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Maria Preá
Quando Nero foi vigário
No sertão de Canindé
São Francisco andava a pé
Montado num dromedário
Li num velho calendário
Que nem Pedro quis negá
Lampião foi batizá
Num domingo de folia
Desgraçado já dizia:
Lembre Maria Preá
Beato de profissão
Confessava sem batina
E benzia a menina
Lá da torre de um vulcão
Descobriu um cramunhão
O que não devia achá
Viu Netuno cochichá
Com um anjo da Bahia
Sobre o nome que corria:
Lembre Maria Preá
Dom Sebastião chegou
Num foguete de carvão
Puxou pelo frêi de mão
Que o segredo derramou
Judas foi quem espalhou
Sem recibo pra prová
Nem cartório registrá
Pois a própria escrivania
Só carimbava o que lia:
Lembre Maria Preá
Todo mês o sacristão
Recebia um bode em ouro
Pra livrar de todo agouro,
Imperador do Japão
E cobrava a precisão
De quem queria calá
Prometendo publicá
Num almanaque que havia
A conversa que dizia:
Lembre Maria Preá
Mas um dia o mar Vermelho
Foi cantar no Cariri
E acabou por descobrir
Outro espinho no aparelho
Viu que o mesmo cabra velho
Que vivia a ameaçá
Tinha história pra contá
Bem pior do que a que ouvia
Quando o povo repetia:
Lembre Maria Preá
Desabou o alojamento
Do segredo e da intriga
Cada qual cuidou da vida
Sem recibo ou documento
Foi-se embora o sofrimento
Sem ninguém lhe procurá
Nem juiz averiguá
Se acabou a serventia
Costurei no cu da jia:
Morreu Maria Preá
Inspiração
História clássica e folclórica do Nordeste Brasileiro, um desdobramento.
Sobre a obra
Construção da poesia popular nordestina, em décimas, estética do cordel, do nonsense (característica de Zé Limeira, poeta do absurdo) e do surrealismo sertanejo. A composição utiliza o humor, o anacronismo e a inversão da lógica para criticar a fofoca, a chantagem e os falsos segredos.
Sobre o autor
Vou contar a trajetória de um sujeito singular Que nasceu pra poetar mas não entrou pra história. É! O mundo e sua glória lhe trouxeram um desgosto: Ser bancário a contragosto atrás de um balcão cinzento, suportando o sofrimento que o terno trazia ao rosto. Fechou-se o cofre do dia, ninguém veio averiguar, o Caixa mandou avisar: Morreu Maria Preá!
Autor(a): PAULO ROBERTO PEREIRA DE ARAUJO (Paulo Araujo)
APCEF/PE