Talentos Fenae/Apcef

Infâncias

INFÂNCIAS

 

Tomando um Bourbon ao sol com meu pai na sacada, no primeiro andar da minha casa, observo algumas crianças brincando na rua, cada uma com seu drone, game ou celular, em silêncio.

Mais distante um ônibus passa em uma avenida e faz um retorno, chamando a atenção por quebrar a monotonia do pacato bairro do interior.

Um descuido, a boca queima com o café e o vapor sobe, os óculos embaçam, eu os retiro e esfrego os olhos com as duas mãos.

Esse movimento remete a outro tempo, a outra vida, em que nós, moleques empoeirados, queimávamos nossos pés descalços brincando de pega no campinho improvisado num terreno baldio.

Ali o ônibus virava fazendo o fim da linha.

A menos que estivesse chovendo toda tarde estávamos lá brincando, todos marrons, não importava mais nada.

O "campinho" era melhor que as ruas para brincar, não passava esgoto, não havia casas, ninguém ralhava com a gente.

O único perigo era o ônibus que de três a cinco vezes ao dia entrava ali para fazer a manobra de volta, levantando uma nuvem, na época tsunami, de poeira que embaçava a visão e fazia os olhos arderem, mas isso também era diversão.

De vez em quando alguém aparecia com uma bola, às vezes era de "capotão", nessas horas dividiam-se os times, de camisa e sem, e era final de campeonato mundial!

Certa hora, algumas mães apareciam para chamar, era hora do café, uns corriam para suas casas, outros continuavam jogando ou correndo, só agora sei por que nem todas chamavam.

Às vezes um dos meninos da vizinhança, o Robson, jogava com a gente, ele morava só com sua mãe e ela nunca o deixava jogar se não fosse calçado.

Todos falavam que ela era rica, a sua casa era a única da vizinhança com calçada, alguns diziam que até seu quintal era cimentado.

Uma tarde eu a vi comprando Yakult de uma senhora que passava vendendo em um carrinho.

Pedi a minha mãe que comprasse também, ela disse: “Vou falar com seu pai”. Achei que havia esquecido, ou não dava.

No outro dia, escola, campinho, poeira, pés rachados, joelhos ralados, e no outro, e no outro...

Não era incomum vez ou outra um de nós não aparecer para brincar, resfriados, gripes e feridas misteriosas eram nossos maiores inimigos.

Em uma dessas vezes a vítima fui eu, peguei um resfriado muito forte, e fiquei acamado muitos dias.

Em um deles escuto o barulho característico do meu pai chegando do trabalho.

Escuto os passos dados em seus sapatos puídos se aproximando.

Sinto o cheiro que ele trazia das conduções que tomava.

Por fim vejo um pacotinho de Yakult que ele trazia embaixo do braço.

Ele chega perto da cama, senta-se, abre o pacotinho e me dá uma garrafinha.

Enfia a mão no bolso gasto da jaqueta, tira um chocolate daqueles com recheio de coco, me entrega na outra mão.

Passa a mão na minha testa como se medisse a febre, sinto que disfarçando um afago.

Se levanta e sai...

Não consigo descrever a sensação, mas naquele momento eu era rico.

Hoje o campinho virou praça.

Nunca mais encontrei com aqueles meninos empoeirados e até  então, havia esquecido o Robson e sua mãe.

O esgoto não corre mais na rua.

Respiro o ar puro da beira da serra em que eu moro, faz muito tempo que não vejo uma nuvem de poeira, olho para meu pai, já um pouco curvado, tomando café ali do meu lado.

Ele sorri e balança a cabeça observando os meninos, talvez lembrando da sua própria infância empoeirada...

...

Continuo sendo rico...

Compartilhe essa obra

Inspiração

Esse texto faz parte de uma série de textos, baseados em fatos e percepções da minha infância, em uma periferia de São Paulo.

Sobre a obra

A tentativa de aplicar o "Show dont tell", para tentar replicar ao leitor as minhas percepções sobre a época e o ambiente.

Sobre o autor

Estou Mestrando e psicologia da saúde, e estudo as formas de violências estruturais, e suas implicações nos indivíduos, e voltei a escrever na tentativa de expor essas experiências.

Autor(a): ROBERTO FERNANDES JUNIOR (Roberto)

APCEF/MG


Essa obra já recebeu votos de 0 pessoas

Essa obra já recebeu 0 votos (com peso)

Vote nesta obra

Entre com sua conta para dar uma nota de 5 a 10.