Talentos Fenae/Apcef

Beiçola


Beiçola.
Era como uma família inteira era chamada, no bairro da periferia de São Paulo onde eu cresci. Meninos, meninas, homens, mulheres, todos eram "Beiçola".
A molecada do bairro, se dividia entre jogos de futebol, vestindo camisa de candidatos, e o esforço para desviar do esgoto que descia a céu aberto pela rua sem asfalto, hoje ficou evidente que não era só asfalto que faltava.
Os meninos beiçolas, eram maiores, mais brutos e mais propensos a intervenção policial, comum a todos nós naquele lulugar.
Nós os meninos "normais" do bairro, vivíamos entre o medo de encontrar um deles sozinho em qualquer quebrada, e o prazer jocoso de fazer deles alvo de piadas, quando estávamos em turma.
Uma vez na escola, dividi um pedaço de pão com um deles, um menorzinho, quatro anos mais velho que eu, parecia faminto, com seus olhos grandes e amarelados, sua pele preta manchada e sua cognição afetada, hoje sei, pela desnutrição!
Mal conseguiu me agradecer, soltou um som gutural que se assemelhava a "obrigado", comeu tudo em uma mordida, um tanto de margarina se alojou no canto exterior direito da sua boca cujos lábios proeminentes rendeu-lhe o apelido familiar já citado, eu criança, tive nojo, seu olhar atravessou minha alma, senti vergonha e depois frio. Perguntei seu nome: "Victor Hugo" respondeu, agora soa como um tapa!
Uma vez entraram no quintal da minha casa, e levaram uma bola, muito boa, conquistada em uma campanha promocional de uma marca de guaraná para a copa do mundo. Achei que era rico, havia tomado guaraná e era dono de uma bola.
Malditos beiçolas, pensamos, e juntamos uma turma para ir atrás deles, se tivéssemos forcados, ancinhos e tochas, tal como inquisidores teríamos levado.
Não entendia que a inquisição inevitavelmente viria até eles, não tinha aprendido ainda o papel deles, e nem o meu, na roda do inquisidor.
Não encontramos nada.
A construção em que viviam amontoados me assombrou e me confundiu.
Até hoje não sei se o chão era de terra batida, se havia cômodos, se o cheiro que pairava era de podridão ou de comida sendo preparada, ou os dois.
Se a bola estivesse lá talvez eu nem a quisesse mais, se eu tivesse outra deixaria ali, se eu tivesse qualquer coisa, deixaria.
Lembro da náusea da garganta fechando e o estômago embrulhando, não lembro quando passou, agora entendo os três...
Quarenta anos se passaram, a periferia Paulista é só uma lembrança e por incrível que pareça, saudosa.
Passei a entender as náuseas, os forcados, a tocha, e até o papel do guaraná, na inquisição que ainda queima os beiçolas.
Vivo agora no interior, há algumas semanas uma bola caiu no meu quintal, ninguém reivindicou, está apodrecendo no jardim perto da fonte que ninguém mais visita.
Hoje ao olhar a bola esquecida, lembrei desse caso e dessa época.
Lembrei do Victor Hugo sua boca suja e de como somos miseráveis.
O tempo exerceu seu poder, e me afastou daquele mundo, e devagar na sua forma de agir, foi deixando tudo mais distante, mas não esquecido.
A última notícia daquela familia que chegou a mim, foi a de uma menina, provavelmente bisneta das que eu conheci, carregando o peso da herança de gerações anônimas.
Longeva aos vinte e quatro anos deixou três herdeiros, provavelmente sem bolas e sem guaraná, apenas com a inquisição.

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Inspiração

Aa lembrança da infância na periferia me inspirou a construir um universo, com os elementos das experiências que eu vivi, ouvi, ou presenciei nos idos dos anos 80, este foi meu texto inaugural.

Sobre a obra

As memórias, combinadas com o que venho estudando, me fez ter vontade de expor e falar sobre as várias formas de violências estruturais, ess texto foi o primeiro no resgate do prazer de escrever.

Sobre o autor

Sou só uma pessoa tentando registrar a sua visão do mundo, como tantas outras, e indignado com as estruturas de poder que massacra minorias.

Autor(a): ROBERTO FERNANDES JUNIOR (Roberto)

APCEF/MG


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