A língua

No princípio, não era a língua.
Prestavam atenção ao homem.
Era jovem e tinha o hábito inconveniente de acreditar no que dizia.
Os primeiros discursos eram escritos à mão. Passava noites inteiras corrigindo períodos, substituindo adjetivos, eliminando excessos. Quando encontrava uma frase muito bonita, desconfiava dela. Quando encontrava uma frase verdadeira, guardava-a.
Durante alguns anos foi sincero.
Ninguém lhe perdoaria isso mais tarde.
Subia à tribuna sem anotações e falava como quem conversa. Os adversários consultavam papéis; ele consultava a memória. Os eleitores gostavam dele. Os jornalistas gostavam dele. Até alguns inimigos gostavam dele.
Foi assim que começou.
O problema surgiu quando descobriu que era admirado.
A princípio recebia os elogios com embaraço.
Depois com gratidão.
Mais tarde passou a esperá-los.
Por fim, passou a considerá-los escassos.
Em certa ocasião, um assessor observou que um de seus discursos continha promessas inexequíveis. O comentário era sensato e feito em tom respeitoso.
Na semana seguinte o assessor foi transferido para um obscuro escritório regional numa cidade distante.
Quando lhe perguntaram a razão da mudança, respondeu que se tratava de mera reorganização administrativa.
Ninguém acreditou.
Talvez nem ele.
Numa manhã qualquer, ao escovar os dentes, percebeu que a língua ultrapassava discretamente os lábios.
Pensou tratar-se de uma inflamação.
Um médico examinou o caso durante vários minutos.
— Oratória — diagnosticou.
O político riu.
O médico também.
Mas nenhum dos dois pareceu completamente convencido.
Já na porta, o médico hesitou.
— Houve um caso parecido há muitos anos.
— Outro político?
— Não, um monge....
O médico pôs a mão sobre a boca, segurando estranhamente a própria língua.
Os meses passaram. A língua cresceu mais dois centímetros.
Coincidentemente, nesse período ele foi eleito para um cargo maior.
Em cada comício ela avançava um pouco.
Em cada elogio, mais um tanto.
Em cada homenagem, outro tanto.
Começou então a colecionar recortes de jornais.
Os elogios eram arquivados.
As críticas desapareciam.
Quando uma revista dedicou quatro páginas a um adversário político, passou três dias irritado.
Repetia a todos que não ligava para aquilo.
Repetia-o com tanta frequência que virou verdade.
Logo precisou acomodar a língua com cuidado dentro da boca. Depois passou a dobrá-la como quem guarda um lenço no bolso. Mais tarde, um assessor foi encarregado exclusivamente de ajudá-lo antes dos pronunciamentos públicos.
Já não eliminava excessos. Sempre uma frase muito bonita. Verdadeira? Quem sabe!
Nessa época surgiu um fato curioso.
Durante um discurso sobre humildade republicana, a língua escapou alguns centímetros.
— Eu sou indispensável.
O microfone captou a frase.
O político interrompeu-se.
Alegou cansaço.
Durante alguns segundos teve a estranha sensação de estar ouvindo os próprios pensamentos.
Não gostou da sensação.
Desde criança preferia escutá-los apenas por dentro.
Dias depois, defendendo cortes orçamentários, ouviu-se outra observação:
— Mereço uma estátua.
Alguns riram.
Alguns fingiram não ouvir.
Alguns aplaudiram.
A partir daí começaram os rumores.
Diziam que a língua tinha opiniões próprias.
Diziam que falava sozinha.
Diziam que, durante a madrugada, era possível ouvi-la ensaiando discursos.
Ele negava.
Mas certa noite acordou assustado.
Havia alguém falando na sala.
Levantou-se.
Acendeu as luzes.
Não encontrou ninguém.
Apenas a própria língua estendida sobre a mesa, movendo-se lentamente entre folhas de papel, pesquisas eleitorais e recortes de jornal.
Parecia ensaiar um pronunciamento.
No instante em que a luz se acendeu, ela recolheu-se rapidamente.
Sua carreira continuou crescendo.
A língua também.
Quando o partido atravessou dificuldades, ela sugeriu mudança de legenda.
Ele recusou.
Semanas depois mudou de partido.
Quando a nova legenda perdeu força, ela sugeriu outra.
Ele recusou novamente.
Meses depois mudou mais uma vez.
Os jornalistas apontavam incoerências.
A língua apontava oportunidades.
O que mais o irritava não era a acusação de incoerência.
Era a ideia de que alguém pudesse julgá-lo.
Certa vez um repórter mencionou uma promessa antiga.
O político respondeu educadamente.
A língua tentou morder o jornalista.
O incidente foi atribuído ao cansaço da campanha.
Com o passar dos anos, tornou-se difícil saber qual das duas exercia maior influência.
Num debate televisionado, respondeu durante vinte e dois minutos a uma pergunta sobre corrupção.
Falou com eloquência.
Citou leis.
Citou estatísticas.
Citou a própria biografia.
Quando terminou, a língua escapou devagar entre os dentes.
— Está mentindo.
Houve um breve silêncio.
Depois acrescentou:
— Mas não mais que os outros.
O silêncio foi tão grande que os técnicos imaginaram um defeito na transmissão.
Pela primeira vez não soube a quem acreditavam.
Pouco a pouco os repórteres deixaram de entrevistá-lo.
Preferiam entrevistar a língua.
Ela parecia mais sincera.
Ou mais cruel.
Talvez ambas as coisas.
Foi então que aconteceu o episódio de que seus partidários jamais gostavam de falar.
Convencido de que estava destinado ao mais alto cargo da República, facilmente convenceu o partido.
Mandou confeccionar discursos.
Escolheu gravatas.
Ensaiou expressões de estadista diante do espelho.
Recebia visitantes já como quem recebe futuros ministros.
Mas a urna decidiu por outros nomes.
Recebeu a notícia com serenidade exemplar.
Serenidade demais.
Recolheu-se.
Esperava receber centenas de telefonemas.
Atendeu poucos.
Aguardava um único telefonema.
Esse nunca veio.
Durante dias caminhou sozinho pela casa.
Releu entrevistas antigas.
Discursos antigos.
Artigos antigos.
Demorava-se especialmente nas passagens em que era chamado de líder natural.
Custava-lhe admitir que a natureza pudesse mudar de opinião.
Sua natureza não admitia evoluções.
Foi nesse período que o ressentimento entrou em sua vida.
Não de maneira brusca.
Entrou discretamente.
Instalou-se numa poltrona.
Permaneceu.
Passava horas imaginando o futuro fracasso de seus antigos aliados.
Visualizava derrotas eleitorais.
Discursos vazios.
Palanques desertos.
E sempre experimentava uma satisfação que logo o envergonhava.
Mas não o suficiente.
Pouco depois desapareceu.
Dias mais tarde descobriram-no em Paris.
Hospedara-se discretamente num hotel às margens do Sena.
Pela primeira vez em décadas podia caminhar pelas ruas sem ser reconhecido.
Ninguém lhe pedia fotografias.
Ninguém lhe pedia opiniões.
Ninguém lhe pedia promessas.
No terceiro dia percebeu que sentia falta disso.
À noite observava o reflexo da própria imagem nas vitrines.
Tinha a impressão de estar diminuindo.
Não fisicamente.
De alguma outra maneira.
Descobriu então que o anonimato, tão desejado pelos homens comuns, lhe parecia uma espécie de morte antecipada.
Na terceira noite a língua escapou pela janela.
Ao amanhecer, os parisienses encontraram uma gigantesca língua rosada pendendo da Torre Eiffel.
Escorregava lentamente pela estrutura metálica, balançando ao vento como uma bandeira viva.
Turistas fotografavam.
Jornalistas corriam.
Especialistas discutiam se aquilo era arte contemporânea.
A língua aproveitou a atenção.
— Fui traído!
Disse isso em português.
Depois em francês.
Depois em idiomas que ninguém conseguiu identificar.
Antes do fim do dia todos sabiam exatamente onde o político estava escondido.
Quando regressou ao Brasil, declarou aos repórteres que jamais estivera escondido.
A língua apareceu por alguns segundos.
— Estava esperando que viessem buscá-lo.
Foi a primeira vez que as duas versões da mesma história apareceram na mesma entrevista.
A velhice chegou.
Ele envelheceu mais rápido que ela.
A língua atravessava corredores. Arrastava-se por tapetes. Ocupava cadeiras inteiras em auditórios.
Em viagens oficiais seguia acomodada em compartimentos especiais.
Mesmo assim continuava crescendo.
Certa vez, durante uma convenção partidária, adormeceu na primeira fila.
A língua levantou-se sozinha.
Discursou durante quarenta minutos.
Falou de patriotismo.
Falou de coragem.
Falou de destino histórico.
Ao terminar recebeu aplausos intermináveis.
O homem despertou sem entender a razão da homenagem.
Ninguém pareceu notar diferença.
Foi a única vez que sentiu medo.
Permaneceu horas sozinho no camarim.
Diante do espelho perguntou:
— Você ainda precisa de mim?
A língua permaneceu imóvel.
Pela primeira vez considerou a hipótese de que ela jamais tivesse respondido coisa alguma.
Talvez todas as vozes tivessem sido suas.
A ideia o aterrorizou muito mais.
Mas o silêncio lhe pareceu uma resposta.
Houve épocas em que a língua parecia sua pior inimiga.
Houve épocas em que pareceu a única voz incapaz de mentir.
Essa contradição o acompanhou.
Nunca conseguiu decidir se era perseguido por ela ou protegido.
Nos anos seguintes tornou-se intolerante a qualquer contradição.
Já não suportava interrupções.
Num jantar, um antigo amigo corrigiu uma lembrança errada de sua juventude.
O político levantou-se.
Passou meses sem dirigir-lhe a palavra.
Mais tarde afirmou não guardar rancores.
A língua riu discretamente.
Falava cada vez mais de legado.
Gostava da palavra.
Repetia-a frequentemente.
Às vezes parecia pronunciá-la para convencer os outros.
Outras vezes parecia uma oração.
Recebeu por fim uma homenagem em sua própria honra.
O auditório estava lotado.
Enquanto discursava, interrompeu-se subitamente.
Parecia escutar alguma coisa.
A língua movia-se devagar sobre o palco.
Como se o chamasse.
Ele deu um passo.
Depois outro.
Em seguida caiu.
Alguns juraram que tropeçou.
Outros disseram que a seguiu.
Morreu antes da chegada da ambulância.
A língua não.
Antes que o corpo tocasse o chão, ela saltou.
Desapareceu.
Durante alguns anos surgiram relatos.
Foi vista num governador.
Num senador.
Num apresentador de televisão.
Num ex-presidente de clube.
Num vendedor de prestobarba.
Sempre de passagem.
Até que os rumores cessaram.
O país esqueceu o assunto.
Anos depois, numa noite transmitida pela televisão, um famoso pastor interrompeu o sermão.
Levou a mão à boca.
Parecia engasgado.
Permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu.
Nada aconteceu.
Pelo menos era o que parecia.
Os sermões tornaram-se mais longos nas semanas seguintes.
As promessas, mais grandiosas.
Os pedidos de contribuição, mais frequentes.
Talvez isso não significasse nada.
Os fiéis atribuíam tudo ao mistério.
Os velhos jornalistas, à migração.
Quanto a mim, nunca soube decidir.
Anos depois assisti a uma entrevista daquele pastor.
Em determinado momento, algo pareceu mover-se atrás de seus dentes.
Foi rápido.
Talvez não fosse nada.
Desliguei a televisão.
Ainda assim, durante toda a noite — posso até morder a língua — tive a impressão de que alguma coisa continuava crescendo no escuro.

Compartilhe essa obra

Inspiração

Não vou dar com a língua nos dentes

Sobre a obra

Não sei, acho que foi a língua, não eu.

Sobre o autor

Mero expectador esperando a oportunidade.

Autor(a): PAULO ROBERTO PEREIRA DE ARAUJO (Paulo Araujo)

APCEF/PE