o bicho que me difamou. É ele mesmo quem está jogando meu nome na lama. Eu tenho um nome a preservar, sou pessoa de bem, todo mundo me conhece nessa feira. Jurandir só ficou rindo no portão.
— Mas o papagaio não responde civilmente.
— Não responde? Pois toda vez que eu passo ele abre o bico e grita: “Zefinha, cadê o dinheiro?” no meio da feira. Para isso ele é bem responsável! Eu conheço meus direitos, minha filha.
E foi assim que nasceu, nos corredores do fórum, o processo mais comentado da década: Zefinha versus Louro.
A petição inicial dizia que a autora vinha sofrendo “ataques verbais públicos, reiterados e emplumados”. Requeria indenização por danos morais, retratação pública e, subsidiariamente, que o papagaio fosse obrigado a permanecer calado em horário comercial.
O juiz, homem sério, bigode alinhado e paciência regulamentar, marcou audiência de conciliação.
No dia marcado, o fórum encheu.
Veio gente que nunca tinha pisado ali, inclusive três senhoras do grupo do terço, dois mototaxistas, o vendedor de tapioca e um menino que faltou aula dizendo que era excursão cultural.
Seu Jurandir chegou com o papagaio no ombro, todo orgulhoso, como se levasse uma testemunha de defesa.
Dona Zefinha entrou logo depois, segurando uma bolsa grande demais para conter apenas documentos. Dizia-se que ali dentro havia provas: recibos, fotografias, uma gravação em áudio e, segundo boatos, um pedaço de bolo que o papagaio também teria ofendido.
O juiz abriu a audiência.
— Estamos aqui para tentar uma composição entre as partes.
O papagaio virou a cabeça de lado.
— Composição nada. Paga, Zefinha!
A sala explodiu em riso.
O juiz bateu a campainha.
— Senhores, por favor. Mantenham a ordem. Cada um terá o seu momento para falar.
— Ordem é pagar! — gritou o papagaio.
Seu Jurandir ficou vermelho.
— Louro, se comporte.
— Paga, Zefinha!
O juiz interveio novamente, agora mais firme:
— Advirto as partes de que não serão toleradas novas interrupções. Mantenham a ordem durante a audiência.
Dona Zefinha levantou o dedo.
— Tá vendo, excelência? É disso que eu estou falando. Ele está me difamando na frente de todo mundo. Eu conheço meus direitos.
O juiz tirou os óculos, limpou as lentes devagar e perguntou:
— Dona Zefinha, a senhora deve algum valor ao senhor Jurandir?
— Eu? Devo nada.
Seu Jurandir tossiu.
— Na verdade, excelência, houve uma rifa.
O juiz voltou-se para ele.
— Que rifa?
— De uma cesta de São João.
Zefinha se adiantou:
— Eu comprei um número.
— Comprou três — corrigiu Jurandir.
— Comprei um e olhe lá.
— Três — insistiu Jurandir.
O papagaio confirmou:
— Três! Caloteira junina!
A audiência quase acabou ali.
Dona Zefinha abriu a bolsa com violência e tirou um papel amassado.
— Está aqui o comprovante de pagamento de um número.
Seu Jurandir tirou outro papel.
— E aqui está a lista com três números reservados no nome dela.
O juiz examinou os documentos.
— Dona Zefinha, parece que a senhora reservou três números.
— Reservei. Depois fiquei só com um e avisei a Jurandir que não queria mais os outros dois.
Seu Jurandir se remexeu na cadeira.
— Avisou depois que eu já tinha anotado o nome dela.
— Anotar não é vender, Jurandir. Eu desisti antes do sorteio e paguei o único número com que fiquei.
O juiz conferiu novamente os papéis.
— E os outros dois números chegaram a ser pagos?
— Não — respondeu Jurandir.
— E eu ganhei alguma coisa com eles? — perguntou Zefinha.
— Não.
Ela abriu as mãos.
— Então pronto. Desisti dos dois, paguei o meu e não fiquei devendo nada.
O papagaio bateu as asas.
— Quer ganhar sem pagar!
— Cale essa galinha colorida! — gritou Zefinha.
— Galinha é tua tia!
O juiz fechou os olhos por um instante, respirou fundo e tornou a encarar os presentes.
— Dona Zefinha, esta é a última advertência. Senhor Jurandir, mantenha o animal sob controle. Não admitirei novas ofensas durante a audiência.
— Eu me controlo, excelência — disse Zefinha. — Quero ver controlar esse papagaio.
O juiz retomou a condução da audiência:
— Vamos tratar da possibilidade de acordo. Senhor Jurandir, o senhor se compromete a fazer cessar as ofensas e providenciar uma retratação?
— Posso ensinar Louro a pedir desculpas, excelência. Ele aprende rápido.
— Aprendo nada! — disse Louro.
— Aprende sim — insistiu Jurandir.
— Aprende você a pagar fiado!
Foi então que a audiência tomou outro rumo.
Seu Jurandir, até então apenas dono do papagaio, começou a suar. Zefinha estreitou os olhos.
— Peraí.
Todos olharam para ela.
— Esse papagaio não aprendeu isso sozinho.
O juiz ergueu a sobrancelha.
— Explique, dona Zefinha.
— Esse bicho fala demais, mas não inventa. Papagaio repete. Quem foi que ensinou ele a dizer que eu devia dinheiro?
O silêncio caiu na sala.
O papagaio olhou para Jurandir.
Jurandir olhou para o chão.
O juiz olhou para Jurandir.
Zefinha sorriu.
— Foi o senhor, não foi, Jurandir?
— Eu... bem... era só brincadeira.
— Brincadeira é chamar a pessoa de flor, de bonita, de rainha do milho.
Me chamar de caloteira no meio da rua, bem na frente de quem me vê carregar a pasta da Irmandade todo santo dia, é campanha difamatória com ave treinada.
O escrivão parou de digitar.
Campanha difamatória com ave treinada.
Aquilo merecia jurisprudência.
Jurandir tentou se explicar:
— Eu... comentava em casa que a senhora tinha reservado três números e depois desistido de dois. Dizia que isso tinha me dado prejuízo. O Louro ouviu.
Louro ouviu.
— Ouviu tanto que virou cobrador oficial.
O papagaio inflou o peito:
— Serviço completo!
O juiz propôs acordo.
— Senhor Jurandir, considerando que o animal reproduziu expressões ouvidas em sua residência, o senhor se compromete a não repetir acusações dessa natureza e a orientar o animal para que não mais dirija ofensas à autora?
— Sim, excelência.
— Oriente direito, Jurandir. Porque até agora o aluno está sabendo a lição melhor que o professor.
— E a senhora, dona Zefinha, aceita encerrar o conflito mediante retratação?
— Aceito, mas ele vai ter que pedir desculpa na frente de todo mundo.
— De que forma seria feita essa retratação?
— Na feira. Sábado. Na barraca do pastel. Foi lá que ele gritou mais alto.
O juiz pensou por um instante.
— Senhor Jurandir?
— Por mim, tudo bem.
— Pelo papagaio? — perguntou Zefinha.
Todos olharam para Louro.
O papagaio coçou o bico no ombro do dono.
— Depende do cachê.
A audiência terminou com acordo homologado: Jurandir não faria mais qualquer cobrança pelos dois números dos quais Zefinha havia desistido, nem repetiria comentários que colocassem em dúvida sua reputação; Louro faria retratação pública e, por trinta dias, ficaria proibido de mencionar dinheiro, dívida, calote, rifa, fiado ou qualquer expressão semelhante na presença de dona Zefinha.
No sábado seguinte, a feira parou.
Seu Jurandir chegou com Louro no ombro. Dona Zefinha estava sentada em uma cadeira de plástico, braços cruzados, dignidade de rainha ofendida.
Ao redor, a cidade inteira esperava.
Jurandir pigarreou.
— Louro, peça desculpas.
O papagaio virou a cabeça para o lado oposto, como se tivesse encontrado alguma coisa muito interessante no céu.
— Louro.
Silêncio.
— Louro!
O papagaio soltou um suspiro comprido.
— Desculpa, Zefinha.
A feira aplaudiu assim mesmo.
Zefinha levantou o queixo.
— Desculpa por quê?
Louro revirou o olho redondo na direção de Jurandir.
Jurandir fez que sim com a cabeça.
— Por... falar demais.
— E?
— E por cobrar errado.
— E?
— E por eu ser um papagaio de língua solta, com o bico mais ligeiro que a verdade, e deixar a verdade tão depenada que ninguém mais reconhece.
Um silêncio de fórum caiu sobre a feira. Até o vendedor de tapioca parou de virar a tapioca.
Louro olhou para o pastel. Depois para Jurandir. Depois para Zefinha.
— E? — insistiu Zefinha, sem dó.
O papagaio fechou o bico. Abriu de novo. Fechou.
— E por ser ave de baixa credibilidade.
A feira veio abaixo.
Dona Zefinha tentou manter a pose, mas acabou rindo. Riu tanto que comprou dois pastéis: um para ela e outro para o papagaio.
— Tome, seu desaforado. Mas coma calado.
Louro bicou o pastel com solenidade.
Até que dona Zefinha se levantou para ir embora.
O papagaio, que nunca entendeu de encerramento processual, gritou:
— Zefinha pagou o pastel?
Ela virou devagar.
A feira prendeu a respiração.
Jurandir fechou os olhos.
Dona Zefinha voltou, pegou o recibo do pastel, ergueu no ar e disse:
— O pastel está pago. E tenho recibo! Mas se esse bicho abrir o bico mais uma vez, eu processo de novo.
— O papagaio? — perguntou o vendedor de tapioca.
Ela apontou para Louro.
— Sim. Porque desse jeito eu ainda vou colocar esse réu na panela, com pena e tudo, para um bom almoço.
Louro arregalou os olhos e esticou o pescoço.
Pela primeira vez, ficou calado.


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Inspiração

Minha inspiração nasceu da observação de como palavras de alguém podem ganhar a voz de outro e se espalhar. Escolhi o papagaio porque ele aprende e repete o que ouve. Assim nasceram Louro e Zefinha, decidida a defender o próprio nome. Minha vivência com o Direito ajudou a transformar esse conflito em humor.

Sobre a obra

Meu conto une humor, oralidade, ironia e linguagem jurídica. Zefinha decide processar um papagaio que a chama de caloteira, mas descobre que Louro apenas repete o que aprende. Entre a feira e o fórum, o riso conduz à reflexão sobre quem fala, quem repete e quem responde pelo que é dito.

Sobre o autor

Sou Verônica Galvão, bancária aposentada da Caixa, formanda em Letras/Espanhol, escritora, poeta e advogada. Integro a Academia de Letras e Artes do Nordeste. Escrevo desde a infância e encontro na literatura uma forma de observar comportamentos, brincar com a linguagem e transformar situações humanas em ficção e poesia. Já publiquei três livros.

Autor(a): VERONICA DA SILVA GALVAO (Verônica Galvão)

APCEF/AL