Nós

Ela me disse, mecanicamente, que eu estava muito tensa, cheia de nós. Suas mãos escorregadias comprimiam minha carne, forçavam cada pedaço retesado daqueles ombros cansados, daquele pescoço rígido, das costas quebradas e intermináveis, enormes.
Eu me sujeitava à dor, com choque, com resignação. Me encolhia ao toque, me diminuía, tentava até não ser, do tanto que me causava estranheza o contato das mãos indiferentes em minha pele solitária.
Eu, tensa. Em mim, nós. Na cabeça, palavras. Com os olhos fechados, ou com os olhos no chão, suportando dor, suportando alívio, as palavras não param, e eu escrevo com a mente, no papel imaginário. Perseguida por ideias, pelo desejo de desabafar, descarregar, e, ainda assim, tensa, nós.
Será que é o nada que me pesa? Não me preocupar com o preço da escola, das compras do mês? Não ter sogra, dívida, meta pra bater? Não ter hora pra chegar, hora pra sair, lugar pra estar, expectativas para atender? Por que tensa, por que nós?
Deitada, descontraindo meus músculos e dentes, divagando, respirando fundo, e tentando tirar das minhas costas a pilha de problemas vazios que não interessam a ninguém, que não importam, que ninguém liga, e que moram comigo, na minha cervical, na minha lombar. Vivemos juntos na mesma casa: minhas dores, meus não-problemas, meu gato, meu ego. Mas para esse não tem massagem nenhuma, eu que me resolva com ele.
Persiste resiliente, dor, vazios, problemas, e nós.

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Inspiração

Um dos muitos textos criados na maca de massoterapia.

Sobre a obra

Um pouco de crônica, um pouco de jogo de palavras.

Sobre o autor

A ilustre escritora desconhecida que (quase) não escreve

Autor(a): CHANDRA DE CARVALHO LASSERRE (Chandra Lasserre )

APCEF/BA


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