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A Fábula do Vestido
Era uma vez um vestido. Contrariando as expectativas em cima de um vestido que se propôs a ser protagonista de uma história, permanecia inominado e sem uso, um vestido inútil. Eis a história do vestido: tinha sido concebido, idealizado e produzido por um príncipe, para que com ele fosse presenteada sua pretendente, uma linda princesa. Ou melhor, uma pequena correção, o vestido foi só comprado numa loja, mesmo. Aliás, cabe dizer também que a princesa não era princesa coisa nenhuma, era uma mulher comum, vivendo uma vida comum, num lugar comum. O extraordinário então sobre nosso herói, o vestido, é que ainda assim ele tenha sido escolhido pelo príncipe (numa loja) para a mulher (comum, que não era princesa). Algo nesses fatos talvez explique a viagem clandestina feita pelo vestido, saindo das mãos da realeza em anonimato para misteriosamente chegar nas mãos plebeias, em silêncio, sem nome, nem destinatário, nem remetente. Como já sabemos, também sem uso, e nem poderia ter. A pretendente sem nenhuma pretensão, mulher comum de vida comum, calhava de ser também absolutamente antimonarquista, e talvez até seja justo dizer que ela era antipríncipes de uma maneira geral. Borbulhava no interior da mulher comum um desejo de não ser aprisionada num mundo idealizado para ser limitante, com seus vestidos, seus castelos, seus sapatinhos de cristal, prisões disfarçadas. Presentes podem trazer clichês e ilusões, armadilhas do capitalismo, da monogamia, do patriarcado, dos finais felizes, das canções e poemas de amor. E lá estava o vestido testemunhando a luta de uma mulher comum para não sucumbir ao cinismo nem se tornar amargurada com suas reflexões. Se, naquele vestido, estivessem contidas noções de privilégios divinos, instituições falidas, hierarquia social, exploração econômica, guerras, colonialismo, então era mesmo um vestido feito para não ser usado. E o vestido, então, teria entendido que um homem que, no fundo, era também comum, mas apegado a um passado retrógrado, seja lá por qual motivo, nunca poderia oferecer seu presente a uma mulher comum com a força de reinos inteiros, porque existe um lapso, um vão filosófico entre as intenções e as possibilidades entre mentes e vidas tão diferentes. Teria entendido, mas não entendeu, porque um vestido não tem inteligência, e se limitou a ser um objeto inanimado esquecido dentro do armário. Seria a história do vestido então um conto de fadas interrompido pela realidade das coisas? Não, porque não existem fadas para mulheres comuns, não tem feitiço nem maldição, só vida comum e história comum de gente comum. E ainda que possa existir um "para sempre", dificilmente ele começaria com um "era uma vez", porque nunca é só uma, existe uma vez e uma outra vez, até que chegue o "nunca mais".
Inspiração
Reflexão sobre temas contemporâneos, a emancipação feminina e movimentos reacionários da sociedade.
Sobre a obra
Pequena paródia de fábula.
Sobre o autor
A ilustre escritora desconhecida que (quase) não escreve.
Autor(a): CHANDRA DE CARVALHO LASSERRE (Chandra Lasserre )
APCEF/BA
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