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Goiás do Ouro
Goiás do Ouro
Peguei a estrada atrás de uma história.
Não dessas que ficam quietinhas nos livros. Queria uma com data, nome e ponto final.
Queria uma história que tivesse poeira nos sapatos.
Pensei: Vou atrás do ouro.
Não para encontrar ouro, evidentemente.
(Caso encontrasse, teria de mudar a crônica para uma autobiografia financeira.)
Então fui atras da febre.
Porque foi isso que o ouro trouxe para o Goiás: Uma febre.
Bastava alguém gritar:
- Tem ouro!
E pronto.
Caravanas inteira se levantavam.
Homens abandonavam suas casas, juntavam ferramentas, animais, mantimentos e alguma esperança. Vinha de longe, atravessando rios, serras e um sertão que ainda não tinha delicadeza de oferecer uma placa: “Próximo Garimpo, vire à direita”.
Eu imagino essas caravanas chegando.
Primeiro um homem.
Depois dois.
Depois dez.
Depois uma multidão.
Porque ninguém atravessa o sertão carregando uma peneira por simples curiosidade turística.
O ouro tinha esse poder.
É uma palavra pequena capaz de movimentar o mundo inteiro.
Mas havia os que já estavam ali.
Os Índios Goiases conheciam os rios, as matas, e os caminhos. Conheciam a terra sem precisar desenhá-la em papéis.
Então chegaram os outros homens olhando para a mesma paisagem enxergando outras coisas.
Onde havia rio, viam ouro
Onde havia serra, imaginavam riqueza.
Onde havia mata, enxergavam caminho.
É curioso como o desejo modifica a paisagem.
Eu, viajando hoje, vejo uma serra bonita.
O garimpeiro via uma fortuna.
O indígena, via sua casa
Talvez nenhum dos três estivesse vendo exatamente a mesma coisa.
Então veio a febre.
Os rios foram revolvidos, as margens escavadas, as peneiras começaram a girar. E a esperança também.
Cada punhado de terra podia conter uma fortuna.
Ou apenas mais terra.
Mas quem está tomado pela febre não pensa muito nisso.
Pensa na próxima peneirada.
Na próxima curva.
Na próxima linha.
Na próxima noticia:
-Encontraram ouro mais adiante!
E lá ia a caravana novamente.
Acho que há uma coisa muito humana nisso.
Nós somos capazes de atravessar enormes distâncias acreditando que a felicidade esta logo depois da próxima curva.
Naquela época, pelo menos, havia a desculpa de que, as vezes, ela realmente estava .
Vieram os animais, as igrejas, o comércio.
Vieram também os escravizados, carregando nas costas a riqueza que jamais lhes pertencia.
O ouro brilhava
Mas nem tudo naquela história era bonito.
A noite, junto às fogueira, imagino os caras contando vantagens
Alguém dizia que encontrou um pepita daquele tamanho.
E como acontece em toda boa história, a pepita crescia a cada repetição.
Primeiro era um ovo
Depois uma laranja
Mais uma rodada de cachaça já devia estar maior que a cabeça do contador
Até que o ouro acabou
A estrada ficou
O rio ficou
As histórias ficaram
Continuei viajando sem encontrar uma única pepita, e com a sensação de ter chegado muito atrasado numa festa mas mesmo assim ainda conseguia ouvir a música
Noites muito silenciosas mas quase que podia ouvir as caravanas
A tropel dos animais
As ferramentas
As vozes
As promessas
E aquele grito:
-ouro!!!
Por algumas vezes, me banhando naqueles rios, tive vontade de procurar também esse dourado. E tudo que reluzia eu catava na esperança de que nem tudo tivesse sido levado
Depois lembrei que nem peneira eu tinha e sinceramente, depois de tantos séculos, provavelmente “alguns alguéns” já teriam tido a mesma ideia.
Inspiração
Na nossa ultima ida a Pirenópolis, fomos conhecer o Museu das Lavras do Ouro e nos deparamos como uma historia da qual já ouvíamos, nas milhares de expressões do cotidiano de quem tem família Goiana.
Sobre a obra
Quis trazer uma linguagem um pouco mais cômica, trazendo a historia para perto daquele do narrador turista. Deslumbrado por todo o fascínio que traz a ideia de encontrar ouro na terra, nos rios
Sobre o autor
Adoro boas historias, adoro escrever e se pudesse passaria horas imaginando essas situações reais por traz de cada "causo"
Autor(a): Luciana da Silva Pereira Magalhães (Luciana da Silva Pereira Magalhães)
APCEF/DF
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